O pacote da
barbárie, por Reginaldo de Castro
O pacote antiterror anunciado pelos
Estados Unidos traz fundados temores a todo o mundo democrático
e civilizado. As cortes militares secretas, instituídas por ordem
executiva do presidente George W. Bush, permitem que qualquer não-americano
"qualificado" como terrorista, sabe-se lá por quem, seja posto sob
custódia do Departamento de Defesa e julgado em sessão especial
secreta, sem direito de recorrer aos tribunais civis.
Não é só:
essas cortes de exceção podem ser formadas em qualquer parte
do Mundo, e não apenas em territórios sob jurisdição
norte-americana. Em tese, os americanos podem, por exemplo, fazer detenções
em Foz do Iguaçu, território brasileiro, onde sustentam haver
célula da rede terrorista Al-Qaeda, sem dar satisfações
a ninguém.
Além de infringir
o direito internacional, legislando extraterritorialmente, os Estados Unidos
traem seu próprio ideário democrático, impedindo que
o sagrado direito de defesa seja exercido. Na prática, o pacote
antiterror, editado em plena guerra contra o terrorismo de origem árabe,
deflagra uma onda racista. São os árabes e seus descendentes
– que no Brasil constituem 10% da população e 25% de nossos
representantes parlamentares – que estarão sendo alvo de perseguição,
em diversas partes do Mundo.
Já se registraram,
desde os atentados de 11 de setembro, diversos casos de pessoas de etnia
árabe expulsas de aviões (um, inclusive, de companhia brasileira,
em solo francês) pelo simples fato de serem árabes. No Aeroporto
de Milão, na Itália, um professor paquistanês foi detido
por algumas horas por sua semelhança fisionômica com Osama
Bin Laden. Passou grandes transtornos até provar que não
era o terrorista saudita. Em Moscou, três rapazes foram espancados
e mortos por populares pelo simples delito de terem nascido árabes.
Nos Estados Unidos, já se registraram alguns casos equivalentes.
Em todos, tem-se um misto
de tentativa de justiça sumária e vingança, que resulta
em barbárie, onde os milhares de inocentes e os raros culpados são
lançados na vala comum dos condenados. Basta haver uma suspeita
e não há direito de defesa. Inverte-se o rito regular de
qualquer das formas de julgamento: sentencia-se, executa-se e, depois,
investiga-se – ou não.
Quando uma atitude dessas
parte da multidão, há ainda meios de contê-la, doutriná-la,
policiá-la. Quando parte da maior potência bélica do
planeta, o que se tem é a multiplicação do terror
e o sentimento de impotência por parte do mundo civilizado. O pacote
antiterror institucionaliza a barbárie.
A advocacia americana
– com a qual deverão se solidarizar os advogados de todo o mundo
– que cultiva tradições democráticas e humanísticas,
reagiu com veemência, como era de se esperar. Mas até aqui
não obteve resultados concretos. A síndrome de donos do mundo
já fez com que os Estados Unidos legislassem anteriormente para
fora de seu território, quando pretenderam excluir de suas relações
comerciais os que mantivessem relações com os seus inimigos.
Pretendiam assim isolar Cuba e Iraque, num gesto vingativo inaceitável.
O mundo civilizado compreende
perfeitamente a necessidade de pôr fim ao terror. E não hesitou
em hipotecar solidariedade e apoio aos Estados Unidos após os inomináveis
atos de 11 de setembro. O terror, venha de onde vier, merece repúdio
e é inadmissível sob qualquer pretexto. Isso, porém,
não significa que se deva abrir mão de conquistas elementares
do processo civilizatório – o que, na prática, significaria
um triunfo do terror.
A supressão do
direito de defesa é intolerável. A autolicença para
fazer justiça em território alheio fere a soberania dos povos.
O Brasil, que tem visto parte de seu território – a já citada
Foz do Iguaçu – relacionada, sem provas, como base de ação
terrorista, tem motivos de sobra para temer a arbitrariedade do pacote
antiterror.
O mais grave é
que ele não se esgota em si: exporta para o mundo uma visão
de intolerância e racismo altamente preocupante. No passado não
muito distante, fomos atingidos por essas ondas, como ao tempo do nazifascismo,
que aqui gerou o Estado Novo.
O pacote em questão
não deve nada aos éditos de Hitler, Mussolini e Stalin.
Reginaldo de Castro foi Presidente nacional
da Ordem dos Advogados do Brasil – OAB.
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