A credibilidade da política americana para o conflito foi quebrada, por Robert Fisk
Por que Colin Powell não vai a Jenin? O que aconteceu com o limite moral do mundo, na verdade dos Estados Unidos, quando o mais famoso ex-general da América, o secretário de estado do país mais poderoso do mundo, em uma suposta missão desesperada para acabar com o banho de sangue no Oriente Médio, não consegue compreender o que está acontecendo debaixo de seu nariz? O mau cheiro dos cadáveres caídos espalha-se para fora da cidade palestina. O exército israelense ainda impede que a Cruz Vermelha e os jornalistas vejam as provas da chacina que ocorreu ali. "Centenas", admite Israel, morreram, inclusive civis. Por que, por Deus, Powell não pode fazer a coisa decente e exigir uma explicação para as coisas extraordinárias, sinistras, que aconteceram em Jenin?

Ao invés disso, depois de algumas gracinhas com Ariel Sharon após sua chegada em Jerusalém, na sexta-feira, Powell joga, exigindo que Iasser Arafat condene o sangrento ataque suicida da sexta-feira em Jerusalém (com um total de 6 mortos e 65 feridos), enquanto não consegue proferir mais do que uma palavra de "preocupação" pela quantidade infinitamente mais terrível de mortos em Jenin. Powel tem medo dos israelenses? Ele precisa realmente se rebaixar a este ponto? Ele acha que encontrar-se com Arafat, ou se recusar a fazê-lo, abre precedente na imensa tragédia humanitária e no morticínio que se abateram sobre os palestinos? Será que o presidente Bush, cuja exigência de que Ariel Sharon retire seus soldados da Cisjordânia foi tão suavemente ignorada, é tão covarde, tão cínico, a ponto de permitir que esta charada continue? Porque isto é um jogo sem fim, a verdadeira prova final de que os Estados Unidos não são dignos, do ponto de vista moral, de negociar a paz no Oriente Médio.

Mesmo para alguém que já testemunhou tanta duplicidade no Oriente Médio, é um choque que se reflete nos acontecimentos dos últimos nove dias. Recapitulemos, como dizem os americanos, "os fatos". Há quase duas semanas atrás, o Conselho de Segurança da ONU, com a participação e apoio ativo dos Estados Unidos, exigiu um fim imediato da reocupação da Cisjordânia e Faixa de Gaza por Israel. O presidente Bush insistiu que Sharon devia seguir o conselho "dos amigos americanos de Israel" e, por que o nosso Tony Blair estava com o presidente naquela hora, "dos amigos britânicos de Israel", e se retirar. "Quando eu digo retirar, quero dizer retirar", repetiu três dias mais tarde. Mas, óbvio, agora está claro que ele não quis dizer nada daquilo.

Ao invés disso, ele mandou Powell em sua "urgente" missão de paz, numa viagem a Israel e a Cisjordânia que levaria incríveis 8 dias, tempo suficiente, talvez tenha pensado Bush, para permitir que seu "bom amigo" Sharon acabasse com a sua última aventura sangrenta na Cisjordânia. Supostamente sem saber que o chefe do Estado Maior de Israel, Shaul Mofaz, tinha dito a Sharon que necessitava de pelo menos oito semanas para "terminar o serviço" de esmagar os palestinos, Powell vagou pelo Mediterrâneo, perdendo tempo no Marrocos, na Espanha, no Egito e na Jordânia antes de, finalmente, chegar a Israel na sexta-feira de manhã.

Se os bombeiros de Washington levassem esse tempo todo para atender a uma chamada de incêndio, a capital americana de há muito estaria transformada em cinzas. Mas, é claro, o objetivo da preguiça de Powell foi dar tempo suficiente para que Jenin se transformasse em cinzas. Missão que, imagino, foi cumprida.

Ontem, enquanto a soldadesca indisciplinada de Israel continuava a esconder seus atos do mundo exterior, impedindo que a Cruz Vermelha, as equipes de ajuda, as ambulâncias e os jornalistas entrassem nos escombros de Jenin, Powell estava refestelado em Israel, pedindo "moderação maior" de um exército que ainda não acabou de encher as covas coletivas de Jenin.

Que ele veja a visita ao grotesco, corrupto e velho Iasser Arafat como ponto pacífico para a "paz", isto apenas demonstra como a moralidade de Powell ficou elástica. Os conselheiros de Arafat (não vamos dar qualquer crédito ao possível "presidente-mártir" da Autoridade Palestina por isto) astutamente anunciaram que é Powell quem deve condenar as mortes de Jenin, para então esperar-se que Arafat condene os ataques suicidas brutais de Jerusalém, na sexta-feira. E, muito embora Arafat tenha declamado palavras importantes de contrição e condenação ontem à noite, isto não faz muita diferença.

