Em primeiro lugar, foi inequívoca a acachapante vitória do Partido dos Trabalhadores, maior de sua história. Não em São Paulo apenas, mas entre as capitais e cidades com mais de 200 mil eleitores, regiões de maior expressão. Bóris Casoy, que deve estar se mordendo com o resultado, exibiu em seu jornal uma estatística perversa, que em nada elucida o novo panorama político do país: o número absoluto e total de prefeituras brasileiras, por partido. Mas estes dados escondem o crescimento inequívoco da oposição, camuflados pela esmagadora hegemonia que anos de fisiologismo e uso abusivo da máquina deram aos principais partidos da direita que sustenta o atual governo.
Para uma melhor percepção do quadro, faz-se necessário analisar:
1) Os partidos que mais cresceram na última eleição, em número geral de prefeituras - Só um partido teve crescimento maior que o PT: o PPS. Embora ainda possa ser considerado um partido de oposição, o crescimento excepcional do ex-PCB não deve ser visto sem as lentes necessárias da realidade e da cautela: esse desempenho deve-se, quase que exclusivamente, ao inchaço sofrido pelo partido após a entrada de Ciro Gomes e a legião que o seguiu, uma massa das mais heterogêneas que ameaça transformar o antigo partidão num balaio de gatos, como outros partidos por aí.
2) O número de prefeituras conquistadas, por cada partido, entre os 62 municípios com mais de 200 mil eleitores - Aqui o PT dá um banho, ganhou 17, contra 12 do segundo colocado, o PSDB, 10 do outrora todo-poderoso PMDB e apenas 4 (!!!) do PFL dos caciques ACM, Borhausen e Marco Maciel. A importância dessa vitória não pode ser relativizada, não só pelo quantitativo que representa, mas também por sua qualidade. São eleitores mais críticos, informados, teoricamente formadores de opinião para todo o território brasileiro.
3) O número de eleitores por partido, entre os 62 municípios com mais de 200 mil eleitores - Aqui novo banho do PT, uma autêntica chinelada: O Partido de Lula conquistou nada menos que 14.418.076 de eleitores. Para se ter uma idéia do alcance desta conquista, onde São Paulo foi fundamental, basta dizer que o eleitorado conquistado por TODOS os DEZ partidos da base do governo somam 17.004.396 de eleitores, "apenas".
Um quadro detalhando estes dados pode ser encontrado na ótima página de Fernando Rodrigues: http://www.uol.com.br/fernandorodrigues/
A base do governo tentou, claro, relativizar a situação, tentando demonstrar que no mínimo mantinha suas posições. Mas o resultado foi claro: PSDB, PMDB e PFL só conseguiram se manter nos grotões, nas pequenas comunidades onde o eleitorado é muito menos consciente e as práticas políticas arcaicas ainda predominam, sob pouca fiscalização.
Mas o dado mais importante desta vitória esmagadora do Partido dos Trabalhadores vem não da análise dos números, mas de atitudes: O PT conseguiu este resultado sem apelar para a farta distribuição de dentaduras e outras esmolas, sem fraudes, sem uso da máquina, sem baixarias. Foi uma vitória legítima da boa política que o partido vem realizando, a mesma que mantém o partido na administração de Porto Alegre há quatro eleições. Uma política de propostas inovadoras e ação social, sustentada por projetos revolucionários e bem-sucedidos como o Orçamento Participativo, o Renda Mínima e o Bolsa-escola. Para quem dá de ombros, basta lembrar que o PT é o único partido, na história do Brasil, a conseguir tal feito.
Claro que a cautela se impõe, mais do que nunca. O PT nunca foi tão perseguido e o será ainda mais a partir de agora, que passou definitivamente para a vitrine. O episódio do "pedágio" do MST no sul, até agora sem qualquer condenação formal, foi usado até a exaustão nessas eleições, e deu ao PFL sua bóia salva-vidas no 2º turno: a vitória solitária, e por muito pouco, do Lernista Cássio Taniguchi.
Sim, somos sempre a favor de que se apurem os fatos, mas impressiona ver que a mídia e o governo se importam muito mais com essa questão do que com o esclarecimento das centenas de mortes de trabalhadores rurais ocorridas nos últimos anos no Brasil e até hoje impunes, com a participação inclusive do aparelho policial do estado, como foi o caso do próprio Paraná recentemente. Um espelho do Brasil em que ainda, infelizmente, vivemos.
