- Um tratante, digo-lhe, um tratante.
Preocupa-se você em saber quem eu
sou?
Vou dizer-lhe quem eu sou e a que aspiro.
(...) Proclamaremos a destruição.
Por que, por que esta idéia é
tão fascinante?
Mas temos necessidade de distender nossos
membros.
Acenderemos o incêndio... Criaremos
lendas...
Para isto os menores grupos ser-nos-ão
úteis.
Descobrirei para você nesses mesmos
grupos
camaradas os que não terão
frio nos olhos e que
ainda por cima sentir-se-ão muito
honrados em marchar.
Começará então a
revolta!
O mundo será revirado como ainda
não o foi...”
O trecho é de Os
Demônios, de Dostoiévski; o contexto, a Rússia ainda
quase medieval e já pré-revolucionária da segunda
metade do século XIX, onde se alastravam, cheias de vigor, as idéias
socialistas de Fourier, debatidas inflamadamente em círculos intelectuais
que abrigavam de estudantes pobres a aristocratas adaptados aos novos tempos.
Dostoiévski conheceu
de perto um desses círculos, o de Petrachévski, e é
em Os Demônios que revê sua experiência, de fascínio
e repulsa. Mais do que isso, há nesse romance uma clarividência
impressionante que não só prefigura a Revolução
Russa, mas também o malogro de seus (supostos?) ideais.
Embora nada pareça
tão distante do fundamentalismo muçulmano do século
XXI quanto o socialismo ateu do final do século XIX, baseado na
rejeição de Deus e na glorificação do materialismo,
Dostoiévski pode nos mostrar que, nos seus fundamentos, eles revelam
uma proximidade perturbadora – que diz respeito aos eternos móveis
das ações humanas, e também eternos temas literários,
a começar por Ésquilo e Shakespeare: ambição
e narcisismo, poder e inveja, ambição e violência.
William Waack, em recente Manhattan Connection, lembrou que ninguém
explorou tão bem a psicologia de um terrorista como Dostoiévski
em Os Demônios.
Piótr Stepánovitch
Vierkhoviénski é um retrato acabado desse novo “tipo” humano,
como se diria no final do século XIX.
Vierkhoviénski
mistura, nos seus projetos, orgulho e ressentimento, vingança e
delírio de poder, voluntarismo e niilismo, admiração
e desprezo pelas pessoas que abraçam as idéias que parece
defender. Infiltra-se em diversos meios, fala por alusões, projeta
crimes em surdina e deixa-nos, leitores, atônitos quanto a seus objetivos,
aparentemente apenas destrutivos. Só no final do romance eles começam
a revelar-se.
Na passagem que contém
o trecho citado, Vierkhoviénski defende o “chigalievismo”: o projeto
de uma sociedade despótica, baseada na espionagem, sem liberdade
de expressão, cujas massas gozam de uma igualdade absoluta (mas
não os dirigentes) e com nível baixíssimo de educação.
Os chefes-ditadores providenciariam
agitações de tempos em tempos, “para evitar o tédio”.
É como na parábola do Grande Inquisidor, de Os Irmãos
Karamazov, em que Jesus Cristo volta à terra e é repudiado
por seu suposto representante.
Ele diz a Cristo que conseguira
fazer os homens felizes poupando-lhes o fardo da liberdade, dando-lhes
pão, milagres e a paz da consciência, “corrigindo Sua obra
baseando-a no milagre, no mistério, na autoridade”. Afirma ainda
que o homem prefere a morte ao pavor do livre-arbítrio, à
liberdade de discernir o bem do mal: “(...) Tinhas necessidade de um livre
amor, e não dos transportes servis dum escravo aterrorizado. Aí
ainda, fazias idéia demasiado alta dos homens, porque são
escravos, se bem que tenham sido criado rebeldes”, diz o Grande Inquisidor
a Cristo.
A moral, porém,
é o contrário da repetição de determinados
padrões de uma autoridade: fazer o “bem” apenas para conquistar
a vida eterna, ou para aparecer positivamente aos olhos de outros, não
é verdadeiramente moral. Para Kant, o ato moral só tem mérito
se a pessoa que o realizou o fez porque é o ato devido, e não
por esperança de recompensa ou temor de castigo; quando é
imperativo categórico, e não hipotético. Ele deve
obedecer à lei universal: “Age de maneira que possas querer que
o motivo que te levou a agir seja uma lei universal”. Privilégio
da razão, não do fanatismo de qualquer espécie...
Ditadores do Oriente Médio
e terroristas parecem obedecer à cartilha de Chigaliev ou do Grande
Inquisidor. Essa cartilha, como tantas vezes ressaltaram líderes
religiosos islâmicos, nada tem a ver com religião, podendo
ou não usar o seu nome. Como na parábola de Dostoiévski,
os grupos fundamentalistas parecem ser ingrediente necessário do
poder terrorista. Produzidos em ditaduras a partir do ressentimento e fermentados
pela longa história de humilhações do anteriormente
robusto e auto-suficiente Império islâmico, eles são
movidos por algo muito além da relação entre miséria
e violência. Se essa fosse uma relação necessária,
a Índia seria um antro de rebeldes e terroristas.
