Demônios do fundamentalismo, por Adriana Armony
“- Bem, Vierkhoviénski, é a primeira vez

que o ouço falar e não ouço sem espanto –
murmurou Nikolái Vsievolódovitch –
Você não é decididamente um socialista,
mas um político qualquer... um ambicioso!

- Um tratante, digo-lhe, um tratante.
Preocupa-se você em saber quem eu sou?
Vou dizer-lhe quem eu sou e a que aspiro.
(...) Proclamaremos a destruição.
Por que, por que esta idéia é tão fascinante?
Mas temos necessidade de distender nossos membros.
Acenderemos o incêndio... Criaremos lendas...
Para isto os menores grupos ser-nos-ão úteis.
Descobrirei para você nesses mesmos grupos
camaradas os que não terão frio nos olhos e que
ainda por cima sentir-se-ão muito honrados em marchar.
Começará então a revolta!
O mundo será revirado como ainda não o foi...”

    O trecho é de Os Demônios, de Dostoiévski; o contexto, a Rússia ainda quase medieval e já pré-revolucionária da segunda metade do século XIX, onde se alastravam, cheias de vigor, as idéias socialistas de Fourier, debatidas inflamadamente em círculos intelectuais que abrigavam de estudantes pobres a aristocratas adaptados aos novos tempos.
    Dostoiévski conheceu de perto um desses círculos, o de Petrachévski, e é em Os Demônios que revê sua experiência, de fascínio e repulsa. Mais do que isso, há nesse romance uma clarividência impressionante que não só prefigura a Revolução Russa, mas também o malogro de seus (supostos?) ideais.
    Embora nada pareça tão distante do fundamentalismo muçulmano do século XXI quanto o socialismo ateu do final do século XIX, baseado na rejeição de Deus e na glorificação do materialismo, Dostoiévski pode nos mostrar que, nos seus fundamentos, eles revelam uma proximidade perturbadora – que diz respeito aos eternos móveis das ações humanas, e também eternos temas literários, a começar por Ésquilo e Shakespeare: ambição e narcisismo, poder e inveja, ambição e violência. William Waack, em recente Manhattan Connection, lembrou que ninguém explorou tão bem a psicologia de um terrorista como Dostoiévski em Os Demônios.
    Piótr Stepánovitch Vierkhoviénski é um retrato acabado desse novo “tipo” humano, como se diria no final do século XIX.
    Vierkhoviénski mistura, nos seus projetos, orgulho e ressentimento, vingança e delírio de poder, voluntarismo e niilismo, admiração e desprezo pelas pessoas que abraçam as idéias que parece defender. Infiltra-se em diversos meios, fala por alusões, projeta crimes em surdina e deixa-nos, leitores, atônitos quanto a seus objetivos, aparentemente apenas destrutivos. Só no final do romance eles começam a revelar-se.
    Na passagem que contém o trecho citado, Vierkhoviénski defende o “chigalievismo”: o projeto de uma sociedade despótica, baseada na espionagem, sem liberdade de expressão, cujas massas gozam de uma igualdade absoluta (mas não os dirigentes) e com nível baixíssimo de educação.
    Os chefes-ditadores providenciariam agitações de tempos em tempos, “para evitar o tédio”. É como na parábola do Grande Inquisidor, de Os Irmãos Karamazov, em que Jesus Cristo volta à terra e é repudiado por seu suposto representante.
    Ele diz a Cristo que conseguira fazer os homens felizes poupando-lhes o fardo da liberdade, dando-lhes pão, milagres e a paz da consciência, “corrigindo Sua obra baseando-a no milagre, no mistério, na autoridade”. Afirma ainda que o homem prefere a morte ao pavor do livre-arbítrio, à liberdade de discernir o bem do mal: “(...) Tinhas necessidade de um livre amor, e não dos transportes servis dum escravo aterrorizado. Aí ainda, fazias idéia demasiado alta dos homens, porque são escravos, se bem que tenham sido criado rebeldes”, diz o Grande Inquisidor a Cristo.
    A moral, porém, é o contrário da repetição de determinados padrões de uma autoridade: fazer o “bem” apenas para conquistar a vida eterna, ou para aparecer positivamente aos olhos de outros, não é verdadeiramente moral. Para Kant, o ato moral só tem mérito se a pessoa que o realizou o fez porque é o ato devido, e não por esperança de recompensa ou temor de castigo; quando é imperativo categórico, e não hipotético. Ele deve obedecer à lei universal: “Age de maneira que possas querer que o motivo que te levou a agir seja uma lei universal”. Privilégio da razão, não do fanatismo de qualquer espécie...
    Ditadores do Oriente Médio e terroristas parecem obedecer à cartilha de Chigaliev ou do Grande Inquisidor. Essa cartilha, como tantas vezes ressaltaram líderes religiosos islâmicos, nada tem a ver com religião, podendo ou não usar o seu nome. Como na parábola de Dostoiévski, os grupos fundamentalistas parecem ser ingrediente necessário do poder terrorista. Produzidos em ditaduras a partir do ressentimento e fermentados pela longa história de humilhações do anteriormente robusto e auto-suficiente Império islâmico, eles são movidos por algo muito além da relação entre miséria e violência. Se essa fosse uma relação necessária, a Índia seria um antro de rebeldes e terroristas.
