A visão palestina de paz
Yasser Arafat, de Ramallah

Nos últimos 16 meses, israelenses e palestinos estiveram envolvidos em um catastrófico ciclo de violência, um ciclo que apenas promete mais medo e derramamento de sangue. Esta seqüência de eventos violentos levou muitos à conclusão que a paz é impossível, um mito forjado pela ignorância acerca da posição palestina. Este é o momento para os palestinos apresentarem com clareza sua posição – e o mundo deve ouvir e analisar com cuidado esta opinião.

Mas de início, deixe-me ser muito claro. Eu condeno os ataques realizados por grupos terroristas contra civis israelenses. Aqueles grupos não representam o povo palestino ou suas legítimas aspirações de liberdade. Eles são meras organizações terroristas e eu estou determinado a colocar um fim em suas atividades.

A visão palestina de paz prega um Estado palestino viável e independente nos territórios ocupados por Israel em 1967, que viveria como um vizinho de mesmo caráter com Israel e garantiria paz e segurança para os povos israelense e palestino.

Mundo livre
Em 1988, o Conselho Nacional Palestino adotou uma resolução histórica postulando a implementação de resoluções aplicáveis da ONU, em particular, as resoluções 242 e 338. Os palestinos reconheceram o direito de Israel se estabelecer em território equivalente a 78% da histórica Palestina sob o entendimento de permanecerem vivendo em liberdade nos restantes 22%, que se encontram sob ocupação israelense desde 1967. Nosso compromisso com aquela solução de dois Estados resta inalterado, mas, infelizmente, sem receber qualquer sinal de reciprocidade.

Nós buscamos uma independência verdadeira e completa soberania: o direito de controlar nosso espaço aéreo, recursos hídricos e fronteiras; uma prerrogativa de desenvolver nossa própria economia, possuir relações comerciais normais com nossos vizinhos e viajar livremente. Em resumo, nós apenas procuramos aquilo que o mundo livre usufrui e que Israel insiste em manter para si: o direito de controlar nosso próprio destino e tomar nosso lugar entre as nações livres.

Ainda, nós desejamos uma solução justa para o problema dos refugiados palestinos, que nos últimos 54 anos não receberam permissão para retornar a seus lares.

Desejos demográficos
Nós compreendemos as preocupações demográficas de Israel e, ainda, que o direito de retorno dos refugiados palestinos – um direito garantido pelo Direito Internacional e pela resolução 194 da ONU – deve ser implementado com uma aproximação que contabilize tais preocupações.

Porém, assim como os palestinos devem ser realistas no que se refere aos desejos demográficos de Israel, os israelenses devem também ser realistas em entender que não pode existir uma solução ao conflito israelense-palestino se os direitos legítimos dos civis palestinos inocentes permanecerem ignorados.

Se permanecer sem solução, a questão dos refugiados possui potencial para abalar qualquer acordo permanente de paz entre israelenses e palestinos. Como um refugiado palestino compreenderá que seu direito de retorno não será ignorado, como de fato o foi com os albaneses em Kosovo, afegãos e timorenses?

Reconcialiação entre povos
Existem aqueles aclamando que eu não sou um parceiro na paz. Em resposta, eu afirmo que o parceiro de paz para Israel é, e sempre foi, o povo palestino. A paz não é um acordo assinado entre indivíduos – é uma reconciliação entre povos. Os dois povos não podem se reconciliar se há demanda de controle sobre o próximo, se há a recusa em tratar o semelhante como parceiro na paz e se a lógica do poder predomina sobre o poder da lógica.

Israel deve ainda entender que não terá paz se continuar negando a justiça. Enquanto perdurar a ocupação das terras palestinas e a negação de liberdade aos palestinos, o caminho para a "paz dos bravos" que embarquei com meu falecido parceiro Yitzhak Rabin permanecerá pleno de obstáculos.

Há muito se nega a liberdade aos palestinos. Este povo é o único no globo que permanece vivendo sob ocupação estrangeira. Como pode o mundo tolerar esta opressão, discriminação e humilhação?

Sintoma
O Tratado de Oslo de 1993, assinado sob a mediação da Casa Branca, prometeu liberdade aos palestinos a partir de maio de 1999. Ao contrário, desde 1993, o povo palestino enfrentou expansão marcante no número de colonos israelenses, nos estabelecimentos ilegais israelenses em terra palestina, além de restrições enfatizadas na liberdade de locomoção. Como eu convencerei meu povo que Israel possui séria intenção de paz se na década passada os israelenses intensificaram a colonização do território palestino que ostensivamente negociavam se retirar?

Mas nenhum nível de opressão e desespero pode justificar o assassínio de civis inocentes. Eu condeno o terrorismo. Eu condeno a morte de civis inocentes, sejam eles israelenses, norte-americanos ou palestinos; independentemente de serem eles assassinados por extremistas palestinos, colonos israelenses ou pelo governo de Israel. Mas as condenações não param o terrorismo. Para interromper as ações de terror, nós devemos compreender que o terrorismo é simplesmente o sintoma, não a doença.

Os ataques atualmente em voga contra minha personalidade possivelmente são efetivos em conceder aos israelenses uma desculpa para ignorar seu papel na criação da situação atual. Mas esses ataques pouco realizam para impulsionar o processo de paz e, de fato, não possuem este objetivo.

Chamas de intranqüilidade
Muitos acreditam que Ariel Sharon, primeiro-ministro israelense, em virtude de sua oposição a cada acordo de paz que Israel já assinou, está intensificando as chamas de intranqüilidade em um esforço para atrasar indefinidamente a volta às negociações. Lamentavelmente, ele pouco realizou para negar aquela posição.

As práticas do governo de Israel em construir assentamentos, demolir lares, assassínios políticos, fechamentos e vergonhoso silêncio diante da violência do colono israelense e outras humilhações diárias claramente não objetivam acalmar a situação.

Os palestinos possuem uma visão de paz: é uma paz baseada no fim da ocupação e o retorno às fronteiras israelenses vigentes em 1967, a partilha de Jerusalém como uma cidade aberta e capital dos dois Estados, Palestina e Israel. É uma paz engajada entre dois iguais usufruindo mutuamente uma cooperação econômica e social.

A despeito da brutal repressão dos palestinos nas últimas quatro décadas, em minha visão, quando Israel observar os palestinos como iguais e não como um povo subjugado que acata a vontade israelense, tal visão de paz poderá se realizar. E de fato deve se realizar.

Os palestinos estão prontos para encerrar o conflito. Nós agora estamos prontos para um encontro com qualquer líder israelense, independentemente de sua história, para negociar a liberdade dos palestinos, o fim da ocupação, segurança para Israel e soluções criativas ao problema dos refugiados enquanto respeitamos as preocupações demográficas de Israel.

Mas nós somente nos reuniremos sob a condição de iguais, não como pedintes miseráveis; como parceiros, não como dominados; como partidários de uma solução justa e pacífica, não como uma nação derrotada e saciada com os restos que são lançados em nossa direção.

Pois a despeito da esmagadora superioridade militar de Israel, nós possuímos algo mais grandioso: o poder da Justiça.

Yasser Arafat foi eleito presidente da Autoridade Palestina em 1996 e é também líder da Organização para Libertação da Palestina. O artigo, originalmente escrito para o New York Times, foi publicado no jornal O Estado de S. Paulo em 04/02/2002


Autoridade Palestina | Oriente Médio | Mundo | Opinião | Principal
Consciência.Net