Treinados para a Indiferença, por Cristovam Buarque
Se nos tempos de Hitler houvesse televisão em cadeia mundial, ele não teria conseguido manter por tanto tempo campos de concentração, nem fazer o gueto de Varsóvia. A opinião pública teria apoiado a guerra contra o nazismo desde o seu início. A falta da televisão atrasou o enorme esforço feito para barrar o avanço do totalitarismo. Hoje, o mundo assiste indiferente aos horrores em escala global. Porque vivemos um tempo de indiferença.

No Oriente Médio, há anos assistimos pela televisão ao momento quase exato em que jovens palestinos se suicidam assassinando jovens israelenses e em que soldados israelenses se embrutecem matando jovens palestinos. Cada qual dizendo defender sua própria terra, eles sacrificam e se sacrificam, diante da indiferença do mundo. Porque o mundo vem treinando há décadas para ficar indiferente.

O terror deve ser interrompido não apenas em defesa da vida de suas vítimas, mas em defesa também dos próprios jovens que se suicidam matando; a brutalidade dos soldados deve também ser interrompida, não apenas em defesa de suas vítimas, mas também dos próprios soldados, que ficarão para sempre embrutecidos pela ação violenta que hoje praticam. Mas o mundo assiste ao martírio dos inocentes cujo único erro foi estar em um café no momento em que ali explode uma bomba que eles não esperavam, ou o martírio do terrorista que deliberadamente explode a bomba em seu próprio corpo; ou do jovem palestino vítima de um tiro do soldado israelense; ou o sofrimento do próprio soldado com o corpo protegido dentro de um tanque monumental, mas o espírito vitimado pelas maldades que lhe mandaram executar.

Vivemos um mundo onde todos são vítimas, sem uma indignação que faça parar a tragédia. E assistimos em cadeia nacional às explosões, aos tiros, às mortes, porque fomos treinados para isso. Há décadas, assistimos às imagens de crianças morrendo de fome, em um mundo com excedente de alimentos; assistimos a milhões morrendo de Aids, quando a ciência já oferece coquetéis salvadores; vemos crianças trabalhando, adultos desempregados, famílias sem atendimento médico, tudo diante da indiferença. Um mundo que tem quase US$ 40 trilhões de renda mundial concentrada em poucos países obriga os povos pobres a pagarem US$ 300 bilhões por ano de serviço da dívida, quando apenas 0,1% da renda total seria suficiente para abolir o trabalho infantil, levando 250 milhões de crianças para a escola. Tudo isso diante da indiferença dos governos, dos organismos internacionais e da opinião pública. Diferentemente da inocente população nos tempos do nazismo, que não sabia o que acontecia, a população mundial de hoje não pode dizer que desconhece a realidade. Ela assiste à tragédia em cadeia mundial de televisão.

Há cinqüenta anos, as fotos em branco e preto dos campos de concentração nazistas horrorizaram o mundo, quando publicadas em revistas, anos depois de terem acontecido. Hoje, assistimos ao vivo e em cores, pela televisão, a cenas ainda mais dramáticas de campos de concentração da modernidade, sem cercas, nem guardas, sem totalitarismo, nas estepes africanas ou na periferia das grandes cidades de qualquer país. E pouco se vê de horror ou indignação.

Os filmes sobre o gueto de Varsóvia nos chocam até hoje, mas não nos chocam as cenas reais transmitidas pela televisão dos modernos guetos que são as favelas dos pobres excluídos, não importa a cidade do mundo onde estejam. Porque, banalizando a tragédia, treinamos para a indiferença e endurecemos nossos corações.

A modernidade da globalização espalhou pelo mundo campos de concentração e guetos, sem preconceitos étnicos, sem opção política, sem necessidade de totalitarismo, acobertados pela indiferença que domina nossos tempos. Dentro de décadas, quando escreverem a História de nosso tempo, não será o avanço técnico nem a riqueza que definirão nossa era. Também não poderá ser a pobreza, porque ela é apenas uma parte da nossa realidade. Os historiadores terão de encontrar uma expressão que indique ao mesmo tempo a riqueza e a pobreza, a democracia e os campos de concentração da modernidade, o avanço técnico e os guetos modernos. O nome mais apropriado para nossa era será: tempo de indiferença.

Hoje, vivemos na indiferença diante de todas as formas de perversão que caracterizam a sociedade moderna, na sua extrema riqueza e extrema pobreza, na sua possibilidade de paz e sua realidade de guerra, no seu excedente e sua escassez. Um tempo de indiferença diante dos destinos de crianças que trabalham, de adultos que não têm trabalho, de famílias sem terra, sem teto, sem esperança. Se nos olhassem desde onde estão, os habitantes dos anos 30 e 40 teriam vergonha da nossa desumanidade. Porque eles não foram treinados para a indiferença, como nós estamos sendo, diariamente, a cada dia, diante da televisão que nos mostra os horrores que, de tão vistos, deixam de incomodar.

Cristovam Buarque
Professor da UnB/CDS e autor do livro "Admirável Mundo Atual".


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