Há sete meses, George W. Bush colocou o mundo contra a parede. Desta vez, os aliados cobram ação dos EUA no confronto entre israelenses e palestinos
Em setembro, atacadas Nova York e Washington, George Bush Júnior lançou um repto ao restante do planeta Terra: "Ou estão conosco ou estão com os terroristas". Pior: assim se fez, ou se tentou fazer. Natural, por conseqüência, que agora, quando assume contornos de uma guerra que pode se alastrar pela região o conflito entre Israel e palestinos, se busque as responsabilidades dos Estados Unidos no processo. E do presidente Bush. Pressionado por várias lideranças internacionais, o presidente Júnior saiu de trás das cortinas na quinta-feira 4, depois de quase duas semanas de vacilações.
Em um discurso nos jardins da Casa Branca, em Washington, Bush filho afirmou que irá exercer a "autoridade moral" americana. Sobre os conflitos, disparou: "Basta! As tempestades de violência não podem continuar". O presidente dos Estados Unidos pediu o fim das incursões militares de Israel, que já invadiu nove cidades desde 29 de março. Ao líder palestino Yasser Arafat solicitou ajuda "no envio de uma clara e inequívoca mensagem aos terroristas: o suicídio não ajuda a causa palestina. Ao contrário, missões suicidas poderiam 'explodir' a esperança de um Estado palestino".
Por enquanto, o discurso não funcionou. No mesmo dia, Sharon disse que, apesar do apelo de Bush, a operação militar iria continuar. A "autoridade moral" dos Estados Unidos será exercida, in loco, pelo secretário de Estado, Colin Powell. Bush havia enviado o coronel reformado Anthony Zinni para mediar o diálogo de cessar-fogo. Israel, no entanto, recusou um pedido de encontro de Zinni com Arafat (voltou atrás depois do discurso de Bush) e expôs a falta de estofo do militar aposentado para conduzir o processo de paz. Na noite da mesma quinta, o Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU) endossou, por unanimidade, o envio de uma missão ao Oriente Médio chefiada por Powell.
O discurso de Bush e a visita de Powell são uma tentativa de aplacar as críticas crescentes à omissão americana em todo o episódio. Até a quinta-feira, apesar da escalada da violência nos territórios ocupados, os EUA haviam se limitado a emitir sinais contraditórios. Ao mesmo tempo que apoiavam uma moção da ONU, condenando os ataques israelenses, Bush afirmava compreender as invasões como uma forma de o governo proteger os cidadãos de Israel. "Os americanos se consideram o catalisador, os únicos conciliadores do processo de paz", diz Naseer Aruri, diretor do Trans-Arab Research Institute, em Boston, e militante ativo da Anistia Internacional. "Mas os EUA não podem ser o catalisador e, ao mesmo tempo, o principal apoio diplomático e financeiro, além de o principal fornecedor de armas, a Israel. Simplesmente não é consistente", acrescenta.
O terrorismo, que tanta dor infligiu aos EUA desde setembro, e contra o qual Bush lançou sua guerra santa, é justamente o pretexto de que o primeiro-ministro israelense, Ariel Sharon, lançou mão para convencer os americanos de que não há negociação possível com a Autoridade Palestina de Arafat. "Bush é um homem que vê o mundo como um terreno ruim, ele acredita que o planeta precisa ser liderado por uma mão forte e, por isso, nos apresenta sua guerra ao terrorismo, sua concepção do eixo do mal", diz Aruri.
Por trás da violência dos últimos 18 meses, no entanto, há uma história de diferenças políticas, lembra Jerome Segal, pesquisador do Center for International and Security Studies, da Universidade de Maryland, e fundador do The Jewish Peace Lobby, uma organização pela paz no Oriente Médio sediada em Washington. A estratégia de Sharon, diz ele, é fugir de negociações políticas e buscar uma liderança palestina alternativa, na esperança de que, com o tempo, os palestinos aceitem a submissão a Israel. Já os palestinos, diante da recusa de Sharon em negociar, não vêem outra saída para o conflito que não seja a violência.
Segal defende que a única maneira de silenciar as metralhadoras e tratar dos problemas políticos do Oriente Médio é a imposição de uma solução vinda de fora. Nesse caso, os EUA teriam papel-chave em mobilizar as demais potências mundiais e impor direitos e deveres a ambas as partes. A autoridade máxima na determinação da soberania de cada território e na demarcação de fronteiras, porém, seria o Conselho de Segurança da ONU, e não o governo Bush.
Aruri concorda que o Conselho de Segurança da ONU é um fórum no qual uma solução para a questão palestina poderia ser forjada. Ele argumenta, no entanto, que muito provavelmente os EUA usariam seu poder de veto para impedir qualquer ação internacional. "O que temos hoje são os EUA como único suporte a Israel, apoiando políticas que na realidade não estão muito distantes do que a Alemanha fez durante a Segunda Guerra Mundial", dispara Aruri. "Colocar franco-atiradores nos telhados das casas para mirar em crianças e velhos nas ruas é algo que não se viu nem mesmo na Bósnia, mas acontece neste momento, com cobertura das tevês".
Diante da baixa probabilidade de que o resto do mundo atue sem a direção americana, Aruri e Segal concordam que há a possibilidade de que o conflito árabe-israelense se transforme em uma guerra de proporções maiores. "A situação pode ficar muito ruim, beirando uma guerra regional ou mesmo uma guerra de civilizações, envolvendo o mundo islâmico como um todo", diz Segal. "Isso provavelmente vai assustar os EUA e convencê-los de que, se nada for feito, os interesses americanos serão ameaçados de maneira profunda e permanente”. Será que o discurso de quinta-feira indica que, no caso de Bush, a ficha finalmente caiu?
Fonte: Carta
Capital
Consciência.Net