O que sempre distinguiu o PT na sopa de letrinhas das legendas comuns foi o respeito ao debate interno de suas tendências, aliado à disciplina na obediência às decisões da maioria depois de aprovadas nas instâncias competentes. Fora dessa receita, o PT se transforma num partido como os outros — primeiro passo para que o governo Lula se torne um governo como os outros.
A quem interessa a exposição pública das divergências internas do PT e o tiroteio de setores do partido contra o governo neste momento? A uns poucos que estão tomando gostinho pelos holofotes, sem dúvida. Mas isso é o de menos.
Os que realmente andaram se deliciando com as cenas dos últimos dias são os que diziam que o PT seria incapaz de governar porque é um saco de gatos. Ou seja, aquele projeto de oposição que ainda não tinha mostrado a cara, e amargava um ostracismo de dar dó, pode acabar saindo da toca mais cedo do que se esperava.
E não só esses. Enquanto setores petistas mais à esquerda esperneiam e chutam o núcleo que está no governo por conta de um mês de política econômica conservadora, há outros que, de fora, abrem os braços para aconchegá-lo. São aliados de outros partidos, de campo ideológico diverso, que esperam só pelo vazio das deserções para aumentar sua influência.
A lógica indica que, se não tiver o apoio fechado e maciço dos seus, o presidente da República terá que buscá-lo, ainda de forma mais vital do que hoje, em outras bandas. O PFL e o PMDB, por exemplo, estão cheios de amor para dar. O PTB e o PL, já na Esplanada, só querem saber de engordar e ampliar espaços. E aí o governo Lula será qualquer coisa, menos um governo de centro-esquerda. Vide Fernando Henrique Cardoso.
Por isso, os mais sensatos do PT entendem que o momento é crucial e raciocinam em cima de uma mudança de tática para lidar com os radicais. Em vez de chamar os provocadores para brigar em praça pública, o que lhes garante gloriosos minutos no “Jornal Nacional” e a impressão de serem muito mais numerosos do que são, isolá-los. Com paz, amor e disciplina na hora certa.
E qual é a hora de se cobrar disciplina? Uma votação em que se feche questão formal sobre determinado tema, e não situações como a eleição de José Sarney para o Senado ou frases infantis do deputado Babá sobre o ministro Antônio Palocci. Quando um petista votar contra a reforma da Previdência ou a autonomia do Banco Central é que o partido terá, sim, a legitimidade e o dever de fazer punições disciplinares.
Fora disso, é ir levando a vida sem fazer muito barulho. Não cair na provocação e nem no blablablá de quem quer aparecer. Afinal, o Planalto e a direção do partido sabem muito bem que os que reclamam publicamente hoje têm rarefeitas chances de sobrevivência política fora das fronteiras petistas. Seu discurso radical perderá o charme e terá pouquíssimo eco se vier assinado por legendas como PSTU ou PCO.
Construída a duras penas, ao longo de anos de assembléias e quebra-paus, a unidade do PT é um bem político precioso. E seu equilíbrio interno, fator determinante nos rumos do governo Lula. É por aí que se conclui que o PT não pode viver sem os seus radicais e vice-versa.
Ministério de São Nunca
Não é das maiores a boa vontade do presidente da República em dar um ministério ao PMDB. Luiz Inácio Lula da Silva recusa-se a fazer demissões na Esplanada para dar lugar a um peemedebista. E vem resistindo à idéia de políticos aliados de inventar uma pasta para isso.
Por enquanto, os governistas estão engambelando o PMDB com a liderança no Congresso e possessões de segundo escalão. Falam num “processo” de incorporação ao governo que começaria pela base parlamentar, alcançando o Executivo apenas depois de uma convenção nacional para oficializar o apoio. Tudo lero-lero.
Na verdade, os articuladores do governo no Congresso estão nervosos. Acham que, mais dia menos dia, provavelmente às vésperas de uma votação importante, o tinhoso PMDB encostará a faca no pescoço do Planalto e cobrará seu ministério.
Lula não vai querer
ceder. Se o fizer, será só para nomear o peemedebista de
sua preferência: Pedro Simon. E aí virá a crise. O
que esses interlocutores do presidente não entendem é por
que tanta implicância com os peemedebistas. Afinal, para quem deu
ministério para o PL, o PTB e outros...
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