A guerra vem aí. Especialistas acreditam que não passa de fevereiro a invasão do Iraque pelos EUA. Não obstante as reações, aqui e acolá, da opinião pública, ou mesmo de nações de peso como França e Alemanha, a guerra deve mesmo acontecer, posto que já estava decidida há muito tempo.
Se alguém ainda devaneava, inocente e crente, na retórica americana da ameaça terrorista representada pelo ditador Saddam Hussein às democracias do mundo, qualquer ilusão caiu por terra quando adentrou o palco uma irada Coréia do Norte. Aquela nação comunista não só reconheceu possuir um arsenal nuclear que Saddam sequer sonhou produzir, como anunciou bombasticamente sua retirada do Tratado de Não-Proliferação de Armas Atômicas e, como se não fosse o bastante, ainda afirmou sua intenção de retomar os testes com seu arsenal nuclear. A resposta americana destoou bastante da veemência ameaçadora de até então: ao invés das armas, a diplomacia.
Ocorre que a questão iraquiana obedece a um plano maior, no qual o chamado ouro negro joga importante papel. Embora os EUA continuem sendo os maiores produtores mundiais de petróleo, atrás apenas da Arábia Saudita, sua produção já atravessou o pico e encontra-se em franca decadência. Em termos de reservas aprovadas detém a 12ª posição (2,13% do total mundial), com a relação entre reservas e produção apontando para uma disponibilidade de até 7 anos, posição modestíssima face às suas enormes e prementes necessidades: Os americanos são os maiores consumidores mundiais, com larga vantagem sobre o segundo colocado, o Japão (26,3% contra 7,1%).
No Iraque, a situação magicamente se inverte: modesto consumidor, o Iraque é o segundo país em reservas comprovadas, atrás apenas da Arábia Saudita. Seu potencial, no entanto, é imensamente maior que o daquele país: sua disponibilidade de reservas aponta para um total de 130 anos (!), o maior do mundo, contra “apenas” 81 anos da Arábia Saudita. Isso, considerando-se dados provados até 2002, mas especialistas afirmam que o potencial do Iraque pode ser muito maior. Essas são as razões que colocam a moderna Mesopotâmia como prioridade estratégica no século XXI, num mundo imediatista que tem feito pouco ou nenhum esforço para descobrir alternativas energéticas viáveis.
Nesse contexto, a política
energética americana se confunde com suas políticas de relações
exteriores e bélica, a tal ponto que é possível encontrar
um padrão entre diversas “coincidências”, sinais aparentemente
isolados das últimas e mais importantes decisões tomadas
nos EUA, internamente e perante o mundo:
Esse é o prenúncio
da guerra ao Iraque. Não é preciso nem citar a Guerra do
Golfo, além do que seria injusto por ter este conflito se iniciado
de uma ação hostil do Iraque contra uma nação
soberana, o Kuweit. É claro que não cabe aqui satanizar os
EUA em sua guerra nada santa pelo petróleo. Eles são “apenas”
o país com os maiores interesses, e infelizmente o que conta com
os melhores meios de afirmar suas posições, inclusive pela
força. Mas muitos outros países, entre “os que contam”, também
têm grandes interesses nessa questão. Recentemente, França
e Alemanha reagiram firmemente às intenções americanas,
assim como Rússia e China deixaram bem claro sua oposição
à guerra incipiente. Rússia, França e China assinaram
recentemente importantes contratos de exploração de petróleo
em solo iraquiano, que vigorariam a partir do fim do embargo econômico,
imposto pela ONU e EUA desde o fim da Guerra do Golfo. Por outro lado,
o governo americano já declarou abertamente sua intenção
de tutelar a prospecção iraquiana com a óbvia conivência
do governo a ser implantado após a provável queda de Saddam.
O que vai suceder do confronto de tão grandes interesses ninguém
se arrisca a dizer. Mas não resta dúvida que vai ser interessante.
Não vamos nos deixar seduzir, também, pela simplificação. As guerras no Oriente Médio ocorrem há muitos e muitos anos, e têm razões as mais diversas. Além do mais, embora esses conflitos tenham fachada de conflitos nacionais, cada vez transparece mais a relação entre as grandes corporações transnacionais e as decisões dos governos centrais, explicitando a privatização do espaço público. Para ficar em nosso exemplo mais flagrante, quase todo o staff do atual governo americano, incluindo o próprio presidente Bush Jr, é oriundo de cargos executivos em grandes empresas petrolíferas americanas.
O que não podemos nem devemos fazer é fechar os olhos a essa importante correlação de forças que começa a se explicitar. Embora ocupe a 16ª posição mundial em reservas comprovadas, o Brasil foi o país que mais aumentou suas reservas de petróleo nos últimos 20 anos, com um crescimento de 4,94% em 2001, contra uma média mundial de 0,36%. No ano passado a Petrobrás anunciou a descoberta de mais um campo gigante, no litoral do Espírito Santo, com imenso potencial. E pela primeira vez o País registrou mais exportações do que importações de petróleo. Além disso, a América do Sul é a segunda região do mundo em relação reservas x produção, atrás apenas do Oriente Médio. Esses dados, para não falar de outros abundantes e tão visados recursos naturais, obrigam-nos a pensar e nos posicionar de forma clara e, mais do que isso, eficaz sobre essa questão, sob pena de sofrermos, no futuro, intervenções que não desejamos e contra as quais, então, seja impossível reagir soberanamente.
Por fim, vale lembrar que, para além de toda análise técnica, a guerra do Iraque envolve uma desumanidade sem limites. Ninguém tem dúvidas de que, ao final de todos os ataques americanos, os que mais terão sofrido serão os mesmos milhões de civis que já vêm sofrendo há tantos anos, pela violência ditatorial de Saddam Hussein (que, como Bin Laden, nunca é demais lembrar, foi alçado ao poder com apoio americano) de um lado, e pela violência da fome, da miséria provocada pelas sanções econômicas internacionais e por guerras freqüentes. É triste ver a mesma região que um dia abrigou a Babilônia e a Mesopotâmia, o primeiro código de leis da história da humanidade e a capital que um dia foi um grande centro cultural e científico do mundo, ser irremediavelmente destruída por uma sucessão incessante de guerras e mais guerras estúpidas, como são, aliás, todas as guerras.
Fontes:
Panorama do Petróleo
e Gás 2002, ENI
Jornal Tribuna da Imprensa
Jornal O Estado de São
Paulo
BP Amoco
Consciência.Net