25 de março de 2003
A espécie humana pode estar em perigo
Noam Chomsky

Neste momento tétrico não podemos fazer nada para deter a invasão em curso. Mas isso não quer dizer que o dever haja terminado para as pessoas que têm alguma preocupação pela justiça. Longe disso. As tarefas serão mais urgentes que antes, qualquer que seja o resultado do ataque. E acerca disso ninguém tem uma idéia: nem o Pentágono, nem a CIA, nem mais ninguém.

Os temas são fundamentais e de longo alcance. A oposição à invasão ao Iraque não tem precedentes históricos. Há um crescente temor ao poder dos Estados Unidos, que é considerado como a maior ameaça à paz em grande parte do mundo, provavelmente por uma grande maioria. E com a tecnologia de destruição agora à mão, cada vez mais letal e nefasta, a ameaça à paz significa a ameaça à sobrevivência.

O temor ao governo dos Estados Unidos não está baseado unicamente nesta invasão, e sim nos antecedentes de que surge: uma determinação abertamente declarada de governar o mundo pela força. O objetivo anunciado abertamente é evitar um desafio ao "poder, posição e prestígio dos Estados Unidos". Tal desafio, agora ou no futuro, e qualquer sinal de que possa surgir serão enfrentados com força esmagadora pelos governantes do país que gasta mais que todo o resto do mundo em meios de violência.

A atual administração está no lugar extremista do espectro da política de planeamento, e o seu aventureirismo e sua inclinação à violência são insolitamente perigosos. Mas o espectro não é tão amplo, e a não ser que estes temas mais profundos se toquem, podemos confiar em que outros extremistas ultra-reacionários ganharão controle de meios incríveis de devastação e repressão.

A "ambição imperial" dos atuais possuidores do poder, como já é chamada francamente, provocou calafrios através do mundo — incluindo a corrente principal da elite nos Estados Unidos. Em outras partes, naturalmente, as reações são muito menos temerosas, especialmente entre as vítimas tradicionais. Sabem demasiada história, aprenderam-na com dor, para serem confortados por uma retórica exaltada. Escutaram demasiado disso através dos séculos enquanto eram golpeados pelo clube chamado "civilização". Há apenas uns poucos dias, o presidente do movimento não alinhado, que inclui os governos da maioria da população do mundo, descreveu a administração Bush como mais agressiva do que Hitler.

Mesmo antes de a administração Bush ter escalado agudamente estes temores, nos últimos meses, os especialistas em assuntos internacionais e de inteligência estavam informando a qualquer um que quisesse ouvi-los que as políticas que Washington está a seguir provavelmente conduzem a um aumento no terror e à proliferação de armas de destruição em massa, por vingança ou simplesmente por dissuasão. Há duas formas pelas quais Washington pode responder às ameaças engendradas por suas ações e assombrosas proclamações. Uma forma é tratar de aliviar as ameaças dando alguma atenção aos agravos legítimos e aceitando converter-se num membro civilizado de uma comunidade mundial com algum respeito pela ordem mundial e por suas instituições. A outra forma é construir motores de destruição e dominação mais terríveis, de maneira que qualquer ameaça percebida, não importa quão remota, possa ser esmagada, provocando novos e maiores desafios. Essa forma apresenta perigos mais sérios ao povo americano e ao mundo e pode, muito possivelmente, levar à extinção da espécie, o que não é uma especulação ociosa.

A guerra nuclear terminal foi evitada quase por milagre no passado. As ameaças são sérias e aumentam. Estas estão entre as grandes preocupações que devem, creio, recordar-se claramente enquanto se examina o desenrolar dos acontecimentos em sua forma imprevisível e enquanto a força militar mais terrível na história humana é desencadeada contra um inimigo indefeso por uma liderança política que acumulou um recorde aterrador de destruição e barbárie desde que tomou as rédeas do poder nos últimos 20 anos.


Noam Chomsky é uma das figuras mais importantes na Lingüística do século XX. Nascido em Filadélfia, em 1928, leciona, desde 1955, no Instituto Tecnológico de Massachusetts, onde se tornou catedrático aos 32 anos. Além de seu trabalho como lingüista, Chomsky escreve livros sobre temas contemporâneos. Suas palestras têm despertado a atenção de platéias em todo o país e pelo mundo afora.

Original: Nodo50
Fonte: http://resistir.info


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