O fato de os americanos aplainarem o caminho, afirmando que a necessidade de Arafat reformar sua autoridade é mais importante do que suspender a construção de assentamentos – a insensata contribuição de Condoleeza Rice, a Conselheira de Segurança Nacional, para este debate estéril – apenas mostra a falta de tato da administração Bush.
As tentativas desesperadas de Sharon para sufocar uma brutal guerra anticolonial foram acompanhadas de todas as armas psicológicas de costume: tentativas desonestas de rotular qualquer crítica a Israel como anti-semitismo, afirmações falsas de que o exército israelense se comporta com moderação, demonstrações em massa e tentativas continuadas de pintar os palestinos como bestas, animais suicidas.
O próprio Sharon agora acusa não só Arafat e seus partidários corruptos pelos perversos ataques suicidas a civis israelenses, mas também os palestinos como povo. No mês passado, no Knesset, ele se referiu à "insanidade assassina que tomou conta de nossos vizinhos palestinos". Se os palestinos, como povo, agora estão possuídos de "insanidade assassina", Sharon não fará a paz com eles.
E se os palestinos têm que continuar olhando para os acampamentos judaicos em volta deles, em sua terra, eles também não vão fazer a paz com Israel. E, diferente da canção, do mito e da lenda, o comportamento do exército israelense está mais para milícia do que uma força militar disciplinada. Os relatos de saques pelos soldados israelenses em Ramallah, principalmente de jóias e dinheiro, assumiu proporções épicas. Israel pode alegar publicamente que isto é propaganda palestina, mas o alto comando do exército israelense sabe que as histórias são verdadeiras – um oficial se referiu a isto como um vandalismo em grande escala, um fenômeno feio".
Para quem duvidar disto que leia o relato chocante de Amira Haas para o diário israelense Ha'aretz, no início desta