A guerra e a cegueira, por Emir Sader
A guerra costuma produzir cegueiras. Não é outro o sentido da reiterada afirmação de que sua primeira vítima é a verdade. Sem a demonização do “inimigo”, nenhum país se sensibiliza a ponto de canalizar todos os seus recursos prioritariamente para a guerra e, principalmente, entregar seus filhos para que defendam a “pátria” em perigo iminente. Por isso a guerra produz cegueiras, sobre si e sobre os outros.

De outra forma seria impossível que pessoas que se pretendem humanistas possam justificar as ações de Israel contra o legítimo direito dos palestinos de terem um Estado – exatamente com os mesmos direitos de Israel. Muitas vezes, à falta de justificativa, se limitam a atacar os inimigos e, por tabela, justificam o terrorismo de Estado empreendido pelo governo de Ariel Sharon. De forma similar àqueles que, ancorados em erros e/ou debilidades – reais ou fictícias – da esquerda, se bandeiam pra direita, sem poder legitimar expressamente o que esta faz.

A visita de uma delegação de intelectuais de todo o mundo a Yasser Arafat gerou incômodos nos que defendem o Estado de Israel, diante da evidência constatada por quem quer que consiga contornar os tanques de ocupação israelenses e possa conhecer diretamente a guerra de extermínio movida contra os palestinos. Quando Saramago comparou o genocídio sofrido pelos judeus na Alemanha com aquele que tem sido imposto aos palestinos há três décadas e meia, pela ocupação colonial israelense, desatou-se uma campanha contra o escritor português Prêmio Nobel, na linha do que foi denunciado por Finkelstein no seu livro “A indústria do holocausto”, segundo a qual o holocausto seria apenas o que sofreram os judeus na Alemanha. A idéia é que o termo não pode ser aplicado a outros genocídios, até porque os judeus seriam um povo escolhido e, portanto, os atentados contra eles teriam um caráter singular em relação, por exemplo, aos curdos, aos albaneses, aos ciganos e aos palestinos.

Para corroborar o que disse Saramago, desatou-se um clima de intolerância contra a obra do Prêmio Nobel, com seus livros retirados das livrarias, no mesmo momento em que mais de um deles estava na lista dos mais vendidos. Este é o clima que reina hoje em Israel: a discordância de posições políticas de um escritor leva à proscrição de suas obras.

Malabarismos são necessários para justificar o injustificável, isto é, a ocupação da Palestina por parte de tropas israelenses, que gera todo tipo de reações, inclusive ações terroristas, utilizadas pelos próprios israelenses na luta pela conquista de seu Estado. A incorporação da concepção do governo Bush de “luta contra o terrorismo” leva Israel a aceitar explicitamente a utilização da tortura para o combate contra “o mal”. Quando Ariel Sharon se dá o direito de considerar a Arafat como “terrorista”, algo anda de cabeça para baixo no mundo israelense.

Os malabarismos chegam à consideração, por parte do escritor Amos Oz, de que havia “duas guerras”, uma justa, pelo direito à existência de um Estado palestino, e outra “terrorista”, que buscaria destruir o Estado de Israel mediante ações suicidas de fundamentalistas islâmicos. Infelizmente para Oz não se pode separar as coisas e existe apenas uma guerra: a dos palestinos pela expulsão das tropas israelenses de seus territórios – obstáculo essencial à fundação de um Estado palestino –, uma guerra anticolonial e anti-racista. Quem aceitar o direito dos palestinos a ter seu Estado, da mesma forma que Israel tem o seu, precisa, antes de tudo, condenar a ação invasora das tropas colonialistas de Israel, assim como seus métodos genocidas contra o povo palestino que, como bem caracterizou Saramago, atuam na lógica do extermínio de um povo.

Porém, a ideologia de guerra que levou Sharon ao poder contamina grande parte da sociedade israelense e inclusive intelectuais como Amos Oz, cegos por uma atitude que não reconhece nos palestinos o mesmo direito que reivindicam para os israelenses. O privilégio dos direitos do seu povo contra os dos outros leva à discriminação, ao racismo, à intolerância.

É assim que uma luta fundamental do humanismo nesta entrada do século XXI está na heróica resistência do povo palestino – mais além dos erros cometidos por alguns grupos em fazer atentados contra civis – à invasão de suas terras e pela existência de dois Estados que se reconheçam e se respeitem mutuamente. A existência do Estado palestino – com soberania, fronteiras delimitadas, retorno dos exilados, isto é, com os mesmos direitos do Estado de Israel – é a condição prévia de uma paz justa e duradoura no Oriente Médio. O resto é a cegueira denunciada tão bem por Saramago.

Fonte: Agência Carta Maior


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