“Se você sair de manhã para protestar contra a chacina que os EUA fazem contra o povo afegão, não faz muito sentido esperar que de noite o carrasco poupará os palestinos...”
Durante toda uma semana
até agora, o exército israelense tem estado aterrorizando
cidades e aldeias na Cisjordânia. Como nos dias mais negros no início
da atual Intifada, vozes e relatos desesperados "chovem" na internet falando
do bombardeio maciço, incluindo escolas, hospitais, a universidade
e a maternidade de Belém; do toque de recolher, de casas sendo tomadas
ou destruídas, reservatórios de água danificados em
campos de refugiados. Em Beit Reema, o local da mais nova demonstração
de horror de Israel, ambulâncias foram proibidas de entrar. Os residentes
locais testemunharam que os feridos foram deixados deitados durante cinco
horas antes que pudessem receber assistência médica (Ha’aretz,
25 deoutubro). O Dr. Majed Nassar, do Centro Médico de Beit Sahour,
relata na noite de quarta-feira, 24 de outubro, que "hoje paramos de contar
os mortos e feridos, visto que seu número cresce a cada hora". Os
atiradores de elite estão de volta, mirando cuidadosamente para
matar ou mutilar os palestinos pelo resto da vida. Eles não estão
fazendo mira somente naqueles que Israel escolheu para designar como "procurados".
Dos 26 mortos até
o dia 23 deoutubro, 16 eram civis, incluindo quatro mulheres, uma menina
e dois jovens com menos de 16 anos (Hass, Ha´aretz, 24 de outubro).
Na cidade de Sanour, ao sul da cidade de Jenin, a jovem Ghada, de 18 anos,
estava colhendo azeitonas com membros da sua família, quando atiradores
de elite israelenses abriram fogo contra eles. Ela foi atingida no pescoço
e morreu instantaneamente. "Ela era uma moça muito gentil e amável",
disse sua mãe. "Ela era muito útil em casa e na fazenda.
Suas irmãs e irmãos a admiravam. Ela tinha toda a vida pela
frente e eles a mataram "à sangue-frio" (Palestine Media Center,
22 de outubro). Os tanques israelenses serão forçados eventualmente
a recuarem às cercanias das cidades, mas isso não trará
Ghada de volta à vida. Nem a partida deles criará grandes
expectativas para a família palestina de Hussam Jabar, de Beit Jala.
"O exército tomou sua casa na quinta-feira, usando uma mesa de ping
pong para manter isolados na cozinha os sete membros da família
e instalando postos para metralhadoras nos quartos das crianças".
Quando o exército
começou a evacuar Beit Jala, deixando sua casa "salpicada de buracos
de bala disparadas por atiradores, e com resíduos deixados por cerca
de doze soldados israelenses", ele disse a Suzanne Goldenberg, do The Guardian,
que "o exército israelense estaria de volta em breve”. "Você
acha que faz alguma diferença se eles partiram? Eles vão
e voltam. O que a faz pensar que eles realmente partiram?", disse ele.
"Temos uma sensação íntima de que somos um povo descartável"
(TheGuardian, 24 de outubro).
De fato, esse tem sido
o padrão há um longo tempo. O exército israelense
entra nas cidades, semeia destruição e depois "sob pressão"
recua algumas centenas de metros, até a próxima invasão.
A cada vez a escala é maior. Dessa vez, Israel descreve-a como um
ato contra o terrorismo, retaliando pelo assassinato de Zeevi. "Estamos
fazendo precisamente o que os EUA estão fazendo no Afeganistão",
explicou Raanan Gissin, um porta-voz de Sharon, à CNN, na quarta-feira,
24 de outubro. A analogia com a Tchecoslováquia feita por Sharon
em 4 de outubro (‘O mundo sacrifica a Tchecoslováquia-Israel, para
agradar Arafat-Hitler’) não encontrou muita simpatia nem mesmo em
Israel. A analogia corrente que Sharon vem desenvolvendo é que Arafat
se equipara a bin Laden, ou para dar a isso alguma credibilidade extra.
Arafat e a AP (Autoridade Palestina) equivalem aos Talibãs que hospedam
bin Laden. "Sharon, aparentemente de forma proposital, fazendo eco às
observações de George W. Bush depois dos ataques terroristas
em Nova Iorque e Washington, no mês passado, disse num encontro de
emergência dos principais ministros que depois do assassinato
do ministro Rehavam Zeevi, ‘a situação é diferente
hoje, e não será mais como era ontem’." (Ha’aretz, 18 de
outubro).
As conseqüências
dessa analogia são óbvias: "fica entendido que o gabinete
de segurança de Israel mandou uma mensagem curta e grossa ao Sr.
