O governador, os secretários e as cuecas



O Rio de Janeiro, com um dos piores índices na área de saúde e afogado em escândalos de corrupção, possui – pra piorar – uma base aliada que ainda não abriu uma CPI para o caso Delta ou mesmo para a saúde e um Judiciário que também se beneficiou das obras da Delta.

Reportagem abaixo é de Talita Corrêa no jornal EXTRA, 01/05/2012, original aqui.

Salário de médico do estado não paga nem o show de secretário de saúde


José Romano, há 20 anos no Estado, salário: R$ 1.884,00 / Farra da turma do Cabral: não tem preço Foto: Roberto Moreyra e reprodução da internet

O menu mais barato de um restaurante francês como o famoso L’Espadon, no Hotel Ritz, em Paris, não sai por menos de 240 euros (R$ 605) por pessoa. Para a lagosta ser regada a um bom vinho rosé, o preço sobe para R$ 920. Se cair de paraquedas nesse banquete de luxo, um médico do estado, que tem como teto salarial, após 20 anos de trabalho, R$ 1.874,50, vai ter que se contentar somente com a sobremesa do cardápio très chic: um prato de queijo, pela bagatela de R$ 65.
E, se depois do jantar, o doutor quiser dar uma esticadinha no show da banda U2 , na área vip do Stade de France, vai ficar na vontade. O valor de R$ 2.521,00 é estratosférico para o ginecologista José Romano, de 50 anos:

— Após duas décadas de serviço na rede estadual, o máximo que consegui ganhar é esse salário de R$ 1.874,50. O vencimento mesmo é R$ 203, somando insalubridade, gratificação e plano de capacitação, vai para R$ 1.874,50 — resume.

No último fim de semana, o ex-governador Garotinho, cujo governo também foi marcado por denúncias de corrupção na Saúde, postou $seu blog vídeos em que o dono da Delta Construções, Fernando Cavendish, o secretários Wilson Carlos (de Governo), Sérgio Côrtes (de Saúde) e Sérgio Cabral passeiam por cidades da Europa — Mônaco, Paris e Cannes — em viagens oficial e particular, aproveitando o melhor da alta gastronomia internacional, folheando caríssimas cartas de vinhos e assistindo a shows em áreas vip. Em um dos vídeos, os eufóricos Côrtes, Cavendish e Wilson usam guardanapos na cabeça.

— Não sei o que o Côrtes festeja. Eu, como médico da rede pública, não tenho o que festejar. O secretário, em vez de viajar para Paris, deveria estar nos hospitais, vendo o que acontece nas unidades pelas quais ele é responsável — completa José Romano.

Em nota, o governo afirmou que as imagens do show em Paris e do jantar em Mônaco foram feitas durante viagens particulares do governador e de seus secretários, pagas por eles próprios. E que, por se tratarem de atividades pessoais, não iria se manifestar.

Relembre o fatos:

Foram divulgadas imagens de Cabral, Cavendish e Côrtes curtindo show do U2, em julho de 2009.

Na última sexta-feira, foram publicadas fotos de uma viagem a Paris em setembro de 2009, numa missão oficial do governo.

Fernando Cavendish é dono da Delta Construções. Desde o início do mandato de Cabral, em 2007, a empresa já recebeu R$ 1,5 bilhão do estado e agora é alvo de investigação da Polícia Federal e da CPI do Cachoeira por suspeita de pagar propina a políticos.

Cavendish era casado com Jordana Kfuri, morta em junho de 2011, em um acidente de helicóptero que matou outras seis pessoas na Bahia. A assessoria do governo informou que os vídeos divulgados das viagens devem ter sido retirados do computador de Jordana.

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