“Arabistas”
e “realistas” americanos, por Aleksandr Kulik
Ainda é prematuro comentar os
resultados da guerra total declarada pelos americanos ao terrorismo internacional.
Na política externa norte-americana, contudo, existe uma orientação
cujas atividades merecem balanço especial. Trata-se da missão
mediadora dos Estados Unidos na regularização das relações
entre os árabes e os israelitas.
Na situação
atual, o destino do povo palestino figura em primeiro plano, uma vez que
as hostilidades israelo-palestinas estão adquirindo o caráter
mais sangrento e duradouro. O Governo e a coalizão parlamentar formados
em Março do ano passado com a liderança do premier Ariel
Sharon optaram – é óbvio – pela versão militar da
regularização. Daí, cumpre constatar que a direção
israelense faz tudo para invalidar os acordos da Noruega e muitos outros
e voltar a ocupar os territórios palestinianos, controlados até
hoje pela Autoridade Palestina.
Esta tecnologia política
do Gabinete da Sharon faz que na Palestina se vão robustecendo as
forças extremistas, prestes a utilizar quaisquer métodos
na luta contra a reocupação israelense. Sem possuir os recursos
e possibilidades para uma resistência armada plena, estas forças
– chamadas convencionalmente de “islamistas” – foram pela tática
de terror mesmo em relação à população
civil de Israel. O pior cenário seria o seguinte: se a situação
continuar desenvolvendo-se pelo estratagema dos extremistas de Israel ou
da Palestina, a comunidade mundial poderá tornar-se testemunha do
maior crime contra a Humanidade – isto é, o genocídio do
Povo Palestino. O desequilibro das forças é por demais evidente:
por um lado, Israel com seu melhor exército no Oriente Médio
e, por outro, os palestinos praticamente desarmados. Nesta relação,
cabe assinalar que, por razões de índole objetiva, a responsabilidade
por tal evolução dos acontecimentos vai recair, no essencial,
sobre a administração Bush.
Importa lembrar aqui
que, a partir de 1967, os americanos assumiram o papel de medianeiro e
árbitro na regularização do conflito árabo-israelita.
E, praticamente, a partir da mesma data a administração
norte-americana se manifesta contra todas e quaisquer iniciativas – mesmo
provenientes dos seus aliados da OTAN – que possam desmonopolizar esta
sua atividade de mediador. A equipe de Bush não revelou aqui nenhuma
idéia original e já durante um ano continua na mesma. Testemunha
disso a sua oposição às propostas da União
Européia vocacionadas para resolver o problema palestino.
Os círculos
políticos israelitas – que preferem reconhecer os americanos na
qualidade de garante da segurança de Israel – também se opõem
com perseverança à intenção dos EUA de lhes
impor sua vontade na regularização da crise.
As divergências
patentes entre os EUA e Israel não escapam à atenção
dos políticos americanos e israelitas, dos centros especializados
em politologia e dos especialistas versados nos problemas do Oriente Médio.
Estas controvérsias já produziram a cisão entre os
teóricos e práticos norte-americanos, entre os chamados “arabistas“
e “realistas”. Os atentados terroristas de 11 de setembro do ano passado
nos Estados Unidos vieram a exacerbar, sobremaneira, os debates entre estas
duas alas.
No além-Atlântico
atribuem o predicado de “arabista” aos politólogos e analistas que
procuram avaliar à sua maneira a política norte-americana
no Oriente Médio e adiantar os planos seus para normalizar as contradições
entre os árabes e os israelitas tomando como ponto de partida os
fundamentos políticos, ideológicos e religiosos da convivência
humana – que, em linguagem da diplomacia norte-americana, significa “valores
democráticos gerais”. Aliás, a ala designada por “arabistas”
considera que o problema palestino constitui o foco principal da tensão
e instabilidade no Oriente Médio e que o mundo árabe está
prestes a negociar as condições da regularização
pacífica com o Estado de Israel. Em sua opinião, a condição
primordial para o efeito seria a retirada dos contingentes israelitas para
as fronteiras de 1967, com certa correção a ser concordada
mediante conversações, sempre tendo como meta final a criação
do Estado Palestino soberano. O único obstáculo neste caminho
é a intransigência de Tel-Aviv quanto à idéia
da solução justa do destino do povo palestino.
Esses “arabistas” supõem
que os interesses americanos no Oriente Médio requerem atividades
dinâmicas da diplomacia dos EUA, pois em contrário a tensão
nesta região vai aumentar e, em perspectiva, trazer ações
militares em larga escala. A tarefa fundamental de Washington consiste,
portanto, em pressionar Israel no sentido de fazer concessões maiores.
