Os deuses
não salavaram a América, por Frei Betto
Nossa estrutura psíquica é
alimentada também por mitos, como bem o demonstra Campbell em suas
obras. Dos deuses do Olimpo grego aos heróis de histórias
em quadrinhos fabricadas nos EUA, os mitos servem de projeções
às nossas insuficiências e de compensações às
nossas fraquezas.
Criança, tentei
erguer um saco de cimento após comer uma ratada de espinafre...
E se a minha mãe não tivesse sido levada ao quarto por meu
anjo da guarda, naquele exato momento, eu teria saltado da janela vestido
com a capa do Super-Homem.
O Olimpo dos deuses americanos
desabou com as torres do WTC. A nação que se julgava invulnerável
viu-se, de repente, ferida de morte por terroristas que teriam burlado
até o escudo antimísseis se ele já funcionasse.
Fica a pergunta no ar:
onde estavam eles? Onde estavam o capitão América, o Batman,
o Mandrake e a Mulher Maravilha? Eles que sempre ofereceram proteção
no momento da ameaça, socorro no perigo, punição imediata
aos criminosos. O silêncio dos deuses impregna a nação
americana, agora, de um profundo sentimento de orfandade. E medo, muito
medo, comparável ao que experimentou Jesus, no Horto das Oliveiras,
ao sentir-se abandonado pelo próprio Deus.
Hollywood encantou o mundo
com suas imagens bem produzidas. A ponto de as imagens passarem a ter mais
importância do que a realidade nua e crua. Instaurou-se a glamourização
da notícia. Como nos enlatados de TV, há mortos, mas não
se vêem cadáveres; há bandidos e terroristas, mas jamais
vence a impunidade; há invasões alienígenas, mas no
final a América escapa incólume.
Agora, tenta-se mascarar
o real com a maquiagem hollywoodiana. Os cadáveres do WTC são
jogados para baixo do tapete. Ninguém viu um deles ser retirado
dos escombros, como não se viu um enterro de vítimas do Pentágono.
E o dedo em riste do velho tio Sam, com sua cartola raiada de estrelas,
enfia-se na cara de quem se atreve a mostrar que Bin Laden está
vivo, enquanto centenas de civis, entre os quais crianças, são
sacrificados. O ataque ao Afeganistão é algo muito mais grave
do que um videogame de fundo verde repleto de pontos luminosos.
O virtual substitui o
real, exceto para quem está sob a chuva de bombas pagando por um
crime que não cometeu. A Casa Branca, entretanto, não cogitou
bombardear Oklahoma para caçar o jovem McVeigh, que fez explodir
um prédio público, matando 169 pessoas.
Quem sabe Popeye andou
comendo espinafre transgênica ou o Homem-Aranha tenha ficado enroscado
em sua própria teia, como a lógica da CIA, que tantos atos
terroristas promoveu pelo mundo afora. O fato é que, agora, a nação
americana terá de olhar a si mesma, e ao mundo, de modo muito diferente.
Frei Betto é escritor, autor de "A
Mula de Balaão" (Salesiana), entre outros livros.
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