EUA mudam postura e abrem espaço à paz no Oriente Médio, por Emir Sader
Depois de vetos sistemáticos no Conselho de Segurança da ONU, o governo norte-americano firmou apoio à criação de um Estado palestino. Resta saber se a nova proposta não terá as mesmas fraquezas dos Acordos de Oslo, assinados quando Yasser Arafat estava fragilizado. A análise é do colunista Emir Sader.

O fato novo é o despertar de consciência do governo norte-americano sobre sua falência como intermediador, ao deixar o governo de Ariel Sharon tentar reproduzir com os palestinos o que eles fazem com os afegãos. Arafat seria uma versão de Bin Laden para os israelenses. Também nova é a proposta norte-americana de aceitação da existência de um Estado palestino, sistematicamente vetada por Washington até aqui, valendo-se da sua posição de membro permanente do Conselho de Segurança.

De velho, o que existia nos Acordos de Oslo. Naquele momento, logo depois da Guerra do Golfo, Arafat foi pego numa situação de debilidade, pelo apoio integral que havia dado a Sadam Hussein, e teve de aceitar os termos que lhe foram colocados. Acordos que previam cessão gradual de territórios para a Autoridade Palestina, sem definir questões essenciais, que ficaram como bombas de tempo, até explodir na guerra atual. Essas questões continuam indefinidas na proposta aprovada na ONU.

E elas são questões essenciais: primeiro, a delimitação de um território soberano para o Estado palestino, o que significa a remoção de todos os assentamentos de colonos judeus, que não deixaram de se expandir desde a aprovação dos Acordos de Oslo. Segundo, a questão do retorno dos milhões de refugiados palestinos, direito reconhecido para o Estado de Israel. Por fim, há a questão do estatuto de Jerusalém. São temas controvertidos sequer mencionados na resolução da ONU.

Ao não mencionar a ocupação israelense dos territórios palestinos tratada por Koffi Annan em seu discurso se dá a impressão de que aceitação do Estado palestino inclui a existência dos assentamentos, o que faria dele um Estado fajuto, espécie de bantustões, sem soberania territorial. Daí a não adesão da Síria, que alegou que a menção à ocupação não se deve somente à fidelidade com a verdade dos fatos, mas remete ao tipo de Estado palestino que se reconhece.

Entre o velho e o novo, se pelo menos uma trégua real for obtida e os israelenses se retirarem de todos os territórios palestinos, estaria criado um clima mais favorável para as negociações. Seu complemento é que o papel de intermediador seja da ONU e não mais dos EUA, até porque quem aprovou a resolução e deveria se ocupar de sua realização prática seriam exatamente as Nações Unidas. Aí sim o novo poderia prevalecer sobre o velho e transforma-lo num quadro positivo para uma resolução justa e duradoura para o conflito.

Emir Sader

Fonte: Agência Carta Maior


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