É evidente que Israel tem o direito de defender-se dos ataques terroristas. Eu não hesitaria em apoiar operações policiais que resultassem na prisão e subsequente julgamento dos suspeitos de patrocinar os covardes atentados. Mas não é isso o que as tropas do primeiro-ministro Ariel Sharon vêm fazendo. Sob o pretexto de caçar terroristas, reprimem com violência a população palestina, produzindo mortos e feridos entre civis que são pelo menos tão inocentes quanto as vítimas do lado israelense.
Ainda que os soldados, ao contrário dos terroristas, não tenham como objetivo precípuo causar baixas entre populares, sua ação inexoravelmente leva a esse resultado. Lida-se, afinal, com uma explosiva combinação de equipamento pesado, militares treinados para a guerra e a natural e legítima resistência dos palestinos. É diferente de uma operação policial comum, que apenas excepcionalmente termina na morte de circunstantes. Quando o Exército israelense entra nos territórios palestinos, o máximo que podemos fazer é torcer para que não morra muita gente, em especial as criancinhas.
E o Estado israelense, quando decide agir mesmo sob essas condições, não apenas fica com o ônus das mortes como também aceita e passa a atuar sob a mesma lógica insana dos terroristas. O governo Sharon não faz segredo de que, enviando uma resposta militar, espera mostrar "aos palestinos" que o terrorismo "não compensa". Só conheço um nome – e ele é forte – para essa política: terrorismo de Estado.
Sempre que um poder constituído reprime "no atacado", deixando de individualizar as condutas de eventuais suspeitos, ele está massacrando, além de um grupo ou população, os fundamentos do Direito. Aqui, Israel, por deixar de aplicar o Direito, de algum modo se iguala aos que explodem bombas em discotecas, pizzarias e ônibus. Aqui, Israel perde inequivocamente a superioridade moral que proclamava ter em seu longo conflito com os palestinos. E quem diz isso não sou eu (não acho que possa existir uma ocupação ética), mas sim Ehud Barak, ex-primeiro-ministro de Israel, sob cujo mandato teve início a nova Intifada.
De resto, pesam contra Israel acusações graves, que reforçam a suspeita de "punição coletiva" e, portanto, de terrorismo de Estado. As tropas do Exército estariam, por exemplo, dificultando o trabalho dos serviços médicos e instilando o terror na população civil ao privá-la de serviços básicos e realizar prisões em massa.
Essas minhas ponderações não devem ser lidas como um atestado de inocência para Iasser Arafat e a Autoridade Nacional Palestina (ANP). Não creio que possamos, como faz Israel, atribuir diretamente ao líder palestino a culpa por todas as ações terroristas. Muitas delas levam a assinatura de grupos como Hamas e Jihad Islâmico, cuja relação com a ANP é ambígua e de rivalidade. É também discutível o real poder do presidente palestino sobre a Brigada dos Mártires de Al Aqsa, que em tese está ligada a seu grupamento político.
Mas, mesmo se considerarmos que Arafat não controla as ações dos radicais palestinos, é certo que ele joga com esses bandos. Quando lhe interessou, o presidente da ANP incentivou ações desesperadas dos radicais de seu lado para colocar pressão sobre o governo de Israel.
Até um certo ponto, isso faz parte da "Realpolitik". Não fossem as pedras da primeira Intifada, a dos anos 80, Israel provavelmente seguiria até hoje afirmando que não existem "palestinos", que o que havia era uma população árabe que deveria ser "absorvida" por países árabes.
De resto, são tênues as linhas que separam ações legítimas de resistência de atos de terrorismo. É claro que um povo, qualquer povo, tem o direito de resistir, inclusive por meios violentos, a um exército invasor. Se não reconhecermos esse princípio básico, teremos de considerar ilegais e ilegítimas, por exemplo, a reação russa contra as tropas napoleônicas e as ações do Partido Comunista Francês contra a ocupação nazista. Isso não significa, é óbvio, licença para sair explodindo civis.
