NOVA YORK (EUA) - Investigação de alto nível na ONU apura a espionagem (escuta eletrônica, telefones, emails etc.) dos EUA sobre diplomatas de países do Conselho de Segurança Nacional com o objetivo de ganhar a votação sobre a guerra do Iraque, mas veículos de mídia do país optaram por praticamente omitir o fato - só noticiado, com atraso e sem destaque, por dois jornais.
A Fair (iniciais em inglês de "Honestidade e Precisão na Reportagem"), entidade que monitora a mídia pela esquerda, criticou a omissão da espionagem nos jornais e redes de televisão dos EUA. A informação saira domingo, dia 2, no Observer, de Londres, que reproduziu o documento interno no qual a secretíssima NSA (Agência de Segurança Nacional dos EUA) ordenava a intensificação da espionagem.
O Washington Post e o Los Angeles Times foram os únicos a se referirem ao assunto - assim mesmo, apenas dois dias depois, a 4 de março, e por ter sido feita uma pergunta sobre o tema na sala de imprensa da Casa Branca. O porta-voz Ari Fleisher, ao responder, disse que a política oficial é não comentar - nem negar, nem confirmar - fatos que envolvam operações de inteligência.
Orgulho búlgaro
é ser espionado
O New York Times
sequer publicou a resposta de Fleisher, enquanto os dois jornais de Washington
e Los Angeles a citavam em textos nos quais consideravam o assunto sem
relevância, por ser sabido serem os diplomatas da ONU alvo de espionagem.
Havia nos artigos frases como "é rotina", "vem com o território",
"seria ingenuidade alguém achar isso novidade".
A reação mais insólita citada pelo L. A. Times era a do embaixador Stefan Tavrov, da Bulgária, favorável ao governo Bush e à guerra contra o Iraque. "Eu me sentiria até ofendido se não me grampeassem", disse ele. Outros países não acharam divertida a revelação do Observer. O embaixador chileno Cristian Maquieira, por exemplo, considerou o caso "muito grave" e até ultrajante.
Segundo a Fair, o presidente do Chile, Ricardo Lagos, exigiu uma explicação do primeiro-ministro britânico, Tony Blair, pois o memorando interno da NSA também se referia a uma agência de espionagem "amiga" - obviamente, da Grã-Bretanha - que participava da operação dos EUA. Os alvos principais da interceptação de telefones eram os diplomatas do Chile, Angola, Camarões, Guiné, Paquistão e México.
"Não vem com o
território"
O paradoxo, disse a Fair,
é que a Casa Branca pedira a mais de 60 países para expulsar
centenas de diplomatas do Iraque considerados pela CIA (Agência Central
de Inteligência) suspeitos de espionagem. E menos de duas semanas
antes a missão dos EUA na ONU expulsara Mohammad Allawi, correspondente
na ONU da agência iraquiana INA. Essas duas notícias saíram
no New York Times, que ignorou a outra.
Também vale a pena lembrar que os EUA, como país anfitrião da ONU, não têm o direito de espionar (sugestão contida na frase "vem com o território", usada por um diplomata). Ao contrário, tem um punhado de deveres, com os quais concordou ao assinar o acordo de sede, pelo qual as partes - o governo americano de um lado, a ONU do outro - acertaram as bases para o funcionamento dentro dos EUA.
Pelo artigo IV, Seção 11 (c) desse acordo, conforme lembrou o presidente da Unca (Associação dos Correspondentes da ONU), Tony Jenkins, em carta ao secretário de Estado Colin Powell, os EUA se obrigaram a não criar obstáculos ao livre trânsito, indo ou voltando da sede da organização, de qualquer representante da imprensa acreditado junto à ONU.
A volta da "caça
às bruxas"
Para a Unca, esse dispositivo
do acordo de sede foi violado pelos EUA com a carta da missão americana
que deu ultimato ao correspondente Mohammad Hassan Allawi, da agência
iraquiana de notícias, INA, para abandonar o país. Se achava
que havia abuso da parte dele, com "atividades fora de sua capacidade oficial",
teriam de ser cumpridas as formalidades previstas no acordo.
É o que dispõe o Artigo IV, Seção 13 (b), conforme a carta de Jenkins. O secretário geral da ONU, Kofi Annan, teria de ser avisado e, nesse caso, estar presente nos procedimentos, em nome da pessoa que era alvo da ação do país anfitrião (Allawi). Ao contrário disso, sequer foi dado ao jornalista o direito de conhecer as acusações, muito menos o de ver as provas existentes ou confrontar seus acusadores.
Era o que acontecia ao tempo da caça às bruxas nos EUA. Só pelos jornais - "em notícias sem citação de fontes ou material de terceira mão", como escreveu Jenkins a Powell - Allawi soube que era acusado de "espionar para o governo do Iraque" (Washington Post). É óbvio que ele poderia, a partir disso, criar um incidente internacional, pois a ONU mantém o seu credenciamento como correspondente.
Argemiro Ferreira
[argemiroferreira@hotmail.com]
Consciência.Net