De dezembro de 1987 a 1991,
a Intifada palestina resistiu e a repressão arruinou a imagem internacional
de Israel. David tornava-se Golias; "Minha intenção não
é dizer que um acordo qualquer com os árabes palestinos esteja
completamente fora de questão. Mas, enquanto subsistir, em seus
espíritos, a mínima centelha de esperança de que um
dia venham a poder se desfazer de nós, nenhuma boa vontade, nenhuma
promessa cativante os levará a renunciar a essa esperança,
justamente porque não são uma vil ralé, e sim, uma
nação bem viva. Ora, uma nação viva não
se dispõe a fazer concessões sobre questões vitais
senão quando perdeu a esperança de se desfazer de nós
e quando todas as brechas na muralha de ferro estiverem definitivamente
fechadas (1)."
Zeev Jabotinsky escreveu
essas linhas em 1923, num artigo intitulado "A muralha de ferro (Os árabes
e nós)". Dez anos mais tarde, o fundador do chamado sionismo "revisionista"
abriria uma dissidência na Organização Sionista Mundial,
a qual ele criticava, principalmente, por não lutar pela criação
de um Estado judeu em ambas as margens do rio Jordão e por não
criar, com esse objetivo, um exército judeu poderoso. O atual Likud
é descendente via Irgun, Lehi e Herut (2) do movimento revisionista.
E Ariel Sharon é o herdeiro depois de Menahem Begin e Yitzhak
Shamir de Jabotinsky.
David torna-se Golias
Mas a "muralha de ferro"
não inspirou somente os descendentes daquele que Benito Mussolini
reconhecia como um "fascista": ela foi o fundamento, durável, da
estratégia do Yichuv a comunidade judia da Palestina que, depois,
se tornaria o Estado de Israel. Sua primeira grande derrota data de 1982:
a invasão do Líbano, concebida pelo ministro da Defesa, Ariel
Sharon, transformou-se numa catástrofe. Não somente Yasser
Arafat e seus feddayin conseguiram escapar-lhe, protegidos por uma força
multinacional da ONU, como ele não conseguiu impor à República
libanesa o governo pró-israelense com que sonhava. Três anos
depois, o exército israelense teria que se retirar, de forma lastimável,
da chamada "zona de segurança".
Uma segunda derrota viria:
de dezembro de 1987 a 1991, a Intifada palestina resistiu e a repressão
arruinou a imagem internacional de Israel. David tornava-se Golias. Ainda
que, durante a guerra do Golfo, Israel conseguisse recuperar seu papel
de vítima, os mísseis Scud lançados pelo Iraque demonstraram
que, precisamente naquele momento, a ocupação dos territórios
palestinos já não era uma garantia de sua segurança...
Rabin pagaria com a vida,
no dia 4 de novembro de 1995, a tentativa de negociar a paz. A campanha
contra Rabin Foi desses acontecimentos que Yitzhak Rabin tirou as lições,
ao longo das negociações iniciadas em Madri e, depois, em
Oslo. E, em 13 de setembro de 1993, a Declaração de Princípios
palestino-israelense sobre a autonomia, apesar de seus limites, assinala
uma ruptura histórica: ratifica, simultaneamente, o reconhecimento
mútuo de ambos os beligerantes, a retirada progressiva, por parte
de Israel, dos territórios ocupados desde 1967, a criação
de uma Autoridade Palestina, eleita, e a negociação de um
estatuto definitivo nas entrelinhas, percebe-se a criação
do Estado palestino. E, no ano de 1995, ocorreram, sucessivamente, a eleição
do presidente Arafat e de um Conselho Legislativo, a assinatura dos acordos
de Oslo I, a criação da Autoridade Palestina e, no final
de outubro, a assinatura dos acordos de Oslo II.
Yitzhak Rabin pagaria
essa ousadia com sua vida, no dia 4 de novembro de 1995. Havia meses que
o general Sharon e seus amigos travavam uma campanha histérica contra
ele, alguns chegando a representá-lo em uniforme das SS*. No dia
29 de maio de 1996, eles voltariam ao poder: Benyamin Netanyahu vence Shimon
Peres, aproveitando-se de uma onda de atentados do Hamas que leva o eleitorado
de centro a dar uma guinada à direita e a operação
"Vinhas da Ira", que afasta o eleitorado árabe do candidato trabalhista.
É verdade que o velho general Sharon detesta cordialmente Netanyahu,
um rival jovem e brilhante, mas nem por isso deixa de apoiar sua política.
Mas, se Netanyahu pode bloquear a concretização dos acordos
de Oslo, não os pode anular. E, três anos após sua
eleição, em 29 de maio de 1999, seria inapelavelmente vencido
pelo trabalhista Ehud Barak.