Finalmente, a vitória do PT merece outra comemoração, por estar ajudando inclusive a transformar a face da tradicional direita no Brasil. Programas sociais do PT têm sido apropriados no Brasil inteiro por diversos partidos da base governista. E graças ao avanço do PT (e da esquerda de um modo geral) assistimos hoje na TV cenas surreais como as que o grande cacique do PFL e da antiga Arena, Antônio Carlos Magalhães, um dos grandes mandatários da política nacional nas últimas décadas, tem nos proporcionado. Responsável maior pela perpetuação de todo tipo de injustiça social com que há anos convivemos, ACM, velha raposa, agora defende aumento do salário mínimo, maior taxação dos mais ricos e até um obscuro fundo contra a pobreza. De olho, claro, no crescimento do PT, e em 2002.
P.S.1: Uma coisa me espantou muito nesta eleição: a votação expressiva que Paulo Maluf ainda teve nestas eleições, apesar de tudo. Pior, com uma campanha das mais rasteiras, onde não cansou de destilar ofensas e mentiras contra Marta Suplicy. Mentiu descaradamente sobre questões que nada tinham a ver com a campanha municipal, como aborto e violência, apelando para o sensacionalismo dos desinformados, e menosprezou Marta como mulher, com um maxismo doentio. Por tudo isso, justiça fosse feita não deveria ter voto nenhum. Claro, sabe-se que a maior parte dos votos de Maluf não se devem a malufistas convictos, mas são votos de rejeição do PT. Agora, convenhamos, tem que ser muito, mas muito mesmo, anti-PT, para votar no Maluf, depois de tudo o que ele fez. É um medo tão irracional que merece um estudo de caso de psiquiatras e psicólogos. Felizmente, São Paulo parece estar se curando, às custas de muita porrada no quengo (foi preciso um Pitta destruir a cidade e deixar uma dívida impagável). Mas fica o registro: às portas do século XXI, ainda tem gente acreditando que socialistas comem criancinhas no café da manhã.
P.S.2: Tenho pouco a comentar sobre a surpresa (???) do Rio. Continuo afirmando que, para mim, os dois candidatos são farinha do mesmo saco, da mesma forma que reluto em acreditar que Ciro Gomes seja oposição ao que está aí. Me surpreendeu sim, o Rio, com sua tradição de oposição, não ter se dado a chance de contar com uma opção de esquerda no 2º turno, mesmo compreendendo o fato como resultado de uma sucessão de maus passos do próprio PT, e da oposição como um todo, do Rio de Janeiro. Certamente, lições importantes poderão ser tiradas daí. Mas quanto à vitória de "Caesar" Maia, se não me deixou morrendo de felicidade, também não me desgostou de todo. Por dois motivos: primeiro, fiz campanha contra Conde no que diz respeito ao engodo de seu projeto de educação, no papel muito bonitinho mas na prática uma fábrica de analfabetos, como já relatei. César abordou o assunto em campanha, e espero que, uma vez eleito, cumpra de fato suas promessas e reforme a educação do carioca enquanto é tempo. O outro motivo é muito mais prosaico: Assisti a entrevista de César após a vitória. Além de fazer um necessário mea culpa ideológico, como cabe a quem voltou a se aventurar como oposição, César demonstrou impressionante humildade. Vamos ver...
P.S.3: Dois políticos fluminenses de peso, do mesmo partido, brigaram como cão e gato nos últimos tempos. Acabaram, os dois, escaldados. Leonel Brizola perdeu nos últimos rincões que lhe restavam: aqui, uma votação inexpressiva diante de seu peso histórico na política brasileira. No Rio Grande do Sul, a melancólica derrota com Alceu Collares se unindo até ao diabo contra o PT, e uma indicação clara de seu triste isolamento, na ameaça de expulsão de seu próprio filho, que aderiu ao PT de Tarso. E Garotinho, depois de um início esfuziante na política e um primeiro turno animador, perdeu no 2º turno este ano tudo o que apoiou no Rio. Vai ser obrigado a baixar a bola e repensar seu estilo Silvio Santos. De imediato, deve deixar o PDT (ou ser deixado) e juntar-se à legião de políticos famosos que começaram na esquerda, se destacaram e, depois, provaram que não tinham apego ao projeto de nenhum partido, que seus projetos eram eles mesmos: Marcelo Alencar, César Maia, Jaime Lérner, coincidentemente (???) todos ex-PDT, além de Ciro Gomes, claro.
Gilberto
Marotta
Jornalista
Consciência.Net