Arafat, no sentido de que a menos que as condições exigidas
por Israel para a extradição dos assassinos e o banimento
de todas as organizações terroristas palestinas sejam atendidas
dentro de uma semana, ‘ele seria tratado do mesmo modo que os EUA tratam
os talibãs’." [The Times (Londres), 19 de outubro]. "Travaremos
uma guerra total contra os terroristas, contra aqueles que colaboram com
eles e contra aqueles que os enviaram", prometeu Sharon em seu discurso
ante a sessão especial do Knesset em memória do ministro
assassinado. "Até onde me diz respeito, a Era Arafat acabou". Possivelmente,
Sharon e seu gabinete contam com o mundo ocidental para engolir essa analogia.
Se os padrões são aqueles de que todo o povo afegão
pode ser bombardeado e deixado à míngua até morrer
como um castigo coletivo por um ato de terror, porque Israel não
haveria de seguir os mesmos padrões? De fato, durante quase uma
semana inteira, Israel pôde levar adiante sua obra de destruição
sem ser molestado. Até segunda-feira, 23 de outubro, os EUA e outros
países expressaram alguma insatisfação, porém
nada além disso.
Isso contrasta visivelmente
com a pressão internacional implacável sobre Arafat. "O Cônsul
Geral em Jerusalém Ronald Schlicher encontrou-se com Arafat e exigiu
que ele agisse com rapidez contra os responsáveis pelo assassinato.
Nações da União Européia estavam também
pressionando os palestinos para fazer detenções... O enviado
da ONU para o Oriente Médio Terje Larsen encontrou-se três
vezes com Arafat, dizendo ao líder palestino que ele tinha de ordenar
as prisões dos assassinos" (Ha´aretz, 18 de outubro), e isso
prosseguiu durante toda a semana. Por que ninguém exerceu a mesma
pressão sobre Israel, desde o começo, para não "retaliar"?
Pensando desse modo, é impensável até mesmo perguntar
por que ninguém faz pressão sobre Sharon para deter os terroristas
do exército israelense que assassinaram líderes políticos
palestinos. Mas no mínimo ele poderia ser pressionado a aguardar
a semana de prazo que deu formalmente a Arafat na decisão do gabinete.
Pode parecer misterioso
para muitos que há exatamente uma semana alimentavam esperanças
na nova "iniciativa de paz" que os EUA haviam lançado no começo
de outubro. "A idéia de um Estado palestino sempre fez parte de
uma visão", declarou Bush solenemente no dia 2 de outubro. Vazou
que os EUA haviam também preparado um plano detalhado para um acordo
de paz, o qual somente foi congelado devido aos acontecimentos de 11 de
setembro. Soubemos que um esboço de um discurso de Powell foi preparado
para o evento, o qual ele em breve encontrará a ocasião certa
para apresentar.
Só umas poucas
pessoas na mídia manifestaram o tipo de ceticismo com que foi recebido
na mídia árabe. Como notou Michael Jansem no Jordanian Time
de 5 de outubro. "A ocasião da observação de Bush
e o vazamento são importantes. Surgiram à véspera
de visitas do Secretário de Defesa dos EUA, Donald Rumsfeld, ao
Egito, Arábia Saudita e Omã. Washington está ansioso
para convencer aqueles governos a permitir o uso de seu território
para a ofensiva que está por vir contra o Afeganistão...
Mais uma vez, espera-se que os governos árabes digam sim ao programa
de ação dos EUA sem qualquer compensação real.
Assim, espera-se que uma vaga declaração de Bush e um vazamento
por parte de uma autoridade anônima sobre a existência de um
plano que não é revelado convençam os árabes
de que a administração Bush tem boas intenções".
As "iniciativas de
paz" intensificaram-se em torno da convocação de uma reunião
de emergência (9 de outubro) da Organização da Conferência
Islâmica (OCI), que inclui 56 países, cujo silêncio
ou cooperação eram importantes, no momento, para os EUA.
Nessa fase, mais detalhes foram deixados vazar para fazê-lo parecer
bem concreto, e o porta-voz de Bush, Tony Blair, entrou em cena. Blair,
que retornou a Londres de uma visita de dois dias aos Emirados Árabes
Unidos, Omã e Egito, foi bastante franco ao explicar a urgência:
"Uma coisa que está se tornando bastante clara para mim é
a necessidade de elevar o grau das operações de nossa mídia
e de nossa opinião pública nos mundos árabe e islâmico"
(TheGuardian, 12 de outubro). Essa fase de relações públicas
culminou numa conferência conjunta de imprensa de Blair e Arafat
em 15 de outubro. Não era preciso muita criatividade para promover
esse show. O script estava pronto desde os dias da guerra do Golfo. Para
recompensar o mundo árabe por sua cooperação, os EUA
organizaram a conferência de Madri que marcou a era de um eterno
"processo de paz". Desse modo, permitindo Israel de continuar a ocupação
sem ser molestado. Nessa nova rodada, entretanto, os EUA sentem-se muito
mais fortes, como o único governante do mundo, e não é
óbvio absolutamente que pretendam oferecer nem mesmo aquilo.
