9 de abril de 2003
General que comandará o Iraque é duro crítico dos palestinos
Assim como crítico dos palestinos, Jay Garner é muito amigo de Israel

O general da reserva do Exército dos Estados Unidos que irá supervisionar a reconstrução do Iraque certa vez assinou um documento que acusa os palestinos de instigar o ódio em suas crianças e que elogiava Israel - comentários que podem complicar seu novo trabalho no volátil Golfo Pérsico.

Líderes árabes e muçulmanos afirmam que o envolvimento do tenente general Jay Garner com o Instituto Judaico para Assuntos de Segurança Nacional (JINSA, por suas iniciais em inglês) - inclusive o documento que ele assinou e uma viagem que fez a Israel - levanta dúvidas sobre se ele é a pessoa certa para comandar a reconstrução iraquiana.

Jay Garner foi indicado pelo secretário da Defesa, Donald Rumsfeld, para ser o representante dos Estados Unidos no período de reconstrução do Iraque após a guerra - na prática, o governante do país. A indicação foi aceita pelo presidente George W. Bush.

Horrorizado
"Honestamente, penso que quando os iraquianos descobrirem (sobre o documento) eles vão ficar verdadeiramente horrorizados", opinou Hussein Ibish, um porta-voz do Comitê Antidiscriminação Árabe-Americano. Garner foi um dos mais de 40 líderes militares da reserva dos EUA que assinaram uma carta há mais de dois anos em meio à renovada violência no Oriente Médio. A carta apóia decididamente Israel por exercer "destacada contenção" e acusa os líderes palestinos pela crise. Uma tática dos palestinos de "usar civis como soldados numa guerra é uma perversão da ética militar", acusa o documento.

Líderes palestinos ensinaram crianças sobre a mecânica da guerra enquanto "enchem suas cabeças com ódio" e a polícia e os comandantes militares palestinos estavam "apostando a vida de suas crianças nas capacidades e contenções" das forças de defesa de Israel, acrescentou. Os palestinos estão "insensivelmente usando as inevitáveis baixas como um grão em seu moinho de propaganda", denunciou. 

Veterano do Vietnã
Garner, que 12 anos atrás supervisionou os esforços dos EUA de ajuda aos curdos no norte do Iraque após a primeira Guerra do Golfo, foi um dos mais de 250 oficiais militares norte-americanos da reserva que viajaram a Israel nos últimos anos a convite do JINSA. Garner, de 64 anos, serviu por duas vezes na Guerra do Vietnã e foi o general chefe do Comando de Defesa Espacial e Estratégica do Exército, antes de passar para a reserva em 1997.

O JINSA, que existe há três décadas, tem como objetivo educar o público sobre a política de defesa norte-americana e oficiais sobre a importância de Israel, afirma o documento. Sendo assim, "a viagem de Garner ao Estado judeu não deveria causar constrangimento em seu trabalho". "Um destacado general passa 31 anos de sua vida no Exército e porque passa 10 dias de sua vida em Israel, eles questionam sua capacidade de servir ao presidente (dos EUA) no Iraque", opinou o porta-voz do JINSA, Jim Colbert.

Fortes objeções
Alguns críticos árabes antevêem que a escolha de Garner para o trabalho de reconstrução do Iraque enfrentará fortes objeções no Oriente Médio. "Bem mais de 2 mil palestinos foram mortos nos últimos dois anos e meio e os iraquianos sabem quem os matou", considerou o professor Rashid Khalidi, da Universidade de Chicago, um especialista em história do Oriente Médio.

Sarah Eltantawi, porta-voz do Conselho Muçulmano para Assuntos Públicos, considerou a escolha de Garner "muito insensata, pois ela não irá reforçar entre os iraquianos o sentimento de que sua liderança é representativa". Garner irá provavelmente responder às críticas quando começar a dar entrevistas coletivas no Kuwait, onde ocorrem os preparativos de suas operações, adiantou o porta-voz capitão Nathan Jones.

Desafio
Richard Murphy, subsecretário de Estado para o Oriente Próximo na administração do ex-presidente Ronald Reagan, admitiu: "Infelizmente, a impressão no Iraque e na região é a de que estamos no Iraque para nos apropriar de seu petróleo e forçá-lo a assinar um acordo de paz com Israel". Essa conjectura é "um desafio para todas as pessoas enviadas para lá", inclusive Garner, afirmou.

No fim, os iraquianos irão julgar Garner por seu trabalho, não por um documento que ele assinou mais de dois anos atrás, considerou Murphy. O documento pedia aos Estados Unidos para continuarem sendo "um amigo de Israel" em vista do levante palestino ao mesmo tempo em que permanecessem como facilitador nos esforços para trazer a paz para a região.

"A violência iniciada pelos palestinos em Israel nos mostra fortemente agora que a necessária boa fé está tristemente faltando no lado palestino", conclui o documento.

Pete Yost, AP


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