Com aumento de mortes, coveiro palestino abre valas antecipadamente
da France Presse, em Ramallah (Cisjordânia)

    O coveiro Omar Jomaa Mussa, 36, do cemitério de El Bireh, cidade autônoma palestina vizinha de Ramallah, na Cisjordânia, já não espera os corpos chegarem para cavar os túmulos para seus compatriotas mortos pelo Exército israelense, cujo número aumenta a cada dia.
    A agenda do coveiro conta com nomes das vítimas dos tiros israelenses enterradas em seu cemitério, que já somam 40 desde o início da segunda Intifada (revolta palestina contra a ocupação israelense), em setembro de 2000. Mussa afirmou que sente muita pena quando enterra uma criança. "Sinto a grande injustiça da qual o povo palestino é vítima."
    "Abri um túmulo comum para uma mãe e os três filhos da família Abu Kuweik e chorei quando coloquei os corpos das crianças", disse Mussa, em referência à morte dos familiares de Hussein Abu Kuweik, autoridade local do movimento extremista islâmico Hamas.
    Buchra Abu Kuweik, 32, suas filhas, Aziza, 16, e Baraa, 14, e seu filho, Mohamad, 10, morreram ao receber um disparo de um tanque israelense no acampamento de refugiados de Al Amari, próximo à cidade de Ramallah.
    O Exército israelense apresentou depois suas "desculpas". Sobre os muros do cemitério do El Bireh, os retratos dos mortos parecem flores tristes. Em cima dos túmulos, se vê a bandeira palestina, o nome da vítima e a data da morte.
    Os muros do cemitério também mostram os impactos das balas que os soldados israelenses disparam da colônia judia de Psagot, situada numa colina vizinha. "O Exército israelense tem disparado, sem nenhuma razão, em mim e no meu ajudante, mais de uma vez, mas não nos feriram", declarou Mussa, que declara trabalhar no local há dois anos.
    Em um canto do cemitério pode-se ver o túmulo de Abu Ali Mustafá, chefe da Frente Popular de Libertação Palestina (FPLP, esquerda radical), assassinado pelo Exército israelense em agosto de 2001.
    A sepultura é provisória, enquanto seus restos não são levados para Arraba, aldeia natal do dirigente palestino, próximo de Jenin, na Cisjordânia, o que será feito quando os bloqueios aos territórios palestinos forem suspensos. O prefeito de El Bireh, Walid Hamad, afirmou que o cemitério já está lotado e "não pode receber mais vítimas", motivo pelo qual já escreveu ao líder palestino, Iasser Arafat, pedindo-lhe um novo pedaço de terra. Com o aumento do número de mortos palestinos, "tivemos que cavar túmulos suplementares para que estejam prontos", disse Hamad.
    O diretor-geral dos hospitais palestinos da Cisjordânia, Mussa Abu Hamid, afirmou que "nos hospitais de Jenin e Nablus, com frequência devemos colocar vários corpos num só compartimento do túmulo, previstos para guardar um".
    "O pessoal de todos os hospitais foi mobilizado", principalmente depois da declaração do primeiro-ministro israelense, Ariel Sharon, "sobre a necessidade de infligir mais perdas aos palestinos", disse. No dia 4 de março, Sharon afirmou no Parlamento israelense que os palestinos deviam sofrer ainda "muitas perdas para entender que não conseguirão nada com o terrorismo".
    Abu Hamid afirmou que "nos últimos dias os hospitais rejeitam doentes" e que "todo o pessoal se dedica a cuidar dos feridos e atender casos mais urgentes". O conflito entre israelenses e palestinos atingiu um nível de violência sem precedentes, com um saldo de ao menos 180 mortos somente nos últimos dez dias. A grande maioria das vítimas é de palestinos.


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