Medidas como a aglutinação/diluição de anos letivos em "ciclos" obscuros, diminuição progressiva das médias (atualmente já não se cobra de um aluno sequer 50% de aproveitamento médio), abolição de avaliações periódicas e finais, critérios cada vez menos objetivos de conceituação e a substituição do boletim por "relatórios" igualmente subjetivos só têm contribuído para agravar os já tradicionais problemas da baixa qualificação e motivação (leia-se remuneração)dos professores, altíssima concentração de alunos por turma e evasão escolar, dentre outros.
A pretexto de uma teórica e hipotética "pedagogia moderna", onde se preconiza uma maior liberalização na sistemática de promoção do aluno, o que se faz na prática é abolir todo processo objetivo de avaliação - negando aos pais e responsáveis qualquer referência - e a própria possibilidade de reprovação e repetência.
Muitas destas instruções
são informalmente passadas pela Secretaria Municipal de Educação
às direções das escolas e disseminadas por estas aos
professores. Outras não. A Resolução SME 684, de 18/04/00,
por exemplo, decide, entre outras coisas:
"Que os Estudos de Recuperação
têm que ser paralelos ao período letivo;
Que alunos de 3ª a 8ª
séries com conceito final EP (O obscuro "Em Processo" - de quê?
-, que equivale a um aproveitamento máximo de 39%!!!) receberão,
ao fim do ano letivo, um "plano de estudos" que os habilitem a "nova avaliação
a ser realizada nos 5 primeiros dias letivos do ano subseqüente";
Alunos com EP nos componentes
curriculares de 5ª a 8ª tanto na série regular quanto
na dependência será encaminhado à recuperação
final prevista no calendário da SME."
Não é preciso pensar muito para perceber a imensidão de empecilhos colocados aos mestres para a reprovação de um aluno. Completando o quadro, os professores recebem, extra-oficialmente, "cotas" de reprovação: São orientados a não reprovar, mas se a reprovação for imprescindível, têm que optar entre dois alunos, o inviável e o inexeqüível.
Todo esse processo tem passado ao largo de qualquer crítica. A grande maioria de pais e responsáveis dos alunos de escolas municipais, oriundos dos segmentos mais pobres da população, tem pouca ou nenhuma condição de análise das medidas em curso e de suas conseqüências. Os professores muitas vezes têm essa capacidade, mas ou cedem impotentes às pressões de cima ou estão mais preocupados com suas (graves) questões salariais.
Recentemente, durante uma reunião de pais e responsáveis, uma professora deu uma boa definição do que está sendo gerado em silêncio nas escolas municipais do Rio de Janeiro, dizendo que a prefeitura criou uma nova categoria de aluno, o "analfabeto com status": a criança vai ascendendo na escola até se formar, por piores que sejam seus resultados. Como na prática não há professores, salas ou calendário para um trabalho decente de recuparação ou formação de turmas especiais, as turmas são enormes e os professores - instados a optar pelo "salvamento" dos alunos ao menos medianos - não podem atrasar o andamento das matérias, o que se faz? relega-se ao esquecimento uma parte da turma, fazendo-se vistas grossas à sua aprovação. No ano seguinte estes alunos se apresentarão ainda mais despreparados, dado o aumento da complexidade das matérias. Essa deficiência cumulativa vai implicar nos "analfabetos com status", jovens que aparecem, nas estatísticas e perante a opinião pública, como aprovados, formados, vencedores. O prefeito fará, a cada ano, sua propaganda, alardeando que diminuiu o índice de reprovação. A opinião pública, aliviada, acreditará estar presenciando algum progresso no sistema de ensino.
O resultado desse embuste é a desova, daqui a uma ou duas décadas, de uma legião destes analfabetos com status, num mercado de trabalho ainda mais complexo e sofisticado que o atual. Nas palavras do sociólogo americano Michael Harrington, "se há avanço tecnológico nas empresas sem avanço pedagógico nas escolas, temos fatalmente o avanço da exclusão e da pobreza". Considerando que o Brasil já é campeão em desigualdade e desemprego, e que o Rio é a própria cidade partida, onde essa desigualdade aflora em sua forma mais contundente, podemos antever o que vem por aí. Pra você que estava se perguntando: - mas o que eu tenho a ver com isso, se meu filho estuda em escola particular? - acho que a resposta já está clara: isso tudo é VIOLÊNCIA. E não há computador que vá dar jeito nisso...