Israel faz papel de vítima para justificar os massacres
Tribuna na Imprensa

Palpite infeliz, isso é o mínimo que se pode dizer da falseada peroração do sr. Eitan Surkis, cônsul geral de Israel no Rio de Janeiro, em resposta a denúncias formuladas por mim e por Sebastião Nery sobre os massacres de matiz nazista realizados sistematicamente pelo Exército do seu Estado racial contra a população árabe dos territórios usurpados.

Recorrendo aos mesmos lugares comuns e a informações distorcidas dos acontecimentos, o funcionário israelense abusa do nível de informação dos nossos leitores e ainda tem a coragem de dizer que seu tresloucado primeiro ministro Ariel Sharon deseja tão somente garantir a paz com seus vizinhos.

Antes de reiterar as denúncias, valendo-me, inclusive, de uma carta assinada por 500 intelectuais e personalidades de Israel ao Secretário Geral da ONU, Kofi Annan, faço questão de repudiar a preliminar do sr. Surkis, que, para variar, considera anti-semita todo aquele que condenar o expansionismo sionista.

Isto é, quero dizer que já não cola mais, nem para os judeus lúcidos que felizmente ainda existem e em grande quantidade, a despropositada distorção acerca da história de Israel e da sua imposição aos árabes, os verdadeiros donos do território onde esse centro administrativo de um conglomerado espalhado por todo o mundo foi implantado.

O sionismo é uma invenção de Theodor Herz, materializada a partir da infiltração no solo árabe, então sob domínio colonial, financiada pelo barão de Rotchield, que implantou ali algumas "colônias judaicas", de olho no seu subsolo.

Essa primeira usurpação consolidou-se já na segunda década do século XX, graças à cobertura da Inglaterra colonialista, cujo chanceler Balfour emitiu declaração dando seu apoio, no momento em que, em plena I Guerra Mundial, os árabes lutavam contra o império otomano. Naquele início de século, ingleses e franceses iam expandir seus domínios sobre a área e jogaram com tais colônias como pontas de lança de sua estratégia.

Só não ouviram os árabes

Os judeus haviam sido expulsos da área no ano 33 depois de Cristo pelo imperador Adriano, de Roma, seguindo-se um período de convulsões, em que um elemento novo passava a influir – a Igreja cristã de Jerusalém. Se os judeus se espalharam pelo mundo, recusando Cristo como o messias, os árabes, divididos por tribos empurradas para o deserto, permaneceram na área, e reconquistaram sua unidade como povo a partir da palavra do profeta Maomé, 600 anos depois.

Na verdade, tanto judeus como árabes, assírios, aramaicos e fenícios são de origem semita. Não procede, assim, colocar a questão em termos de anti-semitismo, de resto um surrado expediente para dar conteúdo racista aos que rejeitam o Estado de Israel como uma fatalidade histórica.

Este Estado foi criado em 1947 por uma estranha aliança que envolvia desde os pensadores humanistas, comovidos com o sofrimento vivido pelos judeus no auge da Alemanha nazista, a União Soviética de Stalin, os empresários ocidentais de grande influência no mundo financeiro e, o que é mais irônico, os direitistas europeus, como o ex-chanceler francês Xavier Mesan Desart, para quem era preciso criar um espaço fora da Europa onde fossem confinados os judeus.

Só os árabes, ainda em processo de libertação do domínio franco-britânico, não foram levados em conta, embora fossem os legítimos donos do território. Assim mesmo, a Resolução da ONU falava de uma partilha e definia um espaço para Israel, que nada tem a ver com o que hoje ocupa. E é bom que se lembre ao sr. Cônsul que, embora sob a liderança de figuras respeitáveis, como David Ben Gurion, os israelenses iniciaram a expansão, em busca de um espaço vital ampliado, no mesmo dia em que aceitaram o território da partilha. Para isso, recorreram ao terrorismo em que se destacou Menerrud Begin, que viria a ser mais tarde premier.

Sob pressão e ameaças, o Estado árabe da Palestina, também incluído na Resolução da ONU, acabou ficando no papel. Enquanto Israel recebia dinheiro dos judeus do mundo inteiro para expandir-se, os palestinos foram confinados em campos de refugiados. Aí cabe reconhecer que, naquele momento, os governantes árabes, de composição feudal, não tiveram o empenho necessário pela reconstituição de sua Palestina como Estado independente.

Sob a inspiração de Maomé

Somente a partir da afirmação do presidente Gamal Abdel Nasser como primeiro grande líder árabe e do surgimento do Partido Bahas socialista na Síria e no Iraque, a causa do Estado palestino foi resgatada. Surgiu então o Al Fatah, a coluna vertebral da Frente de Libertação Nacional da Palestina, que passou a mobilizar os refugiados sob a liderança de Iasser Arafat. Ante as humilhações impostas por Israel, que ocupou cidades totalmente árabes e absorveu seus habitantes como cidadãos de segunda classe, o componente religioso foi se incorporando à resistência palestina.

Os muçulmanos, afinal, se constituíram não apenas a partir da pregação de Maomé. Este só logrou a conquista de Meca e a consolidação dos postulados do Alcorão, após três batalhas cruentas, dando origem ao Jirah, a guerra santa islâmica. Maomé, lembre-se ainda, foi o líder político que unificou os árabes e tanto o Alcorão como a Suna (seu exemplo) tratam das questões de Estado, pregando ensinamentos éticos e morais fundados na justiça e na dignidade dos seres humanos, inclusive na busca do conhecimento e do saber.

Apesar de uma estrutura social avançada, baseada nos kibuts, as comunidades cooperativadas, Israel acabou abandonando seu projeto original inspirado nos guetos de perseguidos, e, sob influência de seus monitores milionários, assumiu a condição de cabeça de ponte dos Estados Unidos, que pôs as potências européias de quatro e expandiu seus interesses por todo o mundo.

Já então o petróleo cobiçado jorrava no Oriente Médio. Os israelenses tornaram-se, assim, apenas uma ferramenta de um enorme império internacional, que explora o mundo todo. Seu papel nessa engrenagem passou a ser o de uma cunha no território árabe, o grande arsenal petrolífero.

O que acontece hoje reflete esse contexto e isso impregna a resistência palestina de uma inspiração sagrada. Arafat ainda tenta compor uma situação que facilite o fim das hostilidades, mas a política belicista de Sharon, bem diferente da adotada pelo assassinado premier trabalhista Isaac Rabin, torna inviável todo o esforço de paz, parta de onde partir.

Tal situação não leva apenas à radicalização dos palestinos. Os israelenses como população também estão incomodados, porque não podem dormir tranqüilos e vivem expostos aos guerrilheiros palestinos, prontos a darem suas vidas, que já não valem nada nos miseráveis campos de refugiados. Daí as manifestações de 500 personalidades de Tel Aviv e Jerusalém, em carta ao Secretário Geral da ONU, a qual o sr. cônsul não pode escamotear.

Nesse documento, depois de pedirem a intervenção de uma tropa internacional de paz, os seus signatários enumeram propostas para uma paz duradoura, na qual admitem a volta das fronteiras de Israel ao que havia antes de 4 de junho de 1967, a administração conjunta dos lugares santos, uma justa solução para a questão dos refugiados e a implantação de um Estado palestino completamente independente com capital em Jerusalém leste. Isso tudo o sr cônsul faz questão de omitir da opinião pública brasileira.

Porque para ele só há anti-semitismo nas manifestações contra os abusos nazistas do governo israelense...

E-mail: porfiriopai@uol.com.br


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