José Maria Mayrink
Ex-aluno do Instituto Salesiano Internacional de Teologia de Cremisan, no subúrbio de Belém, onde morou quatro anos, o padre Jeferson Luiz Pereira da Silva sentiu um choque, na terça-feira, quando ouviu a notícia de que o padre italiano Giacomo Amateis, 62 anos, havia sido morto por soldados israelenses que ocuparam a Basílica da Natividade e seus arredores, em busca de supostos terroristas palestinos.
"Não passou de boato, desmentido no mesmo dia, mas fiquei muito abalado, porque convivi com o padre Giacomo e admiro muito o trabalho que ele faz pela construção da paz na Terra Santa", disse o padre Jeferson, atualmente professor do Instituto Teolóigico Pio XI, em São Paulo. Foi uma sensação de perda muito próxima, porque no rosto do italiano refletiu-se a imagem de dezenas de adolescentes cristãos e muçulmanos das obras mantidas pelos salesianos em Belém.
Padre Jeferson, que voltou para o Brasil em julho, está preocupado com as conseqüências da invasão israelense para o turismo religioso na cidade natal de Jesus Cristo. "O diretor de nossa casa em Cremisan, a quem telefonei na segunda-feira, me informou que o movimento é quase zero, por causa das restrições impostas pelo exército de ocupação", disse padre Jeferson, um paulistano do bairro de Santana que era confundido com egípcio e sempre se sentiu discriminado em Israel.
Não era só por causa de seu tipo físico, mas também pelo fato de trabalhar com árabes e palestinos. "Não há como a gente não ficar do lado dos mais fracos", observou o padre. Ele diz que, como morador de um bairro incluído na área de segurança militar, via como a população era vítima de perseguições e injustiças. "Os guias israelenses não permitiam nem que os turistas comprassem artigos em lojas árabes e palestinas, porque todo mundo era tratado como terrorista", lembra o padre, atribuindo ao primeiro-ministro Ariel Sharon o clima de violência que vem se agravando desde setembro. "Terroristas são os radicais dos dois lados, não todo o povo", afirma o sacerdote brasileiro.
Além do instituto de teologia para seminaristas vindos de 14 países do Oriente Médio, os salesianos têm uma igreja e uma escola técnica na região de Belém. Padre Jeferson, que se dedicou à evangelização de cristãos árabes em Israel e no Território da Autoridade Palestina, disse que muitos de seus conhecidos estão fugindo da violência na região para viver nos Estados Unidos e na América Latina.
Fonte: Agência
Estado
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