Durante toda a semana que passou, enquanto os soldados de Sharon corriam como loucos de um lado para outro em Jenin, o porta-voz da Casa Branca desempenhava o papel de ponta de lança de Sharon em Washington. Quando Israel anunciou que seu exército estava saindo de três insignificantes aldeias da Cisjordânia, tão insignificantes que ninguém jamais ouviu falar delas antes, o sr. Fleischer anunciava que este era "um passo na direção correta". Em seguida, na sexta-feira de manhã, quando até o mais estúpido observador percebeu que alguma coisa terrivelmente de errado estava acontecendo em Jenin, o sr. Fleischer nos dizia que Sharon era "um homem de paz". Até quando este absurdo continua?

As Brigadas de Al Aqsa, ou o Hamas, ou o Jihad Islâmico, claramente pretendem garantir que a implacável operação de Sharon fracasse (a reocupação israelense, afinal de contas, era para impedir estes estranhos crimes palestinos) e que Powell pareça impotente. Eles dão a impressão de que conseguirão seus objetivos. A Autoridade Palestina, para todos os efeitos, por enquanto deixou de existir. Esta era uma das intenções de Sharon. E a fraqueza de Powell, sua covardia, sua falta de nervos, provavelmente darão início agora a uma guerra israelo-palestina ainda mais terrível do que já presenciamos até aqui.

Mas, façamos uma pausa para uma breve viagem aos escaninhos da memória, mais precisamente a setembro de 1982, quando Ariel Sharon estava "erradicando a rede de terror" nos campos de refugiados de Sabra e Shatila, em Beirute. Antes de enviar as milícias falangistas assassinas, aliadas de Israel, Ariel Sharon disse ao mundo que os palestinos tinham matado o líder falangista, Bashir Gemayel. E era mentira, mas a Falange acreditou nele. E agora surgem evidências em Beirute de que, bem depois de os americanos terem pedido que Israel retirasse os matadores dos campos, o exército israelense, comandado pelo então ministro da Defesa, Sharon, entregou mais de 1.000 sobreviventes aos mesmos assassinos para serem massacrados nas duas semanas seguintes. É por isto que Sharon se preocupa tanto com as tentativas de indiciá-lo por crimes de guerra no tribunal de Bruxelas.

Será que Powell não deu uma espiada nos arquivos do Departamento de Estado, referentes ao ano de 1982? Não leu o que Sharon disse na época, a mesma arenga de "redes de terror" e "erradicar o terror" que ele emprega hoje? Será que Powell se esqueceu de que a Comissão israelense Kahan considerou Sharon "pessoalmente responsável" pelo massacre daqueles 1.700 civis? Powell realmente acha que Jenin, ainda que em escala menor, seja muito diferente? Ainda que nós rejeitássemos todas as alegações palestinas de carnificina de civis, execuções ao arrepio da lei e destruição em massa de casas, por Deus, o que ele acha que os israelenses estão escondendo em Jenin? Por que ele não vai lá e olha?

Sim, a campanha suicida dos palestinos é imoral, insuportável, imperdoável. Chegará o dia em que os árabes ainda olharão no espelho para os seus próprios crimes e terão que reconhecer a crueldade absoluta de seus métodos. Até agora eles não fizeram isto. Mas, não é de espantar, uma vez que os israelenses nunca tentaram se defrontar com a imoralidade da morte de crianças com estilingues nos primeiros dias da intifada ou com a perversidade de seus impiedosos esquadrões da morte que saíam vasculhando os arredores à cata dos palestinos constantes de uma lista de procurados, além de pegar mulheres e crianças que se atravessem no caminho.

Nos anais da guerra, o conflito do Oriente Médio atingiu um novo patamar, mas a história do envolvimento dos Estados Unidos na região nunca mais será o mesmo. Graças a Colin Powell, ao presidente Bush e a Ariel Sharon, a credibilidade americana foi quebrada. Israel, de fato, é o administrador da política americana no Oriente Médio. O secretário de Estado toca pela partitura israelense. Por tanto, quando, oh! quando, os europeus se encherão de coragem e assumirão o lugar de pacificadores do Oriente Médio?

Robert Fisk
The Independent
14/04/02


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