Os judeus que dizem não, por Luiz Weis
    No dia 25 de janeiro passado, o jornal israelense Haaretz publicou uma matéria paga de grande repercussão interna – embora, na imprensa internacional, o assunto raramente tenha sido alçado do pé do noticiário sobre as matanças cotidianas de árabes e judeus, que já custaram a vida a mais de mil pessoas desde o início do atual ciclo de violências, em setembro de 2000.

    A matéria paga é um manifesto em que 52 reservistas, entre eles 10 oficiais de unidades de elite do Exército, comunicam a sua recusa de servir às Forças Armadas de Israel nos territórios palestinos da Cisjordânia e Faixa de Gaza, e conclamam os seus concidadãos a fazer o mesmo. Pela última contagem, pelo menos outros 177 reservistas já haviam subscrito o apelo.
    "Não estamos dispostos a submeter outro povo, a expulsar pessoas, levá-las à fome e à humilhação", afirma o texto, sem rebuços. "O preço da ocupação (da Palestina) é a corrupção da sociedade israelense." E mais: "Os territórios não fazem parte de Israel e,  no final, as colônias judaicas ali estabelecidas acabarão sendo desmanteladas. Assim, não continuaremos lutando por elas."
    O protesto lembra a objeção de um número crescente de israelenses a servir no Sul do Líbano, durante a ocupação que começou em 1982, sob o comando do atual primeiro ministro Ariel Sharon, e só terminaria em 1999. Reflete também a percepção da trágica futilidade da política repressiva do ex-general: quanto mais Israel mata e destrói, mais sofre com o terrorismo palestino.
    O manifesto é importante por outro motivo ainda. As ações que os autores deploram e das quais querem se dissociar têm sido condenadas por governos, como os da União Européia, que jamais puseram em dúvida o direito de Israel à existência segura. Antes do 11 de setembro, até os Estados Unidos vinham criticando o brutal tratamento dado por Sharon aos palestinos.
    Esse tratamento, que afronta o Direito Internacional, inclui o assassínio de membros de grupos extremistas ou até ligados ao presidente da Autoridade Palestina, Iasser Arafat; o bloqueio de cidades e caminhos; a destruição de propriedades familiares, instalações públicas e edificações de governo, com mortos e feridos – e, há mais de dois meses, o confinamento de Arafat ao seu QG, em Ramallah.
    Ao repúdio cada vez maior da opinião internacional a essas práticas intoleráveis - e está se tratando exclusivamente dos países ocidentais tradicionalmente simpáticos a Israel – Sharon e seus adeptos no exterior reagem invocando a implausível acusação de anti-semitismo: quem fala mal das políticas de Israel e defende os direitos dos palestinos é porque odeia os judeus.
    É um recurso a que a direita sionista (e não só ela) sempre apelou. Para citar um caso célebre, entre inumeráveis outros, a atriz inglesa Vanessa Redgrave foi rotulada "anti-semita", vaiada ao receber um Oscar e boicotada anos a fio nos Estados Unidos por suas posições pró-Palestina. Quiseram até impedi-la de fazer o papel de uma sobrevivente do Holocausto em um telefilme do judeu americano Arthur Miller.
    Uma certa mentalidade sustenta que os sofrimentos infligidos pelo Ocidente aos judeus durante quase 2 mil anos dão ao Estado de Israel uma superioridade moral intrínseca e, em conseqüência, uma amplitude irrestrita de ação contra os seus antagonistas. É uma falácia: não é a condição de vítima que torna um grupo humano necessariamente melhor do que o seu algoz.
    O anti-semitismo árabe, porém, é um fato. Desde que, em 1918, a Grã-Bretanha admitiu o estabelecimento de um "lar nacional judaico" na Palestina sob o seu controle, os árabes começaram a importar da Europa os estereótipos racistas que descrevem os judeus como a sub-raça que quer dominar o mundo. Isso se exacerbou com o nazismo e, mais ainda, depois da criação de Israel.
    A cultura popular e a mídia no mundo muçulmano atual – mesmo no Egito que há 23 anos estabeleceu relações com o Estado judeu – contêm doses pesadas de anti-semitismo. Apenas as vozes mais lúcidas da intelligentsia secular árabe são capazes de denunciar as violências israelenses na Palestina sem se deixarem conspurcar pela abjeção anti-semita.
    Para extremistas como Sharon – que provavelmente gostaria de jogar os palestinos ao mar, tal qual os seus equivalentes árabes imaginavam fazer com os judeus nos anos 60 – o anti-semitismo, se não existisse, precisaria ser inventado para desqualificar os críticos de sua truculência. Existindo, precisa ser expandido.
    Mas esse teatro cínico não resiste à coragem de duas centenas de cidadãos israelenses de denunciar a política oficial de "submeter outro povo".

Fonte: Lista de Direitos Humanos


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