Os três objetivos de Sharon
Para Sharon, que voltara
a ser presidente do Likud, era o alarme: o novo primeiro-ministro dizia-se
pronto a qualquer compromisso para conseguir uma paz definitiva. Barak
não conseguiria impor ao presidente sírio, Hafez El Assad,
um acordo que pretendia dar a Israel a soberania total sobre o lago de
Tiberíades, mas suas tropas se retirariam, unilateralmente, do Líbano,
em maio de 2000. E, embora permitindo a colonização de territórios
palestinos num ritmo até então desconhecido, acabou por aceitar
negociações com a Autoridade Palestina sobre o estatuto final
dos territórios. O fracasso da reunião de cúpula de
Camp David, no final de julho de 2000, não bastou para dar garantias
aos inimigos de Oslo: entre Barak e Arafat, a negociação
prosseguiria, nos bastidores, com os riscos, para a direita, de novas concessões
israelenses.
No dia 28 de setembro
de 2000, a provocadora visita do general Sharon, protegido por centenas
de soldados e policiais, à Esplanada das Mesquitas, conseguiu três
objetivos: desencadeou o que viria a ser a segunda Intifada, sabotou a
retomada de negociações e, ao marginalizar Netanyahu, lançou
sua própria campanha eleitoral. Quatro meses depois, ele arrasaria,
literalmente, Barak, que assumiu sua derrota prematuramente, privando-se
do tempo necessário para os acertos sobre os acordos esboçados
em janeiro de 2001, em Taba, para, em seguida, "vendê-los" ao eleitorado.
Um pretexto para a guerra total
O novo primeiro-ministro
aprendeu, sem qualquer dúvida, as lições de Beirute:
nada de deixar a comunidade internacional tornar a salvar a pele do líder
da OLP. E refletiu também sobre o fracasso de Netanyahu: não
bastava frear o que se convencionou chamar processo de paz; era necessário
destruí-lo. Mas um considerável número de eleitores
israelenses e, principalmente, de dirigentes ocidentais, não avalizariam
uma ofensiva total. A solução era transformar a ofensiva
em contra-ofensiva. Assim que se elegeu, Sharon empenhou-se em provocar
os palestinos, dia após dia, até que eles cometessem uma
ação terrorista que, amplamente divulgada pelos meios de
comunicação, justificasse o terrorismo de Estado desencadeado
por Israel.
O primeiro ministro não
improvisa, de modo algum, ao agir dessa maneira. Como revelou, em meados
de dezembro, o jornalista israelense Alex Fishman, "Sharon preparou sua
armadilha" com base num plano elaborado "antes mesmo de sua eleição".
Preparado pelo general da reserva Meir Dagan, esse plano parte dos seguintes
pressupostos: "Arafat é um assassino" com quem "não se negocia";
"o acordo de Oslo é a pior desgraça que se abateu sobre Israel"
e, portanto, "deve-se fazer tudo para destruí-lo". Donde a idéia
de isolar progressivamente o chefe da Autoridade Palestina, tanto no interior
como no exterior. Uma vez terminada a Intifada, Israel, segundo Dagan,
"negociará separadamente com forças palestinas dominantes
em cada território responsáveis palestinos, forças
de segurança, de informação e até do Tanzim".
Conclusão do jornalista: "Agora que agarrou sua presa, Sharon não
a deixará escapar facilmente." (4)
A partir de 11 de setembro,
sucederam-se três seqüências. De saída, o primeiro-ministro
acreditou poder aproveitar se do sinal verde do presidente norte-americano,
George W. Bush, para atacar a Autoridade Palestina. Foi um erro: não
somente foi forçado a retirar suas tropas das cidades autônomas
e autorizar Shimon Peres a encontrar-se com Arafat, como teve que engolir
depois de ter acusado os Estados Unidos de abandonarem Israel como os
ocidentais abandonaram os sudetos aos invasores nazistas o novo plano
norte-americano para um Estado palestino independente. A segunda fase começou
com o assassinato, em 17 de outubro, do ministro de Turismo, Rehavam Zeevi,
pela Frente Popular para a Libertação da Palestina (FPLP),
cujo líder na Cisjordânia havia sido "executado" em agosto.
Essa "vingança" foi o pretexto para o exército israelense
reocupar as cidades autônomas. Dessa vez, as pressões de Washington
não impediram os soldados israelenses de semear o terror durante
cinco semanas. A terceira fase teve início com o assassinato de
um dirigente do Hamas na Cisjordânia, Abu Hanud. Os mandantes sabiam
que o movimento islamista revidaria de forma espetacular, o que forneceria
mais um pretexto para a guerra total contra a Autoridade Palestina. Exigiram
então, de Arafat, que reprimisse o Hamas, ao mesmo tempo em que
o impediam, em termos práticos, de fazer (bombardeando e paralisando
a polícia palestina) e em termos políticos (impedindo-o de
qualquer perspectiva de negociação). O objetivo, reconhecido,
é aterrorizar três milhões de palestinos e marginalizar
seu presidente ou mesmo, eliminá-lo.
