Os afegãos
vêm aí, por Thais Aguiar
“(...) No entanto, o Itamaraty e o Comitê Nacional
para Refugiados (Conare) evitam confirmar o pedido de acolhida. (...) Segundo
Lavanchy, na última planilha de pagamentos da Acnur não consta
um só tostão brasileiro.”
O brasileiro Philippe Lavanchy
recebeu nessa segunda-feira suas credenciais como chefe da missão
do Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (Acnur)
no Irã. Estava em Paris, quando foi deslocado, há duas semanas,
para Teerã, a pedido do alto comissário Ruud Lubbers. A tarefa
não é nada simples. E foi por isso que escolheram o diplomata
brasileiro, que traz no currículo de 25 anos no Acnur sua experiência
no Paquistão, El Salvador e Angola. E na bagagem, muito ressentimento.
"Só somos três brasileiros na Acnur. O governo do Brasil não
paga a organização e não percebe a jogada política
que há em colaborar em questões humanitárias", queixa-se.
Mas junto com a queixa, vem o pedido de ajuda. Lavanchy pretende trazer
3 mil afegãos para o Brasil.
O diplomata começou
a arregaçar as mangas na quarta-feira, em reunião com Ruud
Lubbers e representantes do Canadá, China, Inglaterra, França,
Itália, Portugal, Suécia, Suíça, República
Tcheca e Brasil. O apelo para que os países colaborassem com os
refugiados afegãos foi lançado no pós 11 de setembro
e relançado, mais uma vez, nesse encontro. A situação
calamitosa que vem se arrastando desde a guerra dos afegãos contra
os soviéticos tornou-se insuportável nos últimos meses.
Que o diga o governo iraniano, que se tornou o país que mais acolhe
refugiados no mundo – são 2,5 milhões deles. Ao seu lado,
está o Afeganistão, o maior "produtor" de refugiados, desde
a década de 80. Do outro lado da fronteira, chegam ainda iraquianos.
Mas tamanha generosidade virou um fardo.
"Mais da metade desses
refugiados é de jovens e o nível de desemprego no Irã
já esbarra nos 20%," explica o embaixador brasileiro em Teerã,
Cesário Melantônio. É por essas e outras – o tráfico
de heroína e ópio na fronteira com o Afeganistão já
mobiliza 30 mil soldados iranianos – que o país não quer
mais absorver aqueles que acenam da linha divisória entre talibãs
e aiatolás, inimigos com histórias de sangrentas desavenças
para contar. Entre elas o assassinato de oito diplomatas e um jornalista
iranianos em 1998 no território de Mulá Omar e Osama bin
Laden.
A Divisão das Nações
Unidas não admite que se fechem as fronteiras para aqueles que fogem
dos talibãs, como andam fazendo os vizinhos Irã e Paquistão.
"Eles são signatários do protocolo de Genebra, mas não
estão cumprindo o acordado", destaca Lavanchy. Mas ele mesmo entende
que não há outro jeito. Deve receber as reclamações
iranianas de cabeça baixa. Os refugiados afegãos não
bateram à porta dos vizinhos de um dia para o outro. Desde a década
de 80, eles ultrapassam as fronteiras na tentativa de se distanciar das
armas. "Desde então a Acnur clama pela colaboração
dos países. Mas só agora que esse assunto tomou a mídia,
é que começam ajudar", ressalta Lavanchy. E o Irã
foi quem mais acolheu.
E mais refugiados trilham
caminho até as fronteiras do Paquistão e Irã para
lá esbarrar nas cercas e soldados vizinhos. Resta esperar pela sorte
nos campos improvisados do lado afegão. Mas ela não vai ao
encontro deles. É como deixá-los à mercê de
quem eles fogem: os talibã. "Não podemos entrar nesses campos,
que estão nas mãos da milícia. Tenho fotos que mostram
talibã circulando com armas nesses campos e fazendo recrutamento
forçado", conta Lavanchy. A restrita ajuda acontece através
de iranianos que conseguem manter alguns laços com a população
afegã que se comunica em farsi.
"É um trabalho
muito complexo. Temos que estudar a cultura de cada etnia, entender como
se comportam os chefes de clãs, como fazem e desfazem alianças
tão facilmente", ressalta o diplomata. Mesmo cercados por minas,
mísseis e bombas, ainda há afegãos em processo de
repatriamento, cumprindo o sentido contrário daqueles que fogem
dos bombardeios. "É difícil de explicar isso, mas os afegãos
estão acostumados com a guerra. Muitos querem estar ao lado de parentes
nessas horas."
Depois que Osama bin Laden,
em seu mais recente pronunciamento, declarou a ONU como inimiga do Islã,
o trabalho do Acnur ficou ainda mais difícil. Diante de um cenário
cada vez mais complicado, inevitável não olhar para trás
e lamentar os erros. "Os refugiados são o termômetro da situação
política de um país", considera Lavanchy, numa forma de dizer
que a comunidade internacional prestou pouca atenção aos
filhos daquela terra de guerreiros nas últimas décadas.
Afegãos no Brasil
Com uma vizinhança
de corda no pescoço tal qual o Irã, o jeito é planejar
viagens mais longas para os afegãos. Com um brasileiro à
frente do projeto, o destino não poderia ser outro. Apesar do Brasil
ser uma terra de poucos turbantes e burkas, Lavanchy pretende negociar
o acolhimento de 3 mil afegãos em nove meses. "Dificuldade de adaptação
eles teriam em qualquer outro país", considera Lavanchy. "É
preciso que haja uma boa equipe para ministrar aulas e acompanhar a comunidade."
Ou seja, com boa vontade, tudo se resolve.
O pedido foi feito por
Lavanchy a outro brasileiro, o embaixador Melantônio. Ele vai interceder
por Lavanchy. É um atalho mais curto e uma maneira especial de apelar
diretamente ao governo brasileiro. No entanto, o Itamaraty e o Comitê
Nacional para Refugiados (Conare) evitam confirmar o pedido de acolhida.
A primeira ponte que poderia
haver entre brasileiros e afegãos ruiu com os atentados nos Estados
Unidos. Uma equipe do Conare seguia da Índia em direção
ao Irã para a escolha de seis famílias de refugiados quando
os aviões seqüestrados se chocaram nas Torres Gêmeas
de Manhattan. A delegação brasileira retornou ao seu ponto
de origem sem trazer os afegãos que viveriam na cidade de Santa
Maria Madalena, no Rio de Janeiro. O programa foi suspenso.
Segundo Lavanchy, na última
planilha de pagamentos da Acnur não consta um só tostão
brasileiro. "O Brasil precisa acordar para as questões humanitárias
e não só aparecer quando o assunto é da pauta de economia."
Para Lavanchy, a desculpa de que o Brasil é um país de recursos
limitados não convence. "Mas quando o assunto é economia,
o país logo se coloca no posto da 8ª maior do mundo. Veja o
exemplo do Chile", reforça a bronca. O embaixador brasileiro, parceiro
na empreitada de fortalecer os laços brasileiros com a Acnur e com
afegãos, também espera um gesto brasileiro. "O Chile colaborou
com 20 mil dólares", complementa.
Fonte: Notícia
e Opinião, nov/2001
Consciência.Net