Para os “arabistas”, se a administração norte-americana se
mostra relutante a esta solução lógica é porque
se deixa demasiado à pressão do lobby pró-israelense
que no cenário político dos Estados Unidos dispõe
de imensa influência, porém em ação inversa
aos interesses nacionais dos EUA.
Os “arabistas” acentuam
que os interesses dos Estados Unidos estão concentrados no mundo
árabe, o que consequentemente manda o “distanciamento” da comunidade
hebraica, em face da situação atual. Os autores desta visão
dizem que este prisma reflete o ponto de vista geral em relação
ao conflito entre os árabes e os israelitas e às vias da
sua solução.
À primeira vista,
esta abordagem pode aparecer a desfavor de Israel. Na realidade não
é bem assim: os israelitas – querem ou não – têm que,
por predeterminação histórica, coexistir com os palestinos
no Oriente Médio. Aliás, há um provérbio que
diz “Os vizinhos não se escolhem”. Segue daí que Israel não
tem outra opção, senão viver em paz com o mundo árabe
que o circunda. E outra conclusão que segue é que o destino
de Israel é e será sempre ligado com o mundo árabe.
Consequentemente, a conciliação corresponde aos interesses
de toda a nação israelita.
Merece observar que
o posicionamento dos “arabistas” reflete de modo objetivo os interesses
dos povos de Israel e da Palestina e é apoiado pela maioria dos
países membros da ONU. Contudo, não tem nenhum apoio dos
círculos governantes dos EUA. A análise do assunto dá
margens para afirmar que os “arabistas” não tem conseguido êxitos
relevantes, porque as ações da administração
norte-americana desenvolvidas no Oriente Médio no período
dos últimos trinta anos não eram da autoria dos “arabistas”,
antes sim dos “realistas”. E entre estes últimos figura aquele segmento
da elite política americana que falando dos “valores democráticos
universais”, aconselha basear-se nas “realidades existentes no Oriente
Médio” quando se trata da formulação da política
externa norte-americana nesta região do Mundo. Conforme “realistas”
essas tais realidades assentam no seguinte: Israel é o único
veículo dos “valores democráticos” nesta região e
continua sendo o aliado mais fiel dos EUA fora do formato da OTAN. Somente
os nexos políticos e militares dos Estados Unidos e deste país
podem assegurar o acesso desimpedido dos americanos às riquezas
petrolíferas do Golfo Pérsico e controlar todo o mundo árabe,
afirmam.
Além destes
argumentos globailistas, os “realistas” reconhecem que a administração
norte-americana está atada ao ciclo de quatro anos das eleições
do Presidente e do Congresso e nestas o lobby e a comunidade judaica dos
EUA têm sua voz de peso.
Resumindo os debates
entre os “arabistas” e “realistas”, pode-se constatar que nas discussões
políticas os últimos têm sempre o pé coxo para
fundamentar suas razões, mas na realidade sempre saem vencedores
nas campanhas eleitorais.
Na equipe de Bush a
vitória da ala “realista” é também notória.
Fazem parte dela o vice-presidente Cheney, o ministro da defesa Rumsfeld,
a assessora do presidente para a segurança nacional Rice e outras
figuras influentes. Para estes protagonistas não importam muito
os “valores democráticos universais”, a regularização
da situação no Oriente Médio e outros assuntos por
estilo, antes sim as coisas relacionadas com a maratona eleitoral que promete
em novembro próximo modificar a composição da Câmara
dos Representantes e do Senado dos EUA. Também já está
em jogo a rivalidade entre os Democratas e os Republicanos nas presidenciais
de 2004. Sendo assim, os “arabistas” de tipo Colin Powell, secretário
de Estado dos EUA, se viram na minoria. Revelar-se demasiado ativo
na solução dos problemas do Oriente Médio significa
ganhar a indisposição do forte lobby pró-Israel: ainda
são frescas as recordações do fracasso de Bush pai
nas eleições presidenciais de 1992.
Todas estas considerações
permitem concluir que, dificilmente, a equipe de Bush filho será
capaz de dar solução à contraposição
atual entre Israel e a Palestina, de desanuviar a tensão nas relações
entre os lados em conflito. Essas tarefas são viáveis unicamente
com o concurso dos esforços mediadores da ONU e dos países
europeus.
Fonte: RIA “Novosti”
Consciência.Net