Brasil e Argentina,
por Adriano Benayon
Não se trata de um confronto
de futebol. O tema é a enganação em torno da crise
econômica e social, num e no outro país. O noticiário
já não pode esconder a entrada do caos na economia argentina,
submetida a longa agonia. Sobre o Brasil, a mídia mundial e a "brasileira"
tentam impingir a versão de que não há mais perigo
de explosão da crise. Fazem isso com a mesma leviandade de antes,
quando apontavam a débâcle do país vizinho como "causa"
das desvalorizações do real frente ao dólar.
Neste momento, em relação
ao início do ano, o câmbio do real caiu 33%, e não
mais 40%, como até o final de outubro. O que mudou para tornar possível
essa relativa recuperação? Para melhor, nada. Apenas convencionou-se,
entre os banqueiros mundiais, dar a Argentina como caso perdido, prosseguindo
com a farsa, muito dispendiosa para nós brasileiros, de fazer de
conta que o Brasil pode continuar servindo a dívida externa com
os juros de antes. Além disso, continuar pagando juros não
menos extorsivos sobre a monumental dívida interna.
Como as demais variáveis
financeiras, a taxa de câmbio é muito manipulada. A desvalorização
do real foi galopante, dando margem a algum recuo. O Banco Central fez
vultosos leilões de dívida interna com cláusula cambial
e gastou dólares das reservas para satisfazer a procura por essa
moeda, inclusive a destinada a hedge, i.e, proteção para
compensar posições devedoras em dólar. Como isso não
bastasse, foram dadas garantias, por medidas governamentais, de proteção
cambial. Apesar de tudo isso, é duvidoso, a prazo médio,
que consigam recuperar mais valor do real.
Se algo mudou na economia
brasileira, foi para pior, minada que está pelo modelo dependente,
controlado por empresas e bancos transnacionais. A dívida mobiliária
federal, sem os títulos do Tesouro na carteira do Banco Central,
chegou a R$ 629 bilhões no final de setembro. O percentual de títulos
indexados ao dólar subiu de 22%, no final de 2000, para 36,4 % em
setembro último. A dívida pública líquida,
a dos dados oficiais, atingiu R$ 671,9 bilhões, o equivalente a
54,8% do Produto Interno Bruto (PIB). Não há, ainda, dados
para outubro, mês em que a situação se agravou ainda
mais.
A mesma coisa nas contas
externas. Ao contrário das ladainhas midiáticas, os próprios
dados oficiais mostram grave deterioração. O ingresso de
"investimentos" diretos estrangeiros (IDEs) é ruim para a economia,
pois é a base para as transferências que a esvaziam e determinaram
a ruína. Mas, na óptica imediatista dos gestores do modelo
submisso, esses "investimentos" são avidamente desejados para fechar
as contas do balanço de pagamentos.
Ora, de janeiro a setembro,
os IDEs decresceram de U$ 18,9 bilhões em 2000 para U$ 14,4 bilhões
em 2001. Eles agora são inferiores ao déficit de transações
correntes com o exterior. Este aumentou de US$ 15,6 bilhões em 2000
para US$ 17,4 bilhões em 2001. Só nessas duas contas há,
portanto, deterioração de US$ 6,3 bilhões, em três
trimestres. O descenso econômico e as brutais desvalorizações
na taxa cambial deveriam, em teoria, evitar o crescimento do déficit
externo, mas isso não ocorre, tal a lógica perversa do modelo.
Mesmo importando menos, paga-se mais. Mesmo exportando mais, o saldo de
divisas não melhora. A transformação do déficit
na balança comercial em pequeno superávit não tem
peso bastante para atenuar a escalada do déficit de "serviços"
(juros e outras contas usadas para a transferência dos recursos do
país ao exterior).
O povo está cada
vez mais escorchado pelas elevações das tarifas de energia,
telefone e demais, além de cada vez mais tributado. A produção
estagna, o desemprego e a inflação crescem. O IGP-M, índice
de preços de mercado, atingiu 9% de janeiro a outubro, apontando
para, no mínimo, 12% no ano. Patrimônios inestimáveis
foram e são doados por gorjetas. Impera a mentira. Medidas de exceção
integram cada vez mais o arsenal da política colonial. De novo,
eleições de bico de pena, como antes de 1930. Fraude antes,
durante e depois das eleições, até com deposição
de governadores, enquanto corruptos notórios permanecem nos cargos.
Diante de perspectivas
sombrias, tocar um tango argentino, como ironizou Manoel Bandeira, é
resposta passiva. Em vez de ir Cuesta Abajo, aproveitemos estar de mãos
dadas com a Argentina, para exercer, ambos, a independência e retomar
o progresso, tolhido nos últimos decênios.
Adriano
Benayon é Doutor em Economia pela Universidade de Hamburgo,
Alemanha. Autor de "Globalização versus Desenvolvimento"
Fonte: O
Sol (Frente Solidarista)
Consciência.Net