Desespero, ódio e cheiro de cadáveres tomam o campo de Jenin
da Reuters, em Jenin

 
O que dizer a um refugiado palestino que, empapado de suor, vasculha as ruínas de sua casa com uma pá de jardim? "Confie em Deus", foram as únicas palavras que ocorreram a um vizinho para confortar Yahya Salih, 42, nos escombros de sua casa, no campo de refugiados de Jenin, arrasado pelas tropas israelenses.

"Minha casa está aqui embaixo", conta Salih. "Ali era o nosso dormitório", diz ele, apontando para um pedaço de espuma, o canto do colchão que ficou de fora das ruínas. "Quero achar pelo menos nossos documentos de identidade e as jóias da minha mulher. Minhas crianças precisam das suas roupas", conta Salih. Seu filho Ahmed, de cinco anos, se aproxima e beija a barba empoeirada do pai.

Não longe dali, Mohammad Badi, 13, encontrou um cinturão verde com bolsos, provavelmente deixado pelos militares israelenses. Badi o veste e sai carregando uma funda [arma de arremesso de projéteis]. "Quero fazer um atentado suicida contra os judeus", conta ele.

Badi ajuda a provar uma tese defendida pelo enviado da ONU (Organização das Nações Unidas) à região, Terje Roed-Larsen, para quem a invasão israelense a Jenin vai acirrar os ânimos palestinos, em vez de destruir a "infra-estrutura terrorista" que Israel dizia existir ali – metade dos militantes suicidas que agiram nos últimos meses saiu de Jenin.

Em quase duas semanas de invasão, o episódio mais violento do atual conflito deixou um número ainda desconhecido de mortos e desabrigados. A praça central do campo, que existe há 49 anos, não tem mais os apertados prédios de concreto. Foram todos demolidos "para enterrar armadilhas explosivas ou matar os terroristas que se recusam a render-se", segundo os militares israelenses.

Nos quarteirões próximos, dezenas de casas estão inabitáveis, por causa dos bombardeios com tanques e helicópteros. A parte alta do campo parece ter sido poupada dos combates. Segundo testemunhas palestinas, os tanques de Israel chegaram a ocupar uma mesquita e deixaram para trás caixas de munição com inscrições em hebraico.

Israel, que perdeu 23 soldados nos combates, diz que matou 70 palestinos em Jenin, a maioria deles militantes islâmicos. A Autoridade Palestina disse que houve um massacre, que resultou na morte de centenas de civis. A controvérsia só será resolvida quando o entulho for removido e todos os corpos recuperados.

Capítulo lamentável

O enviado Roed-Larsen visitou o campo e considerou o ataque "um capítulo lamentável" na história de Israel. Ele acusou o Exército de usar "meios moralmente repugnantes". O coronel Didi Yedidya, que comandou parte da operação, respondeu, pela Rádio Israel, que "as escavadeiras D-9 eram a ferramenta moral a ser usada", por sua capacidade de superar ruas e casas minadas. "Talvez qualquer outro Exército teria jogado duas ou três toneladas de bombas ou usado artilharia de 155 mm, causando muito mais destruição e mortes de civis. Se me pedissem para fazer isso, eu diria "não, obrigado", porque tenho de olhar meus filhos nos olhos.

De volta à praça, que agora se transformou em uma montanha de entulho com buracos do tamanho de campos de futebol, pouco se conversa entre os palestinos, além do básico. "Pegue os cobertores", gritava um homem para sua mulher, que tremia no andar de cima de sua casa, que se mantém precariamente de pé. Quando resgatam partes decompostas de cadáveres, os refugiados pulverizam o ar com perfume, para torná-lo mais respirável. Em um canto, esquecidas, estão algumas fotos de família. No quintal do hospital, cerca de 36 corpos já estão em uma vala comum, à qual se chega atravessando um corredor com cartazes de educação social com a frase "Família Feliz".

Outros corpos ainda aguardam sepultura. Um grupo de refugiados prega placas de madeira para formar um caixão improvisado, dentro do qual já se vê um corpo. O caixão é colocado em seguida num carro com placas palestinas, mas que tem no vidro traseiro um adesivo em hebraico: “Sim à paz. Não à violência”.

Fonte: Folha de São Paulo


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