Wole Soyinka
Global Viewpoint
RAMALLAH - "Arafat! Arafat! Arafat! Ele é o culpado!" Eis o que se ouve com freqüência de Ariel Sharon e George Bush. Fico abalado até as bases da razão ao notar que alguém com um mínimo de entendimento da psicologia da humilhação e desespero possa imaginar que, no contexto do conflito do Oriente Médio, uma pessoa como Arafat, por mais respeitada que seja por seus seguidores, por mais sagrada que seja sua autoridade, possa controlar uma forma de ação que resulta do desespero e trauma coletivos e individuais. Yasser Arafat simplesmente não controla as muitas armas da resistência palestina. Nem mesmo os vários grupos de resistência podem gabar-se de exercer controle absoluto sobre atos individuais que implicam firme decisão e criatividade.
Timothy MacVeigh arrebatou quase 200 almas em Oklahoma, numa só arremetida. Ninguém tentou atribuir ao presidente do lobby favorável a armas de fogo a responsabilidade única pela firme decisão homicida de MacVeigh de vingar as vítimas de Waco. Tampouco alguém responsabilizou o primeiro-ministro de Israel pela ação, muitos anos atrás, de um reservista militar, um médico, que disparou contra uma reunião de fiéis muçulmanos numa mesquita, matando muitos antes de voltar a arma contra si mesmo.
O irrealismo do governo israelense e dos EUA neste caso é desconcertante. Ele seria risível se não contivesse conseqüências trágicas tão previsíveis. A insistência deles, por exemplo, durante as fases iniciais da mais recente intifada (levante palestino contra a ocupação israelense), de que os palestinos adotassem moratória de pelo menos uma semana sem violência antes de as conversações de paz poderem começar, ficou evidente que era uma exigência infantil para quaisquer seres humanos que afirmam ter o dom do raciocínio. No fim, até Sharon precisou reconhecer a inutilidade da insistência. Agora, vejam nosso ciclope moderno golpear como seu ancestral mítico, Polifemo, que Ulisses cegou, lançando explosivos em todas as direções, na esperança de acertar seu atacante.
Se eu trouxe algo de minha visita, foi a intensificação de meu terror pessoal por ver que tanto intervencionismo crítico nos assuntos mundiais está realmente nas mãos de líderes como Ariel Sharon e George Bush, que têm poder militar ilimitado à sua disposição.
Não houve nenhuma revelação nesta viagem. Alguns meses atrás, eu já usara a expressão de que o governo israelense estava dilacerando o coração e o fígado de Arafat e dando-os a seus filhos. E quem poderia deixar de prever as conseqüências de tal evisceração! O que observei em Ramallah fez-me verdadeiramente temer pelos israelenses – muitos dos que julgavam que seu líder político estava palmilhando a trilha política certa simplesmente nunca se deram ao trabalho de projetar suas mentes para dentro dos campos de refugiados palestinos, para dentro de sua existência diária, mesmo que não pudessem visitar a realidade física para experimentar em primeira mão a humilhação diária e as cicatrizes de lembranças que hoje definem a condição de quase todos os palestinos.
Vimos os postos de revista através dos quais milhares de palestinos passam a fim de ir todo dia para o trabalho em sua única fonte de ganho econômico – Israel. Ficamos entalados em infindáveis comboios de veículos motorizados através dos quais palestinos passam para ir ao trabalho e voltar – isto, duas vezes por dia. Esse senso de humilhação é palpável na Palestina – é possível tocá-lo, medi-lo e pesá-lo.
Foram inúmeros os relatos sobre mulheres que deram à luz em postos de revista por causa do controle inflexível imposto à locomoção de pessoas comuns; sobre mortes dentro de ambulâncias presas em comboios ou em postos de revista. E, claro, esmagamos argamassa com nossos pés, caminhamos no meio dos escombros de casas demolidas e vimos, sem disfarce, a política ativa de usurpação de terras a cargo de colonos – demolir, criar uma terra de ninguém, então se mudar para o espaço vazio quando os ocupantes palestinos tiverem sido afugentados para além do alcance das armas de fogo.
Fui suficientemente imparcial durante minha visita? Claro. Mas também digo que não fui. É impossível adotar só uma visão clínica e objetiva da situação na Palestina. Quando seres humanos são explodidos em restaurantes, em hotéis, e em especial com um senso singularmente grotesco de momento oportuno – durante um jantar religioso, como o da Páscoa judaica –, sente-se raiva e horror dos seus autores. Falar em martírio é abusar do emprego da palavra, quando ela está ligada ao assassinato de inocentes.
Se não existem inocentes em qualquer luta, então desistamos da causa da humanidade. Minha pele arrepia quando ouço o termo "martírio" usado como um equivalente de homicídio por meio do suicídio, e principalmente do homicídio em massa. E, do outro lado do terror, o da versão estatal, ouvir uma família fazer o relato vívido em que tanques arrombam e atravessam suas paredes à noite, despejando escombros sobre membros da família adormecidos, esmagando inocentes enquanto dormem, é da mesma forma impossível continuar viceralmente desengajado ou não se sentir moralmente agredido.
Aquelas eram casas desses inocentes durante gerações. Agora elas estão sendo transformadas em solo de cultivo de uma nova espécie de bípede – o desumanizado.
O nigeriano Wole Soyinka, ganhador
do Nobel de Literatura, visitou Ramallah na semana passada como membro
de uma delegação do Parlamento Internacional de Escritores
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