Multiplica-se a barbárie
"Em seu lugar, teremos
o Hamas, o Jihad Islâmico e o Hezbollah (5) ", teria advertido Shimon
Peres. "Prefiro um Hamas sem máscara a uma Autoridade Palestina
mascarada (6)", teria retorquido Uzi Landau, ministro da Segurança
Interna. E começam as apostas: quem será o sucessor do "Velho"?
A "velha guarda", a "jovem guarda" ou o chefe de um serviço de segurança?
Pouco importa: na realidade, o general Sharon simplesmente não quer
mais ter interlocutores reconhecidos, interna como externamente, para não
ser obrigado a negociar. Que reocupe os territórios ou deixe a sua
administração por conta dos cerca de 40% de "prefeitos" colaboradores,
nada vai mudar. E é o que diz o próprio Landau: "Os planos
de paz podem ser vistos mais tarde. (...) O que é uma certeza é
que jamais aceitaremos a existência de um Estado palestino. Isso
seria uma catástrofe (7)."
E, se a catástrofe
fosse o contrário... Pois, com a segunda Intifada e sua repressão
brutal, o conflito ganhou dimensões equivalentes às de 1948:
"Há o sentimento", salientava o historiador Tom Segev, "de que voltamos
à época do mandato britânico, que precedeu a criação
do Estado de Israel, quando duas comunidades se enfrentavam de armas na
mão (8)." E nunca, nos últimos 50 anos, tantos atos de barbárie
se multiplicaram: assassinatos de crianças palestinas, pogroms anti-árabes,
linchamento de dois soldados israelenses, mesquitas incendiadas, destruição
do túmulo de José, bombardeios com aviões F-16 e helicópteros,
atentados suicidas... Como se o palco da batalha política de um
povo em busca de sua liberdade se tivesse transformado em uma luta de morte
étnico-religiosa...
Opções contraditórias de Israel
Estes quinze meses de horror
prenunciam o que se poderia tornar a batalha da Palestina: uma guerra civil,
às vezes latente, às vezes generalizada, entre duas populações
intimamente ligadas, inclusive os árabes israelenses. E, no meio
de uma confusão dessas, para que servem bombas atômicas, mísseis,
blindados? O nome da chave da vitória talvez seja demografia. O
movimento sionista sabe disso: desde suas origens, não parou de
conjugar a luta pela terra e a imigração, com o objetivo
de constituir uma maioria judia. Ora, se na "Grande Israel" tão
cara ao chefe do Likud se contam hoje 5,1 milhões de judeus e
4,1 milhões de palestinos, estes se tornarão maioria no ano
de 2010; e em 2020 serão 8,1 milhões, contra 6,7 milhões
de judeus (9).
Israel só dispõe
de duas armas capazes de exorcizar essa ameaça: uma imigração
judia maciça e/ou uma expulsão, não menos maciça,
de palestinos. A primeira parece pouco provável, a menos que explodisse
uma onda muito séria de violência anti-semita nos países
ocidentais. A segunda, que foi batizada de "transferência" e que
acalenta os sonhos de uma parte da direita israelense seria impossível
de ser organizada "a frio". Pressupõe uma situação
exacerbada, uma conflagração regional: que país árabe
ousaria a loucura de se lançar em tal aventura?
Já que não
foi permitido que nascesse, a seu lado, um Estado palestino independente
e viável, Israel que se define como um "Estado judeu e democrático"
terá pela frente uma importante contradição: a de
optar pela democracia e, portanto, conceder o direito de voto a todos os
seus habitantes, caso em que deixaria de ser um Estado judeu; ou se agarrará,
com obstinação, à preservação de seu
caráter judeu, caso em que deixaria de ser democrático. E
a manutenção de um autêntico apartheid contra uma crescente
maioria árabe provocará insurreições e um tipo
de repressão tais que, diante deles, os de hoje são um mero
aperitivo. Não é difícil imaginar, num cenário
desses, o desaparecimento do Estado de Israel.
Uma política suicida
Mestre em táticas
de curto prazo, será que o general Sharon teria uma estratégia
de longo prazo para exorcizar esse fim? Pelo contrário: ao combater
com todas as suas forças a criação de um Estado palestino
que contribuiria, precisamente, para garantir a existência do Estado
de Israel e seu caráter judeu ele parece não compreender
que a hora já chegou. Exemplo disso é que, no período
de um ano, Israel viu romperem-se as relações, diplomáticas
e comerciais, que havia estabelecido nos anos de Oslo com o Marrocos, a
Tunísia, Catar e Omã, além de uma primeira tentativa
de contatos com a Argélia e os Emirados Árabes Unidos só
permanecendo em vigor os tratados assinados com o Egito e a Jordânia,
mas os embaixadores desses países já deixaram Tel Aviv há
muito tempo...
