Da Grobo,
da Índia e d'outros quitutes, por Carol
Ontem eu assisti ao Jornal Nacional.
Engraçado.
Lembrei do Marcelo,
lembrei do Marcos e lembrei do Schopenhauer. Aí, vim escrever.
Mentira!
Primeiro, vim escrever.
Então, e só então, lembrei Marcelo, Marcos e Schopenhauer.
É, foi assim. Explico;
Marcelo é amigo
meu internético, de longa data, pecebão e noveleiro. Na época
daquela novela da Camila, ele não perdia um episódio – não
que ele perca algum da Jade, né – e, quando eu tentava tirar um
barato com a cara dele, no meu tom sempre infanto libertário, Marcelo
me dizia, num tom singularmente só, e só dele, de doce ironia,
que a gente precisa conhecer as artimanhas "deles", com intimidade, pra
articular as "nossas". Era mais ou menos assim.
Marcos foi um professor
genial que eu tive na época em que fazia cursinho –"cursinho pra
entrar nas Letras?", a macacada diz. Não! Na época eu tava
pensando em prestar biologia, física, medicina ou biblioteconomia,
seus mocorongos –, ele lecionava História do Brasil e assistia –
ou melhor, dizia assistir – Fantástico. Mas antes de contar que
viu Fantástico, ou Hebe, ou Ratinho, ou Globo Repórter –
ou qualquer coisa similar –, o Marcos falava sempre que ele era um cara
meio masoquista, que curtia ser intermitentemente alfinetado pelos Mecanismos
de Manipulação que cercam as gentes todas do Brasil.
Então, como
eu vinha dizendo ali encima, ontem, depois de uns dois ou três anos,
eu vi o Jornal Grobau... ou melhor, o Jornal Nacional. Todinho, de cabo
a rabo, ainda que ele seja só rabo (preso). E aí, lá
pelas tantas, surge d'além – mar/saco/capacidade imaginativa/inteligência
amebácia – uma matéria acerca da Índia e do povinho
que por ali vive.
O repórter,
que tinha uma voz angelical e que, decerto, teve sua hospedagem num belo
hotel indiano paga pela Fundação Roberto Marinho, falava
– como não podia deixar de ser – da miséria indiana e da
diferença – fodida! – entre classes sociais, que permeia dizer
que norteia, ele não disse – a vida do indiano.
O cara começa
a pisar no tomate desde o início – essa Rede Globo é divertida,
eu penso –, quando descreve entrada e saída duns monges, gurús,
ou sei lá o quês, num culto dentro dalguma coisa parecida
com uma igreja/sinagoga/monastério/mesquita e essas casas de deuses
– sempre únicos, bons, justos e implacáveis. Era assim: os
carequinhas de vestidos deixavam seus chinelinhos – alguns deixavam seus
sapatinhos – lá fora, entravam, davam aquela rezadinha básica
e, na hora em que saíam – pasme!!! –, seus chinelinhos ainda estavam
lá.
É isso aí,
meu amigo. Você percebeu que a Índia é o Paraíso?
Lá não existe o que, aqui no Ocidente, seria enquadrado como
Crime: o Furto Chinelístico. É isso aí. Lá,
cada um pega de volta o seu chinelinho e fica tudo pampa.
Mas as coisas não
pararam por aí. O repórter – aquele mesmo, de voz angelical,
com hospedagem em hotel indiano bacana paga pela Fundação
Roberto Marinho – continua a exaltação à Índia
e ao indiano, mencionando o episódio – televisivo – em que, deixados
microfone e câmera numa mesa de boteco – o que me deixa realmente
intrigada... eu nem sabia que na Índia existiam botecos –, nadica
foi roubado, apesar da pobreza do lugar – ressalto aqui o "apesar", porque,
se há pobreza, e nisso até repórter global concorda
comigo, o óbvio ululante rodrigueano prega como solução
o roubo.
Aí, ele – ele
mesmo, o cara que ficou lá na Índia falando abobrinha, financiado
pela Central Globo de Picaretagem e Babaquice – solta o seu "gran finale",
alguma coisa do tipo: essa Índia, pacata, harmônica e tudo
mais, é a Índia de Gandhi.
Ué... essa Índia
é a de Gandhi? A Índia pacata, fodida, esmagada? A Índia
de Gandhi é essa que toma ferro todo dia, existe de miséria,
morre de fome e fica quieta vendo a banda passar?
Engraçada a
maneira como a gente aí se vale – se apropria – descabidamente,
duns discursos alheios pra criar ideal, não é? Engraçada
a maneira com a qual uma filosofia pacifista se encaixa direitinho no ideal
Global – plinplin! – de Brasil, não é?
Ah, eu tinha esquecido...
porque lembrei de Schopenhauer;
"A mais eficaz consolação
em toda a desgraça, em todo o sofrimento, é voltar os olhos
para aqueles que são ainda mais desgraçados do que nós:
este remédio encontra-se ao alcance de todos. Mas que resulta daí
para o conjunto?
Semelhantes aos
carneiros que saltam no prado, enquanto, com o olhar, o carniceiro faz
a sua escolha no meio do rebanho, não sabemos, nos nossos dias felizes,
que desastre o destino nos prepara precisamente a essa hora – doença,
perseguição, ruína, mutilação, cegueira,
loucura, etc.
Tudo o que procuramos
colher resiste-nos; tudo tem uma vontade hostil que é preciso vencer.
Na vida dos povos, a História só nos aponta guerras e sedições:
os anos de paz não passam de curtos intervalos de entreatos, uma
vez por acaso. E da mesma maneira a vida do homem é um combate perpétuo,
não só contra males abstratos, a miséria ou o aborrecimento,
mas também contra os outros homens. Em toda a parte se encontra
um adversário: a vida é uma guerra sem tréguas, e
morre-se com as armas na mão". – das Dores do Mundo, Schopenhauer.
Engraçado. Não
fosse trágico.
Carol
Consciência.Net