ALCA, o
neocolonialismo americano, por Olívio Dutra
Desde Simon Bolivar, o sonho de integração
da América paira sobre nós como uma esperança de união
de povos marcados por uma trajetória comum de colonização.
Um sonho de União baseado na fraternidade e na solidariedade. Mas
esta esperança parece não ser compartilhada pela maioria
dos governantes do continente americano. Pois quando falam em integração
americana, apontam a ALCA. Uma proposta que desconsidera a solidariedade
garantindo direitos e vantagens ao grande capital sem se preocupar com
as regiões e setores menos favorecidos.
A ALCA poderá
representar um neocolonialismo e não a união dos povos americanos.
A proibição de importação de outros países,
que havia na era colonial, será substituída por um mecanismo
mais sofisticado, que é a vantagem tarifária para os produtos
vindos da metrópole.
A proibição
formal de instalação na colônia de indústrias
de capital nacional será substituída por uma proibição
tecnológica pois a brutal vantagem competitiva dos conglomerados
metropolitanos poderá impedir o nascimento de atividades econômicas
locais.
A garantia que os cidadãos
metropolitanos tinham de serem regidos pelas leis de seu país, mesmo
estando em solo colonial, poderá ressurgir transfigurada em uma
legislação que garante a rentabilidade dos investimentos
externos no nosso país. Ou seja, se, por exemplo, resolvermos adotar
legislações ambientais mais rígidas que impliquem
em custos de preservação do meio ambiente para as indústrias
multinacionais aqui instaladas, provavelmente teremos que indenizá-las
pela redução de seus lucros.
A situação
clássica do colonialismo, no qual exportávamos matérias
primas e importávamos produtos industrializados acabados, ameaça
retornar. A abertura abrupta e descriteriosa de nossa economia a esta nova
metrópole, num cenário internacional caracterizado pela contínua
queda dos preços dos produtos primários e pela alta capacidade
tecnológica e competitiva dos EUA, poderá permitir uma ampliação
de nossas exportações de produtos básicos, semi-elaborados
ou pouco industrializados. Mas, certamente, em contrapartida, teremos o
crescimento das importações de produtos com alto valor agregado.
Nossa dependência deverá se ampliar. Como se não bastasse
tudo isso, há ameaças muito mais graves na proposta da ALCA
pois envolve muito mais que questões comerciais e tarifárias.
Eles querem ressucitar o Acordo Multilateral de Investimentos, o MAI, que
pela correta ação do movimento social europeu foi impedido
de vigorar no âmbito da OCDE. Agora que os EUA não conseguiram
convencer, os europeus querem nos provar que isto é bom para o Brasil
e para a América Latina.
Com o MAI não
poderá mais haver distinção entre empresa nacional
e estrangeira. Não será mais possível elaborar políticas
que desenvolvam e fomentem o empresariado nacional. Tudo que beneficiar
as empresas brasileiras deverá estar disponível também
para as norte-americanas. E mais, haverá abertura para a intervenção
privada em todas as áreas. Com isto, nenhum país poderá
proibir a presença da iniciativa privada em áreas como saneamento,
saúde e educação. Se ele for plenamente implementado,
o capital especulativo terá livre mobilidade e, caso sejam impostas
barreiras, os governos terão que indenizar os especuladores pelas
suas perdas.
Não há
como desconsiderarmos isto. Não queremos um futuro que retrate o
passado. A constituição da ALCA não representa uma
certeza inexorável. É necessário esclarecer e mobilizar
a população latino-americana. Não podemos aceitar
a implementação da ALCA, pois o que está em jogo não
é a liberdade econômica. O que está em jogo é
a soberania nacional dos povos latino-americanos. O reforço e a
qualificação do MERCOSUL é prioritário.
Olívio Dutra é governador
do RS
Fonte: http://www.estado.rs.gov.br/welcome.php
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