A fome insaciada do governo
Elio Gaspari
Jornal O Globo, 02.fev.03

O governo pode fazer a política econômica que bem entender. Teve 53 milhões de votos e tem mandato para isso. Juros altos à custa da Viúva renderam oito anos de ruína, podem render outros oito. O que se pede à nação petista é que contenha a desenvoltura dos ministros que estão se habituando a empulhar a patuléia. Antonio Palocci, por exemplo, tem se excedido nessa arte. Ele sustentou que não se devia mexer na tabela das alíquotas de Imposto de Renda. Quando se poderia mexer? “O futuro a Deus pertence”. Seria mais honesto se dissesse que pretende continuar tungando a choldra, por meio de um truque matemático. Neste ano, ele pretende tomar R$ 2 bilhões de 4 milhões de brasileiros que ganham cerca de R$ 1.400 líquidos. Não se trata de tomar de quem tem muito, mas de tomar mais de quem não tem tanto. Palocci fez que recuou dessa malvadeza, mas corrigir a tabela que é bom, nada. O ministro se apresenta, nas palavras de seu colega Guido Mantega, como “a equipe da tesoura”.

A tesoura de Palocci e Mantega deve aprender a cortar para dentro. Alguns cortes seriam simbólicos. Incidiriam sobre ganhos que a caciquia petista, honrando seu passado, não deveria embolsar. Pode-se dizer que as coisas simbólicas são apenas demagogias. Tudo bem. O rei George VI era gago, burro e chato, mas tornou-se um monarca respeitável quando sua mulher convenceu-o a não deixar Londres durante os bombardeios alemães.

A grande paçoca nacional é feita de pilhas de privilégios. Surpreendentemente, a nobiliarquia petista ainda não foi capaz de chutar uma só dessas pequenas vantagens que fazem a graça do poder e o conforto do andar de cima. Tudo migalha, mas precisamente por serem migalhas é que os nobres petistas não deviam ficar com esse dinheiro.

Lula, o primeiro-aposentado
O presidente tem um salário de R$ 8 mil, casa, carro, comida e roupa lavada. Só 1,5% dos funcionários públicos ganham isso. A esse dinheiro somam-se cerca de R$ 2.500 que o INSS lhe paga. Não é a velha e boa aposentadoria do INSS, que dá aos trabalhadores um benefício máximo de R$ 1.561 mensais, depois de 35 anos de suor.

É a aposentadoria das vítimas da ditadura. Nem todos os operários que perderam seus empregos por causa da ditadura recebem aposentadoria de R$ 2.500.

Dentro do racionalismo do ministro Ricardo Berzoini (“a Previdência não é sistema filantrópico”), o INSS não deveria arcar com essa despesa. Os crimes do Estado não devem ser custeados pela Previdência. Argumente-se que o direito de Lula é líquido e certo. Nesse caso, o companheiro Antonio Palocci deveria dizer ao primeiro-aposentado o que diz aos demais: “Não adianta estar escrito na Constituição que há o direito à aposentadoria se as contas não garantem isso de maneira sustentável”.

Proposta: enquanto tiver R$ 8 mil mensais, casa, carro, comida e roupa lavada, Lula devolve a sua aposentadoria ao INSS ou doa o dinheiro para o combate à fome. São cerca de R$ 30 mil por ano, R$ 120 mil no mandato. Equivalem a 2.400 cupons do Fome Zero.

Por falar em aposentado, o secretário de Comunicação de Governo, companheiro Luiz Gushiken, trabalhou mais de 20 anos e, como muitos bancários desta vida, aposentou-se pelo INSS. Recebe R$ 990 por mês. Por 12 anos de serviço como deputado, Gushiken recebe R$ 3.500. Nomeado secretário de Comunicação de Governo, ganha mais R$ 8 mil.

Proposta: enquanto estiver na cúpula do Poder Executivo, o companheiro Gushiken doa a sua aposentadoria legislativa. Em quatro anos, são R$ 168 mil, ou 3.360 cupons do Fome-Zero.

Justiça devida e exemplo dado: os ministros Olívio Dutra e Ciro Gomes, ex-governadores do Rio Grande do Sul e do Ceará, recusam-se a embolsar as pensões a que lhes deram direito.

A turma do conselheiro Palocci
O ministro da Fazenda, Antonio Palocci, recebe R$ 8 mil por 30 dias de trabalho. Ele já ensinou à choldra que juros não baixam por “ato de vontade”. Faltou contar que ato de vontade aumenta embolso de ministro. Palocci ganha R$ 2.800 mensais por algumas horas de trabalho, uma vez por mês, como membro do conselho da Petrobras.