Se, em termos de futuro,
é suicida, a política do primeiro-ministro já representa,
a partir de agora, graves conseqüências para seus concidadãos.
Segurança? A proporção de vítimas israelenses
passou de uma em cada cinco, na primavera, para uma em cada duas, nas primeiras
semanas de dezembro. Crescimento econômico? Se chegava a 6% na primeira
metade da década de 90, caiu para 4,7% no ano 2000, para 2,7% em
2001 e a previsão é de que desça para 1,7% em 2002.
Investimentos estrangeiros? De janeiro a setembro de 2001, decresceram
70% em relação ao mesmo período em 2000. Turismo?
Teve uma queda de 65%, provocando a perda de um em cada quatro empregos
no setor. Desemprego? Deverá atingir 10% da população
economicamente ativa em 2002 (contra 6,7%, em 1996). Miséria? Em
1999, 300 mil famílias viviam abaixo do limiar oficial de pobreza,
ou seja, bem mais de 18% da população...
Um governo de morte
Como irá reagir
a opinião pública israelense? Em termos imediatos e considerando
que os atentados reforçam o sentimento de que a própria existência
do Estado de Israel está em perigo é lógico que
uma grande maioria deverá apoiar o primeiro-ministro. Essa reação,
no entanto, não deixa de ser um pouco esquizofrênica, pois
muitos dos que clamam por vingança são os que desejam a retomada
das negociações de paz (10). Mais para a frente, é
o próprio futuro da sociedade israelense que está em jogo.
Nada permite afirmar que a febre ultra-nacionalista apague a enorme aspiração
à normalização por parte de uma população
cujo sonho é consumir mais, e em paz, e não fazer a guerra
para salvar os colonos. Ainda que o conflito com os árabes se possa
tornar o cimento de um "mosaico" de sucessivas imigrações,
abalado pela globalização e dividido por suas querelas internas
(judeus e árabes, leigos e religiosos, asquenazes e sefarditas...)
e órfão de um ideal. A paz interna e a paz externa não
podem ser dissociadas.
Numa entrevista publicada
em abril pelo diário Haaretz , o novo primeiro-ministro de Israel
saiu-se com estas frases estranhas: "A guerra da independência de
1948 não terminou." Atualmente, compreende-se melhor seu sentido.
Entre as vozes que denunciam essa demência guerreira está
a de Nourit Peled-Elhanan, conhecida dos leitores do Monde diplomatique
(11): ela havia dito, em nosso jornal, os motivos pelos quais considerava
Benyamin Netanyahu responsável pela morte de sua filha Smadar, num
atentado em 1997. Agora, ao receber o prêmio Sakharov no Parlamento
Europeu, juntamente com o escritor palestino Izzat Ghassawi, foi Ariel
Sharon que ela atacou: "Dylan Thomas escreveu um poema intitulado A morte
não tem governo. Em Israel, a morte tem um governo. Em Israel,
a morte governa e esse governo é um governo de morte (12)."
Tradução: Jô Amado
Dominique Vidal é secretário
de redação de Le Monde Diplomatique.
(1) Sionismes. Textes fondamentaux,
compilados e organizados por Denis Charbit, ed. Albin Michel, Paris, 1998.
(2) N.T.: Organizações
terroristas que atuaram na guerra de 1948.
(3) Ler, de Amnon Kapeliouk,
Rabin, un assassinat politique, Le Monde éditions, Paris, 1996.
(4) Yediot Aharonat, Tel Aviv,
14 de outubro de 2001, citado por Le Monde, 18 de dezembro
(5) Yedioth Aharonot, Tel Aviv,
1º de outubro de 2001.
(6) Le Monde, 14 de dezembro
de 2001.
(7) Le Monde, 14 de dezembro
de 2001.
(8) L'Humanité, 12 de
outubro de 2000.
(9) Ler o artigo de Arnon Sofer
na Newsweek, Nova York, 12 de agosto de 2001 ; o de Youssef Courbage, Enjeux
démographiques, Le Monde diplomatique, abril de 1999, e Populations
& sociétés nº 362, Paris, novembro de 2000.
(10) No entanto, o percentual
dos que defendem a retomada de negociações caiu de 55%, em
23 de novembro, para 32%, em 3 de dezembro. Fonte: Maariv, Tel Aviv.
(11) Le Monde dipomatique,
outubro de 1997.
(12) Yedioth Aharonot, Tel
Aviv, 3 de dezembro de 2001.
Fonte: Le Monde Diplomatique
Consciência.Net