O mundo pelo avesso: Emir Sader examina a conjuntura internacional
Agência Carta Maior

    As duas partes em guerra apostaram no “quanto pior, melhor”, ainda que com forças diferentes: a prepotência da superioridade militar de Israel e o desespero terrorista dos palestinos. Tudo está pior e nada está melhor para nenhuma das partes. Nunca a guerra esteve tão desatada e nunca todos estiveram tão vulneráveis, sem perspectivas de conseguir seus objetivos. Nunca a paz esteve tão longe.
    O fracasso das tentativas de paz no Oriente Médio – cujo epicentro é a questão palestina – é o fracasso das tentativas de intermediação dos EUA, que se arvoraram na função de negociadores. Os interesses norte-americanos, no entanto, impedem que o país possa servir de mediador. É impossível ignorar o fato de que os EUA são o sustentáculo de Israel, sem o qual este não existiria como país. Isto acontece porque Israel se tornou o aliado estratégico (e único) dos EUA na região, a ponto de que são os únicos a votar com Israel – valendo-se do seu direito de veto no Conselho de Segurança – contra o direito dos palestinos ter um Estado.
    Outro elemento da mesma conexão é a forte presença da colônia judaica e dos lobbies sionistas dentro dos EUA. Este fator está por trás do comportamento dos distintos governos no país, assim como de parlamentares e da grande imprensa, alinhados direta e estreitamente com Israel, fazendo com que os EUA nunca alcance a eqüidistância mínima para funcionar como intermediários para qualquer solução de paz no Oriente Médio.
    Ao mesmo tempo, as crescentes necessidades de petróleo fazem com que os EUA – cada dia mais longe da autosuficiência na matéria – tenham que se desdobrar ao máximo, não poupando o uso de nenhum tipo de força para manter sua presença na região. Garantir o fluxo de combustíveis para si e para os aliados – especialmente a Europa continental e o Japão – que importam todo o petróleo que consomem é uma das prioridades norte-americanas.
    Imediatamente depois de 11 de setembro, George W. Bush tornou-se o primeiro presidente norte-americano a aceitar o direito dos palestinos a ter seu próprio Estado. O objetivo desse reconhecimento era debilitar os talibãs. Quando se deu conta que os B-52s eram suficientes para fazer correr o antigo governo afegão, não tocou mais no tema e deixou que Ariel Sharon produzisse a pior e mais sangrenta ofensiva contra os palestinos.
    Os EUA não fazem parte da solução, mas dos problemas do Oriente Médio. Sem uma intermediação de um país ou uma instituição internacional que possa realmente ser neutra e presidir negociações que permitam que as duas partes gozem dos mesmos direitos – a começar pelos direitos dos palestinos a ter um Estado soberano, como os israelenses – tudo só seguirá piorando no Oriente Médio. Enquanto os EUA fingem que se empenham e os outros governos fingem que acreditam no esforço norte-americano, as duas partes seguirão contando seus mortos. E a humanidade seguirá renunciando à busca pela paz.

Fonte: Agência Carta Maior


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