Ofensiva de Israel deixa ONU "horrorizada"
do enviado especial a Jerusalém

O secretário-geral das Nações Unidas, Koffi Anann, disse ontem que está "horrorizado" com a situação criada pela ofensiva israelense sobre os territórios palestinos, que está "causando enorme sofrimento a civis inocentes, colhidos no meio das hostilidades". É a mais recente e mais forte indicação de que a suspeita de que Israel esteja cometendo excessos nos seus ataques está se consolidando internacionalmente.

É natural, a partir dos fatos relatados pela própria mídia israelense. Caso de Amira Haas, a correspondente do jornal israelense "Haaretz" em Ramallah, 16 km ao norte de Jerusalém, que relata: "Em certo momento, os prisioneiros [palestinos] foram fotografados com o nome escrito em hebraico no peito". Não foi com certeza o pior que ocorreu aos palestinos nos 13 dias que já dura a ofensiva israelense contra seus territórios, mas é um detalhe com simbolismo suficiente para suscitar uma reação internacional majoritariamente desfavorável a Israel.

Ainda mais que, a cada dia, surgem mais e mais evidências de que os soldados de Israel comportaram-se de maneira abusiva e que a destruição de infra-estrutura nos territórios palestinos reocupados foi igualmente excessiva.

Denúncias

Mesmo a mídia local, que está se comportando com a mais extrema cautela, começa a noticiar fatos que dão razão a pelo menos algumas das denúncias feitas pelos palestinos. O jornal "The Jerusalem Post", extremamente conservador e de posição editorial belicista, publica relato de um soldado não identificado segundo o qual, "apesar das ordens, alguns dos soldados roubaram coisas das pessoas, incluindo telefones celulares".

Outro soldado, também não identificado e sempre de acordo com o "Post", contou que participou da invasão e das buscas em cerca de 150 casas. Seu relato: "Crianças choravam o tempo todo, e suas mães também estavam lacrimejando. Mas nós nos sentíamos grandes, porque essas são as pessoas que estão nos atacando. Deixamos nossos sentimentos em casa".

Acusações mais graves ainda, no entanto, carecem de verificação independente. Saeb Erekat, principal negociador palestino, disse ontem que as forças de Israel já mataram 500 pessoas em sua ofensiva. Ele não informou qual é a base de sua estimativa. Nesta semana, Israel informou que pelo menos 200 palestinos foram mortos.

Ahmed Sobeh, diretor-geral do Ministério palestino para a Cooperação Internacional, acusa Israel de ter dinamitado casas com pessoas dentro e de estar sepultando em valas comuns os mortos de Jenin, a cidade na qual ocorreram os combates mais violentos do atual conflito, para "ocultar o massacre".

Mas o brasileiro Celso Garbasz, diretor do Bteselem, o mais respeitado grupo de direitos humanos de Israel, diz que, quando Israel demole casas, é habitual que os palestinos façam a denúncia acompanhada do nome da família que a ocupava ou de parentes. Desta vez, não é o que está acontecendo, "o que só demonstra que não dá para ter certeza de nada", diz Garbasz, veterano militante pacifista.

Reforça sua companheira de Bteselem, Jessica Mandell: "Há alegações muito, muito graves, mas que não podem ser apuradas", porque ninguém tem acesso às cidades palestinas reocupadas. Israel insiste, dias após dia, em dizer que suas forças estão mantendo "o mais alto padrão ético". Refuta, porém, David Newman, presidente do Departamento de Política e Governo da Universidade Ben Gurion: "Não há uma coisa chamada guerra limpa".

Nesta guerra em particular, Newman diz que "a triste verdade é que as informações sobre abusos são tantas que é difícil acreditar que algumas delas não sejam verdadeiras". Garbasz acrescenta quais as que já se pode antecipar que são, de fato, verdadeiras: "Há populações inteiras sem água e sem devido atendimento médico".

É natural, nessas circunstâncias, que o Ministério das Relações Exteriores de Israel esteja preocupado com o que o mundo verá quando as câmeras de TV conseguirem finalmente trabalhar livremente nos locais invadidos. O colunista Herb Keinon, também do "Jerusalem Post", relata o que, nos pesadelos do ministério, será encontrado: "As cenas a serem provavelmente exibidas serão horrendas: casas derrubadas, infra-estrutura destruída, corpos de mortos, muitos corpos. E, apesar de que muitos terão sido mortos em combate, suas armas não serão vistas. Os rifles terão sido retirados. Os corpos parecerão inocentes; o local será como um killing field".

"Killing Field" é o título de livro, posteriormente transformado em filme, sobre o massacre promovido pelo regime comunista de Pol Pot no Camboja, um dos grandes símbolos de genocídio na recente história da humanidade.

CLÓVIS ROSSI

Fonte: Folha de São Paulo


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