Com uma sólida erudição
acompanhada de um autêntico senso pedagógico, o autor retoma,
alternadamente, as etapas da história do movimento sionista. Inicialmente,
propõe uma inteligente síntese de seus fundadores e pensadores,
mostrando, principalmente, como – à exceção de Ahad
Ha'am e, mais tarde, Judah Magnès – eles armaram o impasse a respeito
da "questão árabe". Foi por ter consciência disso que
Zeev Jabotinsky fundou o "sionismo revisionista", cuja ideologia ultra-nacionalista
o autor analisa. Porém, escreve Rosenberg, "a fronteira entre os
dois mitos históricos do revisionismo e do sionismo operário
fora traçada na areia. Pouco a pouco, o sionismo operário
passou a integrar, de fato, elementos (...) importados do reservatório
de idéias revisionistas".
O autor demonstra essa
tese – após apresentar uma terceira ramificação, a
do sionismo religioso – de maneira convincente, evocando a primeira guerra
israelo-árabe, de 1948, a reviravolta de 1967, a devastação
da ocupação e, desde os acordos de Oslo (1993), a oposição
entre normalização e messianismo. Esse longo mergulho desemboca
em uma descrição pertinente das duas faces de Israel que
se opõem a partir dessa época, diante da possibilidade do
nascimento de um Estado palestino.
"Talvez só agora possamos compreender",
observa ele, "o quanto o holocausto afetou a comunidade israelense" A normalização
passa, na opinião do autor, pela criação de um Estado
palestino ao lado de um Estado de Israel dotado de uma Constituição
democrática
Uma revisão da identidade judia
Nessas tensões internas
do movimento sionista, Rosenberg não ignora evidentemente o peso
do genocídio: "Talvez só agora possamos compreender", observa
ele, "o quanto o holocausto afetou a comunidade israelense. (...) Talvez
ousemos até afirmar que o holocausto contribuiu para reforçar
o lado intolerante do nacionalismo judeu. O entusiasmo ideológico
e a ingenuidade traziam um olhar frio e cínico. A moral embaraçosa
do conflito com os árabes palestinos foi neutralizada pela moral
de Auschwitz." Quem tenha estudado a guerra de 1948 ficará surpreso
ao saber que um terço das forças judias que expulsaram centenas
de milhares de palestinos era composto por sobreviventes do genocídio
judeu...
A última e apaixonante
etapa é a discussão do "problema judeu" meio século
após o genocídio, em resposta aos debates particularmente
acirrados que opõem intelectuais judeus franceses1. Rosenberg parece
reivindicar uma cidadania judia aberta. "O que restaria da identidade judia",
pergunta ele, "quando a lembrança do holocausto se apagasse e os
laços com o Estado de Israel perdessem seu drama?" E responde: "Trata-se
de saber como o judaísmo conseguirá romper com a polarização
contínua entre sua banalização espiritual e as formas
extremamente particulares do nacionalismo religioso, do racismo étnico
e do messianismo nacional." Essa normalização passa, na opinião
do autor, pela criação de um Estado palestino ao lado de
um Estado de Israel finalmente dotado de uma Constituição
democrática e, portanto, transformado no "Estado de seus cidadãos",
mas também por uma revisão fundamental da identidade judia,
a qual implica uma opção existencial: "Os judeus devem considerar-se
portadores coletivos de uma responsabilidade histórica ou portadores
individuais de uma idéia moral?" (Trad.: Denise Lotito)
Dominique Vidal é secretário
de redação de Le Monde Diplomatique.
- L'utopie perdue. Israël, une
histoire personnelle, de Göran Rosenberg, ed. Denoël, Paris,
2001, 26 euros (55 reais).
- Histoire intellectuelle et
politique du sionisme, de Georges Bensoussan, ed. Arthème Fayard,
2002, 47 euros (100 reais).
- Le Péché originel
d'Israël. L'expulsion des Palestiniens revisitée par les "nouveaux
historiens" israéliens, de Dominique Vidal (com Joseph Algazy).
Uma segunda edição, aumentada e com prefácio de Ignácio
Ramonet, foi publicada por Editions de l'Atelier, 2002.
- Les juifs ont-ils un avenir?,
de Jean-Christophe Attias e Esther Benbassa, ed. Jean-Claude Lattès,
2001, 17,98 euros (38 reais).
[1] Jean-Christophe Attias et
Esther Benbassa, Les juifs ont-ils un avenir?, Jean-Claude Lattès,
2001, 280 págs, 17,98 euros.
Consciência.Net