Ele e o companheiro José Dirceu, que fatura outra Bolsa-Conselho (R$ 7.800) na Itaipu Binacional.

Seria injusto dizer que o cartão-conselho seja coisa nova ou que Palocci e Dirceu sejam os únicos bolsistas. É coisa velha e genérica. Custa R$ 4,76 milhões anuais à Viúva. Os companheiros Dilma Roussef (R$ 4.400), Luiz Furlan (R$ 2.200), Guido Mantega (R$ 1.785) e José Viegas (R$ 1.200) já estão cadastrados no programa.

Proposta: estimando-se que dez ministros tenham assento em dez conselhos a R$ 2.500 mensais cada um, são R$ 25 mil mensais, R$ 300 mil anuais. Doam o dinheiro e, com isso, pagam 24 mil cupons do Fome Zero.

A bancada no Bolsa-Câmara
O companheiro-conselheiro José Dirceu já explicou que está difícil pagar R$ 240 pelo salário-mínimo. Tem suas razões, mas o programa Bolsa-Deputado aumentou os salários de 513 parlamentares em 50%, para R$ 12.720. Além disso, eles acabam de aumentar suas verbas administrativas. É o Bolsa-Câmara. Cada deputado torrará mais R$ 5 mil com escritórios estaduais, passagens aéreas e cotas postais e telefônicas. O companheiro João Paulo, futuro presidente da Câmara, explicou: como os deputados aumentaram seus salários é justo que sejam aumentados os salários de seus funcionários. Empulhação. Nesse caso, seria justo que se aumentassem os salários dos eleitores, pois sem eles não existiriam deputados nem funcionários de deputados. Nada feito. Aos eleitores, caberá apenas pagar, tanto o Imposto de Renda na tabela da tunga, como o Bolsa-Câmara.

Proposta: os 91 parlamentares da bancada petista ficam com o capilé do Bolsa-Deputado, mas devolvem à Viúva o ervanário do Bolsa-Câmara. Esse dinheiro deve render uns R$ 500 mil por mês, R$ 24 milhões, em quatro anos. Meio milhão de carnês do Fome Zero. Não seria um sacrifício muito grande, pois, como diz o conselheiro José Dirceu, “cada setor vai ter que fazer concessões”.

Conta elétrica
Doeu na alma da burocracia do BNDES o tamanho da encrenca da privatização do setor elétrico. É grande no tamanho e na qualidade. O comprometimento do banco é coisa de bilhão de dólares.  No caso da Light, por exemplo, é quase impossível a EDF dizer que não conhecia a cumbuca em que se metia.

Primeiro, porque comprou a mercadoria num leilão. Segundo, porque o edital do leilão foi desenhado e mudado ao sabor dos interesses dos prováveis compradores. Um dos acertos foi lisamente encaminhado pelo próprio presidente francês, Jacques Chirac. Inicialmente, não se aceitavam moedas podres. Mudou-se até mesmo o sistema de cálculo dos reajustes tarifários. Tudo para ficar bonitinho.

Fundo cego
O ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos, conseguiu: seus investimentos pessoais já estão num fundo cego. Um banco administra o ervanário, sem que os encarregados da gestão saibam que o dinheiro é dele e sem que ele saiba onde é aplicado o seu dinheiro.

Quase 30 anos depois do ministro Mário Henrique Simonsen ter pensado em fazer a mesma coisa, finalmente conseguiu-se subir esse degrau na civilização dos costumes nacionais. Como sempre, só sobe o degrau quem quer.

Franquia Zero
Com justos motivos, a direção do Fome Zero estuda um meio para evitar que a marca do programa seja usada de forma oportunista por empresas interessadas em promover seus produtos.

O caminho mais provável será a criação de uma marca. Quem a tiver, fala sério.

O suíço dá e toma
São fortes as suspeitas de que a quadrilha de achacadores da fiscalização estadual e federal no Rio de Janeiro foi apanhada graças a uma denúncia de uma renomada multinacional. 

Coisa simples: as multinacionais pagam, mas registram os jabaculês na contabilidade da matriz. 

A turma de Silveirinha teria cometido a imprudência de depositar na Suíça um dinheiro que tinha tomado de uma grande empresa suíça.
 
 
 

Elio Gaspari é jornalista


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