    Para nos aproximarmos da mentalidade dos fundamentalistas, é preciso não esquecer que sua organização é mais ou menos tribal. René Girard analisou as sociedades tribais, baseadas no sacrifício, diferentes daquelas que, como a nossa, se fundam em um poder judiciário impessoal. Nessas sociedades, um ato de violência gera necessariamente outro ato, que por sua vez gerará outro, numa escalada infinita - o que descreve aliás bastante bem o estágio em que as coisas se encontram entre Israel e a Palestina. O sacrifício é uma medida preventiva contra a violência interna dos membros dessas sociedades, procurando apaziguar o seu desencadeamento. Seu princípio básico não é a culpabilidade, mas a ameaça da escalada da vingança, do contágio da violência sem medidas. A vítima não é culpada: ela é sacrificada a um deus em nome de toda uma comunidade, como um tributo pago à violência interna das sociedades.
    Toda crise sacrificial chega a uma conclusão, ponto de partida para o mito e o ritual que garante a possibilidade das sociedades. Essa solução é a violência unânime da vítima expiatória, quando a crise chega a um ponto de violência indiferenciada tal que toda ela se precipita em torno de uma pessoa, bode expiatório do “crime” de todos. Como afirma Bernard Lewis, o nome Grande Satã atribuído aos Estados Unidos parece não deixar dúvidas: o mal é ao mesmo tempo o sedutor, o que fascina.
    Ao sacrificar as vítimas inocentes do World Trade Center imolando-se nesse mesmo ato, os terroristas suicidas conseguiram unir o ato do sacrifício ritual das tribos à idéia de martírio, própria da civilização cristã e muçulmana.
    Ao contrário das sociedades tribais, nas sociedades baseadas no sistema judiciário é este que afasta a possibilidade de vingança, limitando-a a uma represália única; o princípio, porém, é o mesmo, da reciprocidade violenta.
    E é dessa instância que se ressente o mundo hoje: de uma instituição jurídica internacional reconhecida que possa resolver de forma mais ou menos impessoal, mesmo que através de um ato único de violência, o conflito. Enquanto isso não ocorre, as forças aliadas obedecem à mesma lógica da retaliação infinita e indiscriminada.
    Por outro lado, o ódio aos Estados Unidos não tem origem meramente nas diferenças entre duas crenças ou dois modos de vida, o oriental e o ocidental. As duas culturas conviveram mais ou menos harmoniosamente por muitos séculos, mas foi apenas a partir da derrota final do Império Otomano, com a supremacia militar do Ocidente, que o conflito de valores se acirrou, ao mesmo tempo que os valores ocidentais penetravam no Oriente. Generais detratavam o modo de vida do Ocidente ao mesmo tempo que usavam uniformes militares ocidentais... Tanto a Rússia quanto o Oriente Médio sofreram um processo de ocidentalização acentuada e assimétrica. Esse choque tornou-se dramático com o imperialismo britânico e francês. Ao longo do século XX, o modelo ocidental foi se tornando cada vez maior e mais ameaçador. A nostalgia fundamentalista que se dirige aos primeiros tempos islâmicos reflete a lembrança de tempos de glória, em que o Islã era extremamente tolerante pois as diferenças não o afetavam...
    Na Rússia, a Revolução de 1917 ocorre sob o influxo das idéias ocidentais, que desestabilizaram a rígida organização dos czares. E curiosamente, também as próprias revoluções fundamentalistas islâmicas, como a do Irã, ocorreram por influência ocidental, como demonstra Bernard Lewis. A noção de revolução, tal como a Revolução Francesa, inexiste no Islã tradicional.
    E de fato, o islamismo de Osama bin Laden é um tanto exótico. Apoiado por uma milícia talibã que ordena a destruição de tudo que possa lembrar a adoração de ídolos reprovada por Maomé, como as milenares estátuas de Buda ou as estampas com uma foto de mulher nas embalagens de uma marca de sabonete, seu retrato é no entanto empunhado e reverenciado como o de um profeta em inúmeras manifestações de fundamentalistas. Os terroristas que se lançaram à morte nos atentados de 11 de setembro carregavam consigo uma carta considerada por especialistas em Islamismo como uma salada religiosa, contendo uma retórica em grande parte cristã e altas doses de pragmatismo incompatíveis com a pregação islâmica tradicional.
