Os clones, por Fernando Canzian
São Paulo. É uma aberração o que a TV Globo e a candidatura do PFL de Roseana Sarney levaram ao horário nobre da televisão nesta semana. Nos intervalos de "O Clone", entrou Roseana. E na novela, o Maranhão.

    "O Clone" foi ao auge na terça passada. O personagem Léo (o ator Murilo Benício) reapareceu depois de um sumiço de anos. Resultado de uma clonagem, ressurgiu dando cambalhotas em dunas maranhenses em Lençóis. Lá, foi visto por um tal dr. Albieri (Juca de Oliveira). Autor da clonagem, Albieri curtia o Estado, elogiando as belezas da terra.
    Na TV, o Maranhão é lindo: não há pobres em São Luís, lavadeiras sorriem batendo roupa na beira do rio e as crianças só brincam. Deve ser porque só metade das casas têm água encanada. E pelo fato de o Estado ser o quarto pior do país na ocupação de bancos escolares. Quanto ao sumiço dos miseráveis, mistério. O Estado segue como o mais pobre do Brasil, segundo o Censo 2000.
    Roseana não tem culpa. Está no poder só há sete anos. É sua família quem manda no Estado desde 1966, quando seu pai, José, assumiu o governo e fez sucessores.
    Em intervalos comerciais, Roseana já apareceu em vários canais, é verdade, mas nunca com tanto público. A audiência da novela, na expectativa da reaparição do Léo clone, bateu 50 pontos. Só em São Paulo, significam 2,2 milhões de domicílios. Escancarado o subliminar, engoliu-se, alternadamente, o Maranhão de Roseana e a Roseana do Maranhão.
    A família Sarney é dona do maior grupo de comunicações do Maranhão, onde controla quatro emissoras afiliadas à TV Globo. O ex-presidente Sarney (1985-90) teve como ministro das Comunicações o tempo todo o cacique-mor do PFL, o ex-senador ACM. Que, aliás, tem seu primogênito afiliado à Globo na Bahia.
    No final dessa trama toda, ficamos realmente confusos: afinal, quem tem mesmo o DNA de quem?

Fernando Canzian

Fonte: Jornal Folha de São Paulo


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