O engenho
da arte como via de libertação da lógica do mal,
por Paulo Augusto
Tendo em vista os riscos que todos
corremos, enquanto população saqueada e esbulhada, lesada
e privada de seus direitos básicos, por obra e graça de nossa
inconsistência como povo – sem o anteparo da educação,
privado do usufruto dos direitos sociais, sem imprensa combativa e sem
justiça –, e como território – sem o resguardo de leis que
valham para todos, dominado por uma das elites mais brutais dos sertões
nordestinos –, resta-nos recorrer aos engenhos e às traquinagens
da arte, nessa véspera do Dia Nacional da Poesia, que transcorre
na próxima quinta-feira, dia 14, a fim de neutralizar o azedume
de nossas vidas cinzentas e insípidas, enquanto aguardamos o dia
em que, forçados e subjugados, iremos votar para elegermos mais
um rebento de nossos donatários. Os que irão fingir que nos
governam. E que nos violentarão pelos próximos longos e tenebrosos
quatro anos.
Passa-se conosco, em
nível de província e no interior de um dos estados mais miseráveis
dos grotões do Brasil, governado por oligarquias lideradas por coronéis
eletrônicos, donos de máquinas da fraude e da mentira, da
sevícia e da violação, que mantêm a posse das
TVs, dos rádios, dos jornais e das casas publicitárias, sem
que percebamos um triz desse traçado diabólico e perverso,
o que a escritora franco-americana Susan George engendrou no seu último
livro – O Relatório Lugano (editora Bontempo, 224 págs.,
R$ 36,00).
No livro, ela demonstra,
recorrendo à ficção, como são traçadas
algumas das soluções originadas nos laboratórios das
multinacionais e dos governos do G7 (Grupo das 7 nações mais
poderosas do mundo) para as dificuldades que advirão para sustentar,
a partir de 2020, a superpopulação da terra, quando a raça
humana estará chegando a 8 bilhões de indivíduos.
“Dentro das condições atuais, se você quiser dar o
mesmo padrão de vida a 6 bilhões de pessoas, precisará
de seis planetas”, afirma Susan, que visitou o Fórum Social Mundial,
ocorrido em Porto Alegre (RS), em janeiro. Obviamente, torna-se impossível
manter-se aquele número de viventes.
É onde entra
a Solução Lugano, o falso relatório criado pela autora,
sobre como evitar uma crise do sistema de livre mercado, que teria sido
encomendado por poderosos anônimos a um grupo de pensadores reunidos
em Lugano, na Suíça. Pela Solução Lugano, sugere-se
o fomento de guerras, e a disseminação de epidemias e fome,
além da esterilização dos “incapazes”, para que a
população terrestre não passe, em 2020, dos 4 bilhões
de almas. Caso contrário, convulsões sociais e colapso do
meio ambiente tornarão o livre mercado inviável.
Se pensarmos localmente,
trazendo para nós o que poderá ocorrer globalmente dentro
de alguns anos, veremos que muitas das soluções extremas
projetadas pelo Relatório Lugano já se encontram em plena
experiência no Rio Grande do Norte, e em alguns lugares do Brasil.
Na terra potiguar, alguns exemplos da Solução Lugano podem
ser detectados, em situações aparentemente “normais”, de
acordo com a normopatia a que a sociedade se viu ajustada, numa adaptação
descabida e constrangedora, mas, enfim, aceita – ou enfiada goela abaixo.
Dentre os experimentos
macabros, que lembraria Hitler e seus campos de concentração,
coisa que escapa à sofisticação dos homens públicos
contemporâneos – “a máquina da morte de Hitler era estatal,
e isso engendrou seu fracasso”, recorda Marcelo Träsel, que resenhou
o livro para a revista CartaCapital de março –, pode-se perceber
a permanência de certas epidemias, a conservação de
doenças erradicadas em todo o mundo civilizado – como a dengue,
a malária, a febre amarela –, cuja propagação vertiginosa,
em meio a uma população despreparada e debilitada, tem servido
como máquina para eliminar “excedentes” e “indesejáveis”.
No mesmo ritmo, são
eliminados ainda grandes contingentes dos pobres pela geração
quase que científica de uma epidemia da violência, estimulada
em grande parte pela omissão de homens públicos saídos
de uma elite que se revela mesquinha e torpe. Esse quadro exibe a transformação
de jovens de subúrbio, sem qualquer horizonte ou alternativa, de
crianças em marginais perseguidos e abatidos sumariamente como moscas
por uma polícia despreparada e, em muitos casos, corrompida, em
razão de suas precárias condições de vida e
trabalho. “A epidemia de violência fez do jovem que vive nas periferias
um público de risco”, admite o diretor da Organização
Pan-Americana da Saúde, em Washington, o brasileiro João
Yunes, que é também representante do Brasil no Conselho Executivo
da Organização Mundial da Saúde e diretor da Faculdade
de Saúde da Universidade de São Paulo (USP).
São esses jovens,
executados ainda na flor da idade, os rebentos de famílias que convivem
em cenários medonhos. Neles se ganham salários de fome, já
que ocupam as únicas funções que lhes sobraram, de
subalternos e humilhados, em meio a um funcionalismo entorpecido por força
do embrutecimento, a ausência de reajustes salariais há quase
dez anos, o desemprego crônico promovido por setores produtivos da
iniciativa privada, o confinamento dos pobres nas favelas e periferias,
onde faltam saneamento, escola, polícia comunitária, lazer,
esportes. Mas onde sobram a imbecilização, a ignorância
e a desinformação, geradas igualmente pela programação
das emissoras de TV, cujas concessões foram arrebatadas pelos próprios
políticos, estéreis e inúteis. E, ainda, a ausência
de escola para a grande maioria, e o sucateamento da educação,
os desmandos e a rede de corrupção montada a partir do poder
Executivo, favorecendo a teia de parentes premiados com postos chaves na
administração, como se evidencia no próprio Tribunal
de Contas e em setores do Legislativo e do Judiciário.
Enfim, um território
mafioso, completamente montado e azeitado, com seus caudilhos, chefes,
chefetes e capatazes, a tornar obsoleta a idéia de democracia e
de civilização como anseio natural dos contribuintes e dos
munícipes, que mantêm essas redes de foras-da-lei de colarinho
branco. Só a poesia, e a arte, de maneira geral, poderão
salvar, ou aliviar o martírio dessa massa de deserdados brasileiros
e norte-rio-grandenses. Vamos ao 14 de Março!
Paulo
Augusto é jornalista
Consciência.Net