Para nos aproximarmos
da mentalidade dos fundamentalistas, é preciso não esquecer
que sua organização é mais ou menos tribal. René
Girard analisou as sociedades tribais, baseadas no sacrifício, diferentes
daquelas que, como a nossa, se fundam em um poder judiciário impessoal.
Nessas sociedades, um ato de violência gera necessariamente outro
ato, que por sua vez gerará outro, numa escalada infinita - o que
descreve aliás bastante bem o estágio em que as coisas se
encontram entre Israel e a Palestina. O sacrifício é uma
medida preventiva contra a violência interna dos membros dessas sociedades,
procurando apaziguar o seu desencadeamento. Seu princípio básico
não é a culpabilidade, mas a ameaça da escalada da
vingança, do contágio da violência sem medidas. A vítima
não é culpada: ela é sacrificada a um deus em nome
de toda uma comunidade, como um tributo pago à violência interna
das sociedades.
Toda crise sacrificial
chega a uma conclusão, ponto de partida para o mito e o ritual que
garante a possibilidade das sociedades. Essa solução é
a violência unânime da vítima expiatória, quando
a crise chega a um ponto de violência indiferenciada tal que toda
ela se precipita em torno de uma pessoa, bode expiatório do “crime”
de todos. Como afirma Bernard Lewis, o nome Grande Satã atribuído
aos Estados Unidos parece não deixar dúvidas: o mal é
ao mesmo tempo o sedutor, o que fascina.
Ao sacrificar as vítimas
inocentes do World Trade Center imolando-se nesse mesmo ato, os terroristas
suicidas conseguiram unir o ato do sacrifício ritual das tribos
à idéia de martírio, própria da civilização
cristã e muçulmana.
Ao contrário das
sociedades tribais, nas sociedades baseadas no sistema judiciário
é este que afasta a possibilidade de vingança, limitando-a
a uma represália única; o princípio, porém,
é o mesmo, da reciprocidade violenta.
E é dessa instância
que se ressente o mundo hoje: de uma instituição jurídica
internacional reconhecida que possa resolver de forma mais ou menos impessoal,
mesmo que através de um ato único de violência, o conflito.
Enquanto isso não ocorre, as forças aliadas obedecem à
mesma lógica da retaliação infinita e indiscriminada.
Por outro lado, o ódio
aos Estados Unidos não tem origem meramente nas diferenças
entre duas crenças ou dois modos de vida, o oriental e o ocidental.
As duas culturas conviveram mais ou menos harmoniosamente por muitos séculos,
mas foi apenas a partir da derrota final do Império Otomano, com
a supremacia militar do Ocidente, que o conflito de valores se acirrou,
ao mesmo tempo que os valores ocidentais penetravam no Oriente. Generais
detratavam o modo de vida do Ocidente ao mesmo tempo que usavam uniformes
militares ocidentais... Tanto a Rússia quanto o Oriente Médio
sofreram um processo de ocidentalização acentuada e assimétrica.
Esse choque tornou-se dramático com o imperialismo britânico
e francês. Ao longo do século XX, o modelo ocidental foi se
tornando cada vez maior e mais ameaçador. A nostalgia fundamentalista
que se dirige aos primeiros tempos islâmicos reflete a lembrança
de tempos de glória, em que o Islã era extremamente tolerante
pois as diferenças não o afetavam...
Na Rússia, a Revolução
de 1917 ocorre sob o influxo das idéias ocidentais, que desestabilizaram
a rígida organização dos czares. E curiosamente, também
as próprias revoluções fundamentalistas islâmicas,
como a do Irã, ocorreram por influência ocidental, como demonstra
Bernard Lewis. A noção de revolução, tal como
a Revolução Francesa, inexiste no Islã tradicional.
E de fato, o islamismo
de Osama bin Laden é um tanto exótico. Apoiado por uma milícia
talibã que ordena a destruição de tudo que possa lembrar
a adoração de ídolos reprovada por Maomé, como
as milenares estátuas de Buda ou as estampas com uma foto de mulher
nas embalagens de uma marca de sabonete, seu retrato é no entanto
empunhado e reverenciado como o de um profeta em inúmeras manifestações
de fundamentalistas. Os terroristas que se lançaram à morte
nos atentados de 11 de setembro carregavam consigo uma carta considerada
por especialistas em Islamismo como uma salada religiosa, contendo uma
retórica em grande parte cristã e altas doses de pragmatismo
incompatíveis com a pregação islâmica tradicional.