E, gostemos ou não, o Exército de Israel tornou-se uma força invasora. Se tomarmos a partilha da Palestina estabelecida pela ONU de 1947 como justa – o que, diga-se, os árabes e palestinos até muito recentemente se recusavam a fazer – poderemos observar uma significativa mudança nas fronteiras em 1967, quando o Estado judeu tomou a Cisjordânia (Jerusalém inclusive) aos jordanianos e a faixa de Gaza ao Egito. Àquela altura ainda se podia argumentar que a espetacular ação militar israelense na Guerra dos Seis Dias foi um ato de defesa. Os principais países árabes estavam prestes a iniciar uma ofensiva para varrer Israel do mapa e atirar os judeus no Mediterrâneo.
Agora, passados 35 anos, já não há coalizão de países árabes dispostos a empurrar os judeus para o mar, e o próprio Arafat reconheceu o direito de Israel à existência. A ocupação dos territórios palestinos, contudo, continua, da mesma forma que os palestinos seguem sem o Estado a que fazem jus.
Poderíamos passar anos discutindo quem tem direito a que na Terra Santa. Ambos os lados colecionam argumentos e sofismas, razões e equívocos. O pior que pode acontecer agora é continuarem alimentando a espiral de violência e a tão bíblica lei de talião. Trata-se, com certeza, do único caminho que não leva a lugar nenhum.
Será difícil retomar as conversações de paz com o general Ariel Sharon à frente do governo de Israel. Ele é um militar de linha dura que, sempre que teve ocasião, se opôs à paz. Como registrou o escritor israelense Nehemia Strasler, Sharon votou contra o tratado de paz com o Egito em 1979. Votou contra a retirada do sul do Líbano em 1985. Fez oposição à participação israelense na conferência de paz de Madri em 1991. Também se opôs ao acordo de Oslo, em 1993. Ele se absteve de votar a favor da paz com a Jordânia, em 1994, votou contra o acordo de Hebron em 1997 e condenou a retirada das forças israelenses do sul do Líbano em 2000.
Para os palestinos, Sharon já era especialmente sinistro mesmo antes da atual ofensiva. Comissão do próprio governo israelense concluiu que o general foi responsável indireto pelos massacres dos campos de refugiados de Sabra e Chatila, também no Líbano, em 1982. Na ocasião, Sharon nada fez para impedir que cristãos falangistas assassinassem entre 800 e 3.000 palestinos.
Israel, porém, é uma democracia parlamentarista. Uma substituição do chefe de governo se dá sem maiores traumas institucionais. É uma questão de tempo até que a frágil coalizão que ele lidera se rompa e novas eleições sejam convocadas.
Arafat, por sua vez, ou foi longe demais no jogo duplo ou perdeu o controle sobre setores significativos da sociedade palestina. Já não é o líder dos sonhos para negociar um tratado de paz pelos palestinos. Sua substituição, contudo, é um problema complexo. Até por questão de sobrevivência, Arafat nunca designou um sucessor nem permitiu que alguma liderança lhe fizesse sombra. Não existem garantias de que, na hipótese de afastamento de Arafat, os setores mais radicais não assumiriam o controle da ANP. Se as coisas já estão ruins com Arafat, tudo pode tornar-se muito pior sem ele.
O fato é que o processo de paz se degenerou a tal ponto que precisa ser reconstruído desde os seus fundamentos. A tarefa não é fácil, mas, de alguma forma, os dois lados estão condenados a ela – ainda que, nos últimos 21 meses, tenham retrocedido décadas. No calor dos acontecimentos israelenses e palestinos até podem achar que existe uma solução de força para o conflito, que alguém pode "vencer" essa guerra, mas estão enganados. Nem os palestinos vão jogar os judeus no mar nem os israelenses serão capazes de empurrar os palestinos para a Jordânia. Eles terão de viver lado a lado, e em paz, se não quiserem passar por dificuldades econômicas adicionais.
Para os céticos, vale a lembrança de que os aliados de hoje muito frequentemente foram inimigos no passado. A França lutou contra a Alemanha encarniçadas batalhas durante a Primeira Guerra Mundial e viveu os horrores da ocupação nazista na Segunda. Hoje, os dois países lideram a Europa comunitária.
A quase certeza de que israelenses e palestinos
conseguirão um dia viver em paz apenas torna mais estúpidas
e sem sentido as mortes de hoje.
Consciência.Net