Pátria 2003
Rolando Lazarte

Voltava de Cabedelo. Ensaiava um portunhol cada vez mais oblíquo. Uma estrela vibrava dentro de si. Um ano e um mês atrás, pensava no seu peito, conhecera a paz. 2.2.2.

Agora, era outra coisa. Tinha um lugar. Esperara – sem saber que esperava – trinta anos para tê-lo. Era árduo. E gostoso. Sorrisos. Abraços. O dia se punha no amanhecer da tarde. Cabedelo ficava para trás na noite, mas brilhava uma luz no seu coração. 

Canções infantis, roda, mãos dadas. Parecia uma viagem no tempo. Voltava à mais longínqua infância. Quem é você? Olhava os companheiros em volta. Uma alegria viva vivia nas caras, nos passos, nas garrafas de guaraná, no Clube Cabedelo. Simone passara de manhã, respirar fundo. Maria e Pádua conversavam na varanda. Antigos lutadores. Libertação da Loucura. Maluco Beleza.

Pacheco. San Genaro. Tudo era uma nuvem, um redemoinho de memória, de história. Juan andava por ali. Uma estrela brilhava. Ana, Ana Maria, Alice, Djair. Fábia, Aline. Jacob. Célia. Tantos nomes para a sua agenda pequenhita. O caracol saía do Estado de Sítio. Deixava o Toque de Recolher e se embrenhava na casa de Nazinha, no relato das equipes de Agentes Comunitários do Programa de Saúde da Família de Cabedelo, Prefeitura do PT.

Lavanda. Yogananda. Um som celestial invadia a sala. As pessoas de mãos dadas. Prevenir a doença mental na comunidade (e nos profissionais de saúde) através da arte. Que as pessoas deixem sair o que lhes dilacera o peito através do teatro, da pintura, do canto, das artes. Que todos aprendamos o que fazer no tempo em que não há nada para fazer. Nesses segundos em que a força do automático relaxa, em que uma fresta se abre.

Recordava o já distante ano de 1971, as lutas nas ruas, a ocupação da Faculdade de Sociologia. Ingressava na carreira do avô pela força da mobilização estudantil, que combatia o vestibular como uma forma ditatorial de limitar o acesso do povo á universidade. Deixaria a carreira pela força militar em 1976, reencontrando pátrias e povos além da fronteira e do tempo, raízes revividas tantos anos depois, 2003, Cabedelo, Paraíba, Brasil. A paz dentro, novinha, uma nova guerra, tão velha, fora.

Um novo voto se impunha, pensou no seu peito. Não vão me arrancar daqui. Como ontem, levantar o coração para o alto, estender a mão ao irmão, se jogar na terra. Amar com todas as forças. Fazer como ontem, fazer de conta que nada acontecia, que os irmãos não estavam exilados e a família não estava ameaçada de morte, e que os colegas não desapareciam, e que o sol continuava a sair e que havia, em todas as partes, gente boa. Gente de Bem. Então, pensou para si, não teria sido em vão.

Encontraria Borges e Pessoa e Castro Alves e Augusto dos Anjos e Hermann Hesse e Khalil Gibran e Rafael Alberti onde quer que fosse, aonde for que estivesse. Uma frase de Hesse lhe acometeu, então: "Pátria não é lá nem cá. É onde você está ou em lugar algum".

Rolando Lazarte [lazarte@sobral.org], 31 de março de 2003


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