Durante a Segunda Guerra Mundial o Dr. Funk, Ministro das Finanças da Alemanha, lançou uma intensa propaganda radiofônica sobre uma "Nova Ordem" na economia mundial no pós-guerra, após a vitória nazista, na qual as nações periféricas seriam libertadas do jugo dos grandes bancos internacionais, dominados pelos judeus. Numa manobra de contra-propaganda o governo inglês encarregou o economista Maynard Keynes de estudar o assunto e apresentar algo que se opusesse à propaganda nazista (Colleted Writtings of J.M. Keynes, vol XXV, Londres, 1980). Lord Keynes imaginou um fundo de compensações no qual as nações que tivessem excesso de capital emprestariam as que dela tivessem necessidades.
Segundo Keynes, tratava-se "... de levar ao campo internacional os princípios fundamentais da pratica bancária, mediante os quais, quando um indivíduo resolve deixar ociosos seus recursos, estes não são, por isso, retirados de circulação, mas postos à disposição de outro indivíduo que pode usá-los e em tornar isso possível sem que o primeiro perca sua liquidez e o direito de empregar seus recursos tão logo desejar fazê-lo... só pela extensão desses mesmos princípios a esfera internacional e que poderemos curar os evidentes males da economia internacional". Era uma proposta ambiciosa e idealista, que funcionaria como um Banco Central Mundial, criando crédito para o desenvolvimento dos países subdesenvolvidos. Assim, nasceu a idéia do Banco Internacional de Reconstrução e Desenvolvimento (BIRD), mais conhecido como Banco Mundial.
Tomando conhecimento dos estudos ingleses, o Secretário do Tesouro Americano, Henry Margenthau, encarregou um seu assessor, Harry Dexter White, de preparar um projeto próprio que permitisse o estabelecimento dos sonhos hegemônicos americanos no pós-guerra. Dexter White era de formação marxista, toda a sua equipe era conhecida como radical e, anos mais tarde, seria acusado, pelo FBI, de ter passado informações secretas para os russos, motivo pelo qual deixou de ser nomeado primeiro presidente do FMI, por Harry Truman. White escreveu um trabalho sugerindo a criação de uma organização internacional que estabelecesse um "Fundo de Estabilização" monetária, juntamente com um Banco mundial e a criação de uma moeda internacional que chamou de Unitas, era a idéia inicial do FMI. O Banco de White era mais uma agência de conceder pequenos créditos, do que o de transferir recursos de uma nação para outra, como desejava Keynes, nem seria um Banco Central Internacional e, principalmente, não competiria com os bancos privados. (The Money Lenders, Anthony Sampson, 1 981).
Depois de acirradas discussões entre os dois grupos e fortes pressões americanas sobre a enfraquecida Inglaterra, que terminaram por provocar um enfarte em Keynes, venceram as idéias de White, criando-se o BIRD e o Fundo Monetário Internacional. Essa decisão foi ratificada numa reunião realizada em julho de 1944, com o comparecimento de 44 nações, numa estância de veraneio de New Hampshire, chamada Breton Woods. Não deixa de ser sarcástico que o idealizador do FMI tenha sido um comunista convicto e que seria acusado, dois anos depois, de ter passado segredos americanos para os russos. Apesar do dólar ter sido adotado como moeda escritural, o padrão continuava sendo o ouro, pois qualquer um, que fosse a um guichê do tesouro americano, poderia trocar dólar pelo equivalente em ouro, cujas reservas, guardadas em Fort Knox, somavam mais de 30 bilhões de dólares. A gastança do governo americano com a guerra fria, com a corrida especial e, a partir do final da década de 60, com a guerra do Vietnã, criaram fantásticos déficits fiscal e da balança comercial, os quais provocaram uma contínua diminuição das reservas.
Em março de 1973 as reservas estavam em 13 bilhões de dólares e o Presidente Nixon viu-se obrigado a decretar o inconversibilidade do dólar em ouro. Desde então os Estados Unidos tem tido sucessivos déficits do tesouro e descomunais déficits da balança comercial (em torno de 300 bilhões de dólares anuais). Esses déficits têm sido cobertos ou por emissão direta ou pelo lançamento de títulos do Tesouro, que os outros países e os Bancos internacionais são obrigados a comprar, para manter as suas reservas internacionais (só o Brasil tem 35 bilhões de dólares). Não admire, portanto, o extraordinário e contínuo crescimento da economia americana. E uma prosperidade sem fim! Imagine só se o Brasil não tivesse que pagar o déficit do nosso balanço de pagamentos, que neste ano alcançará 27 bilhões de dólares. Bastaria emitir e empurrava para os outros países o nosso real sem lastro algum, isso ano após ano. Em pouco tempo seríamos uma grande potência. Está na hora do mundo voltar ao padrão ouro, como advogava o grande De Gaulle ou a uma moeda internacional composta de uma cesta de moedas.
Países miseráveis do mundo, uni-vos!
Sebastião Barreto Campello é professor da UFPE e membro efetivo da Academia Brasileira de Autores Solidaristas.