Além disso, os
suicidas pilotos estavam longe de serem muçulmanos pobres e apartados
do mundo dos valores do Ocidente: tinham estudado na Alemanha e na Flórida
e conheciam bastante bem a cultura ocidental. O próprio Osama aparece
sorridente numa fotografia de família com roupas ocidentais, em
uma viagem à Suécia. Como já se lembrou tantas vezes,
os americanos produziram os seus rivais, como fizeram com a milícia
talibã, armando-a à época da expulsão dos soviéticos,
e com Saddam Hussein. E foram atacados por suas próprias armas:
aviões domésticos, planos financiados pelo dinheiro de grandes
transações capitalistas – inclusive o tráfico de drogas
– protegido por bancos ocidentais, ou mesmo o Antraz de avançada
tecnologia, que aparentemente foi produzido nos próprios Estados
Unidos.
Estranha ingratidão?
Segundo René Girard, todo desejo é antes de tudo o desejo
de ser um outro a quem julgamos superior e que tem algo que nos falta.
O desejo teria um caráter metafísico: ele dirige-se ao ser
do modelo, assumindo a princípio a forma de desejo de iniciação
a um novo modo de existência. Na medida em que o discípulo
passa a constituir uma ameaça para o modelo, este lhe responde com
violência, que equivale a uma expulsão. Longe de se dissipar,
o prestígio da divindade vingativa se reforça; o discípulo
sente-se indigno de possuir o objeto que deseja e deseja-o ainda mais,
passando a vincular o desejável à violência. A rivalidade
visa à própria divindade: o objeto é arbitrário,
é a violência que o valoriza. O objeto pode ser a terra santa
ocupada pelas tropas americanas (a pedido aliás dos próprios
sauditas) ou a forma de se vestir das mulheres. O desejo fixa-se na violência,
adorando-a e odiando-a. É nesse teatro que se encena o drama da
inveja e do ciúme, do orgulho e da impotência, do masoquismo
e do sadismo.
Há um mesmo princípio
nas religiões e na tragédia: a ordem, a paz e a fecundidade
baseiam-se nas diferenças culturais; é o seu desaparecimento
que provoca a rivalidade. Privadas de identidade, as coisas se encontram
em mera oposição; a reciprocidade violenta dos parceiros
trágicos corresponde justamente à destruição
da ordem cultural. A violência cresce quando as fronteiras se apagam.
Dostoiévski fala justamente de uma sociedade que passa sem transição
das estruturas tradicionais-feudais à sociedade mais moderna. Mudança
talvez semelhante à vivida por alguns países do Oriente Médio,
que procuraram reagir a essa desestruturação pregando as
mais rígidas hierarquias.
No texto de Dostoiévski,
não há amor sem ciúme, amizade sem inveja, atração
sem repulsa. Seus personagens, repletos de violentos sentimentos contraditórios,
têm a fascinação do ódio. O homem do subterrâneo
oscila entre o orgulho e a humilhação; as invectivas que
dirige tanto a seus colegas do jantar para o qual não foi convidado
como ao capitão que o ignora na Avenida Niévski traem admiração
e ressentimento.
Já Os Demônios
é ponto por ponto a imagem invertida do universo cristão,
como no caso do suicida Kirílov, que quer libertar os homens através
do seu suicídio. O homem só triunfaria sobre Deus quando
perdesse o medo da morte, quando se desejasse em sua mortalidade, em seu
nada – e assim se tornaria divino. Mas Kirílov fracassa, passando
do orgulho à vergonha: seu suicídio, diferente do martírio
de Cristo, é comum, pleno de impotência e terror.
Mais do que aplicar-se
apenas aos terroristas e fundamentalistas, algumas dessas descrições
parecem corresponder a outras tantas realidades internas dos EUA. Unabomber,
o terrorista de Oklahoma e as últimas notícias sobre o Antraz,
que pode estar sendo propagado por grupos de extrema-direita americanos,
são exemplos da mesma dinâmica que produz terroristas externos.
Uma dinâmica em que uma única e arrogante superpotência
econômica e cultural é indiferente aos “outros”, externos
ou internos (como aliás o são os Impérios) – vide
Kioto, controle de armamentos –, e o mesmo tempo faz promessas de liberdade
e igualdade – algumas vezes cumpridas, outras não. Uma dinâmica
de violência muitas vezes própria de sociedades tribais, mas
com os recursos tecnológicos mais avançados à disposição.
É nas inúmeras
contradições dessa sociedade que se forjam os atuais “tratantes”
e as “massas”, o “incêndio” e as “lendas” de que falava Dostoiévski.
No século XXI pós-Guerra-Fria, porém, eles tornaram-se
algo de imensamente perigoso, pelo enorme, e nunca semelhante em outras
épocas, poder de destruição que pode ter um único
grupo ou mesmo um indivíduo. Procurar entender essas contradições,
como vem ocorrendo desde os atentados de 11 de setembro, pode ser um primeiro
passo para uma discussão sobre justiça e compromisso moral
que garanta a sobrevivência da nossa sociedade.
Adriana Armony
é professora de literatura e doutoranda em Ciência da Literatura
pela UFRJ.
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