    Além disso, os suicidas pilotos estavam longe de serem muçulmanos pobres e apartados do mundo dos valores do Ocidente: tinham estudado na Alemanha e na Flórida e conheciam bastante bem a cultura ocidental. O próprio Osama aparece sorridente numa fotografia de família com roupas ocidentais, em uma viagem à Suécia. Como já se lembrou tantas vezes, os americanos produziram os seus rivais, como fizeram com a milícia talibã, armando-a à época da expulsão dos soviéticos, e com Saddam Hussein. E foram atacados por suas próprias armas: aviões domésticos, planos financiados pelo dinheiro de grandes transações capitalistas – inclusive o tráfico de drogas – protegido por bancos ocidentais, ou mesmo o Antraz de avançada tecnologia, que aparentemente foi produzido nos próprios Estados Unidos.
    Estranha ingratidão? Segundo René Girard, todo desejo é antes de tudo o desejo de ser um outro a quem julgamos superior e que tem algo que nos falta. O desejo teria um caráter metafísico: ele dirige-se ao ser do modelo, assumindo a princípio a forma de desejo de iniciação a um novo modo de existência. Na medida em que o discípulo passa a constituir uma ameaça para o modelo, este lhe responde com violência, que equivale a uma expulsão. Longe de se dissipar, o prestígio da divindade vingativa se reforça; o discípulo sente-se indigno de possuir o objeto que deseja e deseja-o ainda mais, passando a vincular o desejável à violência. A rivalidade visa à própria divindade: o objeto é arbitrário, é a violência que o valoriza. O objeto pode ser a terra santa ocupada pelas tropas americanas (a pedido aliás dos próprios sauditas) ou a forma de se vestir das mulheres. O desejo fixa-se na violência, adorando-a e odiando-a. É nesse teatro que se encena o drama da inveja e do ciúme, do orgulho e da impotência, do masoquismo e do sadismo.
    Há um mesmo princípio nas religiões e na tragédia: a ordem, a paz e a fecundidade baseiam-se nas diferenças culturais; é o seu desaparecimento que provoca a rivalidade. Privadas de identidade, as coisas se encontram em mera oposição; a reciprocidade violenta dos parceiros trágicos corresponde justamente à destruição da ordem cultural. A violência cresce quando as fronteiras se apagam. Dostoiévski fala justamente de uma sociedade que passa sem transição das estruturas tradicionais-feudais à sociedade mais moderna. Mudança talvez semelhante à vivida por alguns países do Oriente Médio, que procuraram reagir a essa desestruturação pregando as mais rígidas hierarquias.
    No texto de Dostoiévski, não há amor sem ciúme, amizade sem inveja, atração sem repulsa. Seus personagens, repletos de violentos sentimentos contraditórios, têm a fascinação do ódio. O homem do subterrâneo oscila entre o orgulho e a humilhação; as invectivas que dirige tanto a seus colegas do jantar para o qual não foi convidado como ao capitão que o ignora na Avenida Niévski traem admiração e ressentimento.
    Já Os Demônios é ponto por ponto a imagem invertida do universo cristão, como no caso do suicida Kirílov, que quer libertar os homens através do seu suicídio. O homem só triunfaria sobre Deus quando perdesse o medo da morte, quando se desejasse em sua mortalidade, em seu nada – e assim se tornaria divino. Mas Kirílov fracassa, passando do orgulho à vergonha: seu suicídio, diferente do martírio de Cristo, é comum, pleno de impotência e terror.
    Mais do que aplicar-se apenas aos terroristas e fundamentalistas, algumas dessas descrições parecem corresponder a outras tantas realidades internas dos EUA. Unabomber, o terrorista de Oklahoma e as últimas notícias sobre o Antraz, que pode estar sendo propagado por grupos de extrema-direita americanos, são exemplos da mesma dinâmica que produz terroristas externos. Uma dinâmica em que uma única e arrogante superpotência econômica e cultural é indiferente aos “outros”, externos ou internos (como aliás o são os Impérios) – vide Kioto, controle de armamentos –, e o mesmo tempo faz promessas de liberdade e igualdade – algumas vezes cumpridas, outras não. Uma dinâmica de violência muitas vezes própria de sociedades tribais, mas com os recursos tecnológicos mais avançados à disposição.
    É nas inúmeras contradições dessa sociedade que se forjam os atuais “tratantes” e as “massas”, o “incêndio” e as “lendas” de que falava Dostoiévski. No século XXI pós-Guerra-Fria, porém, eles tornaram-se algo de imensamente perigoso, pelo enorme, e nunca semelhante em outras épocas, poder de destruição que pode ter um único grupo ou mesmo um indivíduo. Procurar entender essas contradições, como vem ocorrendo desde os atentados de 11 de setembro, pode ser um primeiro passo para uma discussão sobre justiça e compromisso moral que garanta a sobrevivência da nossa sociedade.

Adriana Armony é professora de literatura e doutoranda em Ciência da Literatura pela UFRJ.


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