A
Luta Continua, por Artur de Carvalho
Ela começou a falar e falar.
Falar que as coisas não podiam ficar do jeito que estão.
‘Você entende?’, ela perguntava. Eu com a cabeça dizia que
sim. Ela continuava. Dizia que seria muito mais fácil se as pessoas
dividissem as coisas, se houvesse uma espécie de teto para os salários.
- Porque a gente precisa
tanto do lixeiro quanto do médico, não precisa?
Eu respondia que sim.
É claro. Tanto do médico quanto do lixeiro.
- Ou dos advogados,
eu disse.
- É isso. Você
está pegando a idéia.
E dizia que ninguém
podia viver assim, fingindo que não via. Que era hora de se unir.
As pessoas precisam de mais espírito de luta. Os estudantes têm
esse espírito de luta.
- E os intelectuais
têm o respeito da sociedade... Têm que se unir, criar um movimento,
sei lá...
Eu me levantei e fui
tomar um café. Falei para ela esperar um pouco, eu ia até
ali fora, fumar um cigarro. Eu não gostava de fumar em ambientes
fechados. Ainda mais com uma criança de dezesseis anos por perto.
Ela me disse que podia fumar. Ela mesma já havia dado uns tragos.
Não achou graça, mas cada um podia fazer o que bem entendesse
na vida. Era mais uma coisa que ficava martelando a cabeça dela.
Por que é que as pessoas interferiam tanto na vida umas das outras?
Será que não podiam tomar conta das próprias vidas?
Por ela, liberavam tudo.
- Drogas, tudo...
Ela vinha me seguindo,
lá para fora. Chegamos na varanda e eu acendi meu cigarro. Dei um
trago comprido, tentando parecer pensativo. Olhei para ela e perguntei:
- E de que maneira
você pretende implantar essas suas idéias?
Ela me disse que já
tinha uma porção de amigos, que se reuniam toda semana. Que
eles faziam até planos. Precisavam fazer panfletos, espalhar a idéia.
Por que não era uma idéia regional. Era uma coisa que poderia
se transformar numa bola de neve.
- Quem é que
não quer igualdade? Todo mundo quer igualdade. Até as religiões
querem a igualdade. Embora as religiões também sirvam para
amansar a população, mas essa é outra história.
O que estou querendo dizer é que para difundir as idéias
é preciso dinheiro. Para tudo precisa dinheiro. E dinheiro só
os que não querem mudanças têm. Então (nesse
ponto ela olhou em volta e abaixou o tom de voz) nós achamos que
devemos tirar dinheiro na marra. Sequestros, sei lá. Mas só
de banqueiros, esses caras. Tipo Robin Hood, entende?
- Entendo, eu disse,
dando outro trago no cigarro e soltando a fumaça pelo nariz.
Ela continuou dizendo
que tinha uns amigos que entendiam demais de computador. Eram hacker’s.
Explicou que hacker’s são caras que entram em outros computadores
pela internet e fazem o que querem. Perguntou se eu nunca tinha ouvido
falar neles, já tinham entrado até nos computadores da CIA.
Eu já tinha ouvido falar.
- E o que é
que tem os hacher’s?, perguntei.
Ela respondeu que os
amigos dela poderiam entrar nos computadores do governo, desativar cobranças
de impostos, trocar números de contas bancárias. Instalar
o caos. E aí eles se aproveitariam e...tomariam o poder!!!
- Tomariam o quê?
- O poder! Tomaríamos
o poder! Fundaríamos uma sociedade mais justa, onde a riqueza do
país fosse dividida igualitariamente. Logo outros países
veriam que esse é o único modo possível de viver.
Se aliariam a nós, num imenso bloco. Seríamos a outra face
do neoliberalismo. Você não entende? Eu estou falando do futuro.
Um futuro que, queiramos ou não, vai acontecer. O homem evolui para
isso. Seria a sociedade perfeita!
Eu acabei meu cigarro.
Joguei no chão e pisei, esmagando os últimos sinais de brasa
com a ponta do sapato. Sorri.
Ela tinha acabado de
inventar o comunismo.
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