| A visão palestina de paz
Yasser Arafat, de Ramallah Nos últimos 16 meses, israelenses e palestinos estiveram envolvidos em um catastrófico ciclo de violência, um ciclo que apenas promete mais medo e derramamento de sangue. Esta seqüência de eventos violentos levou muitos à conclusão que a paz é impossível, um mito forjado pela ignorância acerca da posição palestina. Este é o momento para os palestinos apresentarem com clareza sua posição – e o mundo deve ouvir e analisar com cuidado esta opinião. Mas de início, deixe-me ser muito claro. Eu condeno os ataques realizados por grupos terroristas contra civis israelenses. Aqueles grupos não representam o povo palestino ou suas legítimas aspirações de liberdade. Eles são meras organizações terroristas e eu estou determinado a colocar um fim em suas atividades. A visão palestina de paz prega um Estado palestino viável e independente nos territórios ocupados por Israel em 1967, que viveria como um vizinho de mesmo caráter com Israel e garantiria paz e segurança para os povos israelense e palestino. Mundo livre
Nós buscamos uma independência verdadeira e completa soberania: o direito de controlar nosso espaço aéreo, recursos hídricos e fronteiras; uma prerrogativa de desenvolver nossa própria economia, possuir relações comerciais normais com nossos vizinhos e viajar livremente. Em resumo, nós apenas procuramos aquilo que o mundo livre usufrui e que Israel insiste em manter para si: o direito de controlar nosso próprio destino e tomar nosso lugar entre as nações livres. Ainda, nós desejamos uma solução justa para o problema dos refugiados palestinos, que nos últimos 54 anos não receberam permissão para retornar a seus lares. Desejos demográficos
Porém, assim como os palestinos devem ser realistas no que se refere aos desejos demográficos de Israel, os israelenses devem também ser realistas em entender que não pode existir uma solução ao conflito israelense-palestino se os direitos legítimos dos civis palestinos inocentes permanecerem ignorados. Se permanecer sem solução, a questão dos refugiados possui potencial para abalar qualquer acordo permanente de paz entre israelenses e palestinos. Como um refugiado palestino compreenderá que seu direito de retorno não será ignorado, como de fato o foi com os albaneses em Kosovo, afegãos e timorenses? Reconcialiação entre
povos
Israel deve ainda entender que não terá paz se continuar negando a justiça. Enquanto perdurar a ocupação das terras palestinas e a negação de liberdade aos palestinos, o caminho para a "paz dos bravos" que embarquei com meu falecido parceiro Yitzhak Rabin permanecerá pleno de obstáculos. Há muito se nega a liberdade aos palestinos. Este povo é o único no globo que permanece vivendo sob ocupação estrangeira. Como pode o mundo tolerar esta opressão, discriminação e humilhação? Sintoma
Mas nenhum nível de opressão e desespero pode justificar o assassínio de civis inocentes. Eu condeno o terrorismo. Eu condeno a morte de civis inocentes, sejam eles israelenses, norte-americanos ou palestinos; independentemente de serem eles assassinados por extremistas palestinos, colonos israelenses ou pelo governo de Israel. Mas as condenações não param o terrorismo. Para interromper as ações de terror, nós devemos compreender que o terrorismo é simplesmente o sintoma, não a doença. Os ataques atualmente em voga contra minha personalidade possivelmente são efetivos em conceder aos israelenses uma desculpa para ignorar seu papel na criação da situação atual. Mas esses ataques pouco realizam para impulsionar o processo de paz e, de fato, não possuem este objetivo. Chamas de intranqüilidade
As práticas do governo de Israel em construir assentamentos, demolir lares, assassínios políticos, fechamentos e vergonhoso silêncio diante da violência do colono israelense e outras humilhações diárias claramente não objetivam acalmar a situação. Os palestinos possuem uma visão de paz: é uma paz baseada no fim da ocupação e o retorno às fronteiras israelenses vigentes em 1967, a partilha de Jerusalém como uma cidade aberta e capital dos dois Estados, Palestina e Israel. É uma paz engajada entre dois iguais usufruindo mutuamente uma cooperação econômica e social. A despeito da brutal repressão dos palestinos nas últimas quatro décadas, em minha visão, quando Israel observar os palestinos como iguais e não como um povo subjugado que acata a vontade israelense, tal visão de paz poderá se realizar. E de fato deve se realizar. Os palestinos estão prontos para encerrar o conflito. Nós agora estamos prontos para um encontro com qualquer líder israelense, independentemente de sua história, para negociar a liberdade dos palestinos, o fim da ocupação, segurança para Israel e soluções criativas ao problema dos refugiados enquanto respeitamos as preocupações demográficas de Israel. Mas nós somente nos reuniremos sob a condição de iguais, não como pedintes miseráveis; como parceiros, não como dominados; como partidários de uma solução justa e pacífica, não como uma nação derrotada e saciada com os restos que são lançados em nossa direção. Pois a despeito da esmagadora superioridade militar de Israel, nós possuímos algo mais grandioso: o poder da Justiça. Yasser Arafat foi eleito presidente
da Autoridade Palestina em 1996 e é também líder da
Organização para Libertação da Palestina. O
artigo, originalmente escrito para o New York Times, foi publicado
no jornal O Estado de S. Paulo em 04/02/2002
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