Os equívocos
do projeto de Código Florestal, por João Alberto Capiberibe
O acirrado debate em
torno do substitutivo ao Código Florestal – o chamado projeto Micheletto
– votado na Comissão Mista do Senado e Câmara dos Deputados,
mais uma vez, tangenciou o verdadeiro ponto de interesse para os habitantes
da região e todos os brasileiros preocupados com a preservação
e, sobretudo, a utilização correta dos recursos de nossa
biodiversidade. O grande embate girou em torno dos percentuais de floresta
liberados ao cultivo ou destinados a servir como reserva preservada quando,
na verdade, a principal questão seria discutir como aproveitar melhor,
e de forma sustentável, os recursos da "floresta em pé",
ou seja, o uso econômico e não predatório de espécies
vegetais.
A votação
ocorrida no início de setembro serviu para descaracterizar o projeto
do Ministério do Meio Ambiente e demonstrar a força da bancada
ruralista no Congresso Nacional, que obteve importante vitória defendendo
interesses particulares e muitas vezes próprios, em detrimento do
que pensam e necessitam os moradores da região e cientistas do Brasil
e do mundo. Para justificar seu voto, muitos deputados federais e senadores
– parte deles também proprietários de terras – alegaram que
reduzir a área de preservação ou ampliar o percentual
autorizado para desmatamento seria uma forma de assegurar a riqueza da
região, livrando-a, inclusive, da ambição estrangeira.
Ao insistir nessa tese, entretanto, os ruralistas parecem querer vender
de maneira mais palatável para a sociedade a idéia de que
haveria uma relação direta entre a ampliação
da área agricultável e o aumento da produção
agrícola, deixando implícito que o mesmo raciocínio
valeria para a pecuária na região amazônica. Propositalmente,
esquecem de destacar que já existem enormes áreas desmatadas
– há denúncias que falam em milhares de hectares de terras
nessa situação – e que poderiam ser utilizadas para esta
finalidade. Também deixam de argumentar que a baixa produtividade
agropecuária em nosso País está mais associada à
falta de informação, suporte tecnológico e linhas
de crédito aos produtores que a qualquer restrição
quanto ao uso de grandes extensões de solo.
Na prática,
o projeto aprovado pelos parlamentares converte-se em séria ameaça
à biodiversidade da região. Esta é nossa verdadeira
riqueza. A exploração correta e inteligente dos recursos
da reserva legal (frutos, essências e até mesmo madeira, desde
que integrada em programas de manejo) é apontada por especialistas
como a maneira mais adequada de simultaneamente garantir o sustento da
população local e preservar toda a complexidade de vida da
floresta, incluindo as matas ciliares e a fauna.
Não
se trata apenas de repetir o velho e nem por isso menos verdadeiro discurso
esclarecendo que qualquer dano mais grave a este ecossistema trará
conseqüências globais, com menor combate aos gases que provocam
o efeito estufa. Isto sem falar nos prejuízos à imagem internacional
do Brasil enquanto potência ambiental. A principal questão
é que, conforme comprovam as últimas descobertas nos campos
da genética e da biotecnologia, o grande diferencial competitivo
das nações no século XXI será sua capacidade
de utilizar, seja no campo farmacológico ou diversos segmentos industriais,
seus recursos naturais exclusivos.
Derrubar
florestas pura e simplesmente serve apenas para destruir o solo, reduzir
ainda mais as reservas de água potável e colaborar com quem
aproveita seu poder econômico para obter vantagens. É também,
e principalmente, abrir mão do futuro, seja ele um ar mais puro
para se respirar ou os royalties obtidos com a comercialização
mundial de artigos sofisticados produzidos com base em nossos recursos
naturais, muitos deles ainda desconhecidos e autóctones da Amazônia.
João Alberto Capiberibe
é governador do Amapá.
Consciência.Net