O resgate
do parâmetro humano, por Démerson Dias
Hoje os limites da chamada ciência
econômica são melhor conhecidos, mas o físico Albert
Einstein já nos lembrava em 1949 (Por que Socialismo?) que, como
o socialismo visa superar a fase predadora do desenvolvimento humano, aquele
ramo da ciência não pode lançar muita luz sobre o futuro
da humanidade e do socialismo. Não cabe à parte decifrar
o todo, ainda que possa agregar elementos para tanto. Justamente por saber
disso, o capitalismo necessita convencer ao mundo de que a realidade que
vemos não é real, e que a “verdade”, ao invés de ser
a expressão da realidade, corresponde à interpretação
(na verdade, propaganda) que os meios de comunicação tratam
de ministrar persistente e constantemente aos povos de todo o mundo. Para
tanto, é necessário que a economia funcione como um oráculo,
mistificador de todas as tendências. E transformar a economia em
mistificadora de tendências.
Dentre todos os que comentaram
os desafios e perspectivas para o Fórum Social Mundial de 2001,
creio que Luis Fernando Verissimo foi especialmente feliz ao resgatar uma
idéia singela, mas soberbamente significativa.
A ousadia do FSM, tanto o anterior quanto este, é devolver ao humano
o status de parâmetro de todas as coisas. Pois essa é a medida
que nos contempla indistintamente.
Ao contrário do
que se pretende fazer crer, é o modelo capitalista que está
sendo superado pela história humana, ao buscar se impor como alternativa
única e derradeira. É a “utopia” apresentada pelo capitalismo
que provou ser um engodo. É a “sábia” tutela dos mercados
sobre a sociedade que tem impulsionado atrocidades sem par. A “guerra fria”
acabou, mas a paz não nos alcança, pois, insaciável,
o capitalismo forja novas (e velhas) guerras, antes mercantis do que militares.
Assim como os regimes
pretensamente socialistas falham justamente quando tentam copiar os equívocos
capitalistas e tirar o humano do centro das preocupações.
Basta observar onde foi parar a promissora revolução tecnológica
do capitalismo. No passado ela iria “libertar” o ser humano da escravidão
do trabalho. Hoje trabalhadores estão entre o fogo e a caldeira.
Se não são escravos do trabalho, são vítimas
do desemprego. O trabalho, longe de nos libertar, nos emburrece e mortifica.
Em momento algum os avanços tecnológicos ocorridos nos meios
de produção representaram melhoria efetiva nas condições
de vida dos trabalhadores. Ao contrário dos patrões, sobretudo
os maiores, que foram regiamente beneficiados.
Não se trata de
um fenômeno isolado. A miséria na África serve de álibi
para o “cobaiamento” de seres humanos. Tal é a desfaçatez
das elites que já nem se importam mais de esconder as evidências
de seus crimes. Agora buscam justificá-los. Isso para não
falar nos tráficos de escravos e órgãos, em todos
os sentidos mais, degradantes e perversos do que os de armas e drogas.
Para os otimistas profissionais,
deveria bastar olhar em volta para perceber que a barbárie não
é uma perspectiva futura, mas já está instalada na
sociedade. Talvez este seja o principal recado histórico do fatídico
11 de setembro. Creio que não seria por demais presunçoso
afirmar que se houver uma alternativa à barbárie esta se
encontra nos marcos do socialismo, justamente pelo resgate do parâmetro
humano. E, mais que isso, na formulação marxiana, sua emancipação.
E não é possível emancipação (ou libertação)
alguma se nos aferramos aos nossos erros. Nossos erros podem ser lastros
ou trampolins. E já convivemos tempo suficiente com o capitalismo
para sabermos a quê veio.
Pessoalmente não
me preocupa se o nome que daremos é comunismo, quilombo, utopia,
ou falanstérios. Mas não haverá esperança se
não tomarmos a decisão de vencer nossos próprios limites
e nossos próprios erros. Ao contrário do que diz o ditado,
pau que nasce torto cresce. A sinuosidade antes de um padrão estético
é história de busca por melhores condições.
É possível
e necessário buscar por um mundo melhor. Ainda que tenhamos que
lutar por ele.
Démerson Dias
Consciência.Net