O exemplo de duas faces
Mas, no repique da decisão
que arrancou os silenciosos aplausos da platéia dispersa pela imensidão
continental do país, o Senado, seguido pela Câmara, tocados
pelo espírito natalino, entenderam-se em fraterna solidariedade
corporativa para conceder um aumento de 20% ao seus servidores. E que se
contam por milhares, noves fora os assessores dos gabinetes de senadores
e deputados e que recebem pela verba confiada à severa vigilância
dos parlamentares.
À primeira vista,
choca a noticia, no tranco seco dos números e das comparações
que suscita. No Senado, que iniciou a contradança, o reajuste médio
de 20%, embrulhado no papel grosso e opaco dos clássicos pacotes
dos planos de cargos e salários, pingará nos sapatos da conta
bancária de 4.123 agraciados, mimos de generosidade de vibrar a
corda do peito. O aumento contempla, com equânime magnanimidade,
os pensionistas e aposentados.
O menor salário
base do Senado infla para R$ 2.638 e o de consultor legislativo iniciante
chega a R$ 5.330. Francamente, não é muito. Lá no
pico, nas alturas do consultor legislativo com anos de atividade, a proposta
dispara os salários para o céu de R$ 16 mil. Para quem chega
ao fim de carreira especializada, só é estranhável
a sem-cerimônia com que fura o teto.
A ciranda da fuga
Mas, que teto? Em sete
anos de mandato, o presidente Fernando Henrique não conseguiu definir
o teto para os três poderes nas poucas tentativas de reuniões
com os presidentes do Supremo Tribunal Federal, do Senado e na Câmara
dos Deputados. Há muito que não se houve falar no assunto,
devidamente enterrado nas gavetas da burocracia. E sem teto, segue a procissão
da bagunça carregando o andor da Viúva, que paga a conta
com o nosso dinheiro.
Véspera do Natal
que movimenta as ruas na queima do 13º salário na excitação
da compra de presentes, cria o clima da tolerância que abranda a
severidade da crítica e adoça o azedume das cobranças.
Tocado pela magia do mais belo período do ano que se despede e do
que chega com seu baú de esperanças, tento justificar a liberalidade
do Congresso com a alma limpa de prevenções e a ingenuidade
da inocência.
Exemplos
O Senado que saiu à
frente, a Câmara que seguiu atrás na mesma toada dos 20% de
reajuste linear aos seus milhares de servidores desfrutam as vantagens
da independência dos poderes para garantir aos seus servidores salários
razoáveis, com os excessos dos marajás de estimação.
Ora, em primeiro lugar, que autoridade moral têm os senadores e deputados
para negar aos seus servidores o repasse de algumas vantagens do seu cesto
abarrotado de privilégios?
Na eleição
dos presidentes das duas Casas, as plataformas dos candidatos vencedores
e derrotados incluía, entre outras bugigangas, a promessa do aumento
indireto de salários com a concessão de novas verbas para
os gabinetes. Nichos de empreguismo, de nepotismo e de gastança
com extras para telefones, despesas com correio. Além, claro, dos
por fora das passagens semanais para a farsa da visita às bases.
O parlamentar realiza o prodígio de ganhar pouco e receber muito.
A renda familiar bem administrada pode passar de R$ 40 mil.
Barnabés de luxo
Os barnabés de luxo
do Legislativo, do Judiciário, dos tribunais de conta, de carreiras
paparicadas do Executivo certamente afrontam a indigência dos verdadeiros
barnabés de salários miseráveis, com o cinto no último
furo, a um passo da mendicância com as roupas cerzidas e as panelas
vazias. Dias antes de cuidar do bem estar dos seus servidores, a Câmara
e o Senado aprovaram o reajuste linear de 3,5% para os servidores públicos.
E o Executivo cumpriu o dispositivo constitucional que obriga o reajuste
anual em janeiro debaixo de vara, curvando-se à decisão do
Supremo Tribunal Federal para encaminhar a proposta ao Congresso.
Depois de sete anos de
salários congelados, a perda do poder de compra, pelos cálculos,
vai a mais de 70%. Ora, 3,5%, depois de sete anos a nenhum, reconheça-se
que é uma esmola, menos que uma gorjeta. Claro, há categorias
que recebem reajustes e gratificações especiais. Mas, o grosso,
o barnabé sem padrinho tem sido maltratado como judas de aleluia.
Modelo
O Congresso, o Judiciário
estão oferecendo à insensibilidade do Executivo o modelo
do barnabé de luxo, tratado como gente, recebendo salários
razoáveis. Claro, que a carne é fraca, é que os parentes,
cupinchas, puxas e espertos levam suas vantagens.
Mas a intenção
dos parlamentares e dos togados é a mais nobre e de transparente
generosidade. É como se gritassem, em uníssono, às
portas do Palácio do Planalto: mirem nos nossos exemplos. E deixem
de sovinice.
Verba, quando o governo
quer, sempre aparece.
Villas-Bôas Corrêa
Correspondência: villasbc@no.com.br
Fonte: http://www.no.com.br/revista/noticia/51399/atual
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