Aluf Bennoticia no
Ha’aretz de 18 de outubro que, "de acordo com uma notícia dos EUA",
Colin Powell inclina-se a favor de uma decisão de cancelar seus
planos de fazer um discurso sobre a política dos EUA para o Oriente
Médio. "De acordo com a notícia, os promotores de política
na administração americana sentem que não há
mais necessidade de um discurso de Powell porque o presidente George Bush
já apresentou sua visão para o Oriente Médio em declarações
feitas nas últimas semanas. Com o cancelamento do discurso de Powell,
a maioria dos passos programados pela administração para
um envolvimento maior no Oriente Médio terá sido retirado
da agenda...
Diplomatas americanos
enviaram uma mensagem a Sharon, esta semana, dizendo que “a administração
não tem planos para lançar uma iniciativa diplomática
no Oriente Médio no futuro próximo, e que quaisquer passos
serão coordenados previamente com Israel”. (Embora isso tenha aparecido
no portal do jornal Ha’aretz no dia do assassinato de Zeevi, é óbvio
que a notícia dos EUA foi preparada previamente).
Se montam ou não
um novo falso show do processo de paz, os EUA têm apoiado Israel
em todas as suas atrocidades, sempre. Nenhuma delas teria sido possível
sem a ajuda militar e o apoio político dos EUA. Quisessem os EUA
parar Israel agora, poderiam fazê-lo facilmente a qualquer momento
– apenas congelando imediatamente toda a ajuda militar, para começar.
Em vez disso, na Quarta-feira, 24 de outubro, dia em que as manchetes anunciaram
que a paciência de Bush e de Powell com Israel estava acabando, o
Senado americano aprovou mais US$ 2,76 bilhões em assistência
para Israel, mais do que qualquer outro país do mundo. Dessa soma,
US$2.04 bilhões são uma ajuda militar especial (portal do
jornal Ha’aretz, 25 de outubro). Os EUA podem frear Sharon quando ele estiver
se tornando inconveniente, mas não salvarão os palestinos
e não acabarão com a ocupação. Nenhum apelo
a Powell pode mudar isso.
É possível
compreender as esperanças que muitas boas almas alimentaram sobre
as novas promessas de paz dos EUA. O desespero pode levar as pessoas a
se agarrarem a uma mínima coisa. Mesmo assim, se você sair
pela manhã para protestar contra a matança praticada pelos
EUA contra o povo afegão, não faz muito sentido esperar que
de noite o carrasco poupará os palestinos. A esperança só
pode ser encontrada na luta. Os tempos realmente mudaram desde o começo
da Intifada palestina. Há enorme oposição às
ações dos EUA em toda a parte do mundo, incluindo o mundo
ocidental. E a despeito da constante inclinação da mídia
ocidental a favor de Israel, a oposição a Israel também
está crescendo, igualmente.
Há espaço
sobrando para luta. Faça "Parem Israel" uma parte de qualquer manifestação
ou panfleto do tipo "Parem a guerra". Aplique toda a pressão de
que for capaz sobre a mídia local para enviar correspondentes a
Israel e fazer uma cobertura real. Alguns jornais europeus já fazem
isso, mas a mídia nos EUA está muito atrasada. A presença
da imprensa não é apenas um meio de descobrir a verdade;
pode também ajudar a reprimir a brutalidade do exército israelense.
Israel ainda vê a si mesmo como uma democracia, assim, a resistência
ainda é possível. Há uma oposição pequena,
mas corajosa – incluindo pessoas que ficam diariamente nos bloqueios de
estradas para monitorar a brutalidade dos soldados israelenses, ajudam
clandestinamente os habitantes das aldeias que estão sob sítio,
ou até ficam nas áreas atacadas para servir como escudos
humanos. Há muitas maneiras de ajudar na luta deles – desde por
meio de doações até pela presença e participação
real. (Contatos podem ser encontrados na Indymedia, Israel – http://www.indymedia.org.il).
O mais importante é,
naturalmente, fazer contatos e ajudar as organizações palestinas.
Um progresso alentador nos últimos meses foi o movimento de solidariedade
internacional. Indivíduos de toda a parte do mundo vêm permanecer
nas áreas palestinas, servindo como escudos humanos e somando-se
à luta política. Ainda é possível fazer isso,
embora esteja se tornando mais difícil e perigoso. (Contatar com:
http://www.palsolidarity.org).
Finalmente, existe
uma coisa simples que qualquer pessoa pode fazer: boicotar Israel. Junte-se,
para começar, ao boicote dos consumidores que vem ocorrendo há
um certo tempo em vários lugares na Europa. É fácil
fazer isso – basta não comprar produtos ‘made in Israel’. Mas isso
é também um meio útil de educação e
atividade política. Nos dias do boicote à África do
Sul, as pessoas costumavam se infiltrar nos supermercados e colar adesivos
‘made in South Africa’ nos principais produtos. Levar "pirulitos" diante
dos supermercados, explicando porque boicotamos Israel é um bom
meio de divulgar informações. Israel não é
os EUA. É um pequeno país com quase nenhuma economia e com
uma auto-imagem completamente desvinculada da realidade. Israel pode ser
brecado.
Tanya Reinhart é escritora
e professora da Universidade de Tel Aviv, Israel.
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