A violência como norma: o preço da cupidez de nossos bacanas, por Paulo Augusto
Coluna Antena XXI (Jornal de Natal)

A gente está brincando, mas a coisa é mais séria do que podemos aquilatar. É algo simplesmente terrível! Trata-se de uma sensação de pânico, a instalação da paranóia, da quase histeria. Tudo por conta do medo, que toma conta de populações inteiras, como em São Paulo, por exemplo, onde a percepção da selvageria é generalizada. Na cidade, uma quantidade impressionante de pessoas já foi assaltada, roubada ou agredida. Os seqüestros relâmpagos já não atingem apenas os ricos e poderosos, os bacanas, mas o Zé Ninguém, o trabalhador comum, que basta ter conta em banco com algum saldo disponível. E como cada atingido tem parentes próximos ou amigos que já sofreram algum tipo de agressão, chega-se à conclusão de que todos estão direta ou indiretamente afetados pela epidemia de violência. No interior do Rio Grande do Norte, embora a mídia não reporte, há cidades inteiras que fecham as portas e entregam a alma a Deus a partir das seis horas da tarde. Ficam à mercê do medo.

Na capital paulista e em cidades maiores, ocorre o que já acontece em certos trechos de Natal, por exemplo, onde determinados territórios foram riscados do mapa e, relegados ao abandono, são terras literalmente de ninguém. Ou seja, são territórios do medo, onde se evita passar, principalmente à noite. Pesquisa do Datafolha realizada no último dia 6 revela que, na esteira da banalização dos crimes, o medo de assalto e seqüestros chegou com força às camadas de menor poder aquisitivo. Registra que a maioria dos entrevistados (53%) imagina-se como provável alvo de seqüestro. Nada menos do que 86% suspeitam que, a qualquer momento, possam ser assaltados ou agredidos.

Na São Paulo capital, como decorrência da percepção de que não há melhorarias das polícias e de programas sociais para reduzir a pobreza, e em vista da concentração da renda em níveis inacreditáveis, face à irresponsabilidade e cupidez dos políticos, que se mostram cada vez mais movidos por desejos sôfregos, veementes, de possuir e acumular bens materiais, numa avidez exacerbada e numa ambição desmedida de riquezas, sem que ofereça para os eleitores/contribuintes/cidadãos um anteparo contra a violência, a população se vê abandonada, refém de criminosos, e descrente da ação do poder público. Como assinala o jornalista Gilberto Dimenstein, essa população não se vê como uma comunidade, mas como um conjunto de seres encurralados.

"A verdade é simples", adverte Dimenstein: "Ou se vira esse jogo agora ou, em breve, o debate será vencido pelos políticos que apresentam só a pancadaria como solução. Isso se não prosperarem esquadrões da morte, com seus integrantes logo transformados em heróis populares (tipo Mão Branca). Aí temos uma guerra de selvagens contra selvagens e, como sempre acontece, bandidos e mocinhos acabam trocando de papéis".

Esse filme passa aqui, no Rio Grande do Norte, todos os dias, a toda hora. E todos nós conhecemos. Ele chega através das colunas sociais e até das colunas políticas, onde seus titulares, jornalistas amestrados, bem pagos e com a mesma cupidez de seus patrões, fazem questão de mostrar os verdadeiros bandidos de colarinho branco e de vestidos caros, a freqüentar casas de repasto e clubes dos mais fechados. Para ali eles se dirigem em carros blindados, e ali permanecem sob a guarda de verdadeiras dragas, homens parrudos e bem armados, que lhe vigiam a retaguarda, com medo de que lhes roubem o que surrupiaram do povo ou que lhes apliquem um seqüestro-relâmpago ou um outro mais demorado.

Apesar da cara bovina, de elementos bem alimentados e da aparência de opulência, mesmo assim eles não estão a salvo. Não têm sossego. Riem um riso nervoso, culpado, debochado. São nossos escroques. Suas mulheres, os parentes e aderentes se percebem igualmente como seqüestradores da riqueza pública, como delinqüentes protegidos pelos mecanismos oficiais. Endinheirados e saltitantes, cantando a música da moda ("se réie pra lá"), tendo a Polícia e a Justiça do seu lado, mesmo assim são elementos sem paz, tranqüilidade ou descanso. Sabem que devem uma conta. E ela poderá ser cobrada, a qualquer momento. De forma violenta.

A última pesquisa do Dieese/RN informa que mais de 50% dos desempregados no Rio Grande do Norte não têm o primeiro grau completo. Do universo pesquisado, de 1.508 desempregados em seis municípios da Grande Natal e quatro do interior do Estado, 28,3% estão sem trabalho há mais de 15 meses. A falta de escolaridade dos trabalhadores é a maior causa de desemprego, sendo a escolaridade um dos principais requisitos na hora de uma empresa contratar mão-de-obra. E é de se observar que o mercado do RN paga a menor média salarial do país. São salários de R$ 463,86 mensais, em média, contra R$ 524,76 médios no Nordeste e R$ 730,52 no Brasil. O RN chega, inclusive, a colocar-se em patamar inferior ao Piauí, Estado considerado como um dos mais pobres da região, mas que paga salários médios de R$ 466,35.

A coordenadora técnica do Dieese/RN, Virgínia Ferreira, informa que um total de 49% dos trabalhadores do Estado recebem apenas um salário mínimo. No entendimento de Virgínia, os dados revelam a forte concentração de renda existente no RN. Sabe-se que o Estado oferece grandes possibilidades, como no turismo, na fruticultura e no setor têxtil, mas isso não é revertido para a população. Com relação à pesquisa sobre o desemprego, Virgínia diz que é um retrato da situação do RN. "Mostra a falência da educação, o desemprego e a desestruturação da família. O desemprego leva ao alcoolismo, ao jogo e à destruição da família".

Quanto às nossas elites, têm seu quinhão na grande paranóia instalada em razão da vergonhosa concentração das terras, da riqueza e da renda. Como diz o jornalista Mino Carta, nossas elites, quando proclamam seu amor pela terra brasilis, e a chamam de pátria, querem dizer que gostam de sua turma, de seus pares, de sua classe. "Os patrícios das demais categorias, eles os desprezam sem misericórdia, a não ser que sejam mestres em futebol ou em pandeiro". Aqui no RN, nem isso, pois nossos bacanas não são de se "misturar". Mas esses patrícios estão nas ruas, se entrincheirando nos subúrbios infectos, para onde foram acuados, estão tomando conta da parte que lhes cabe neste latifúndio. E, mais dia, menos dia, essas classes se encontrarão cara a cara. Pois sempre chega o dia da cobrança.

Paulo Augusto é Jornalista
Reg. Prof. MTb 11.126  (DRT/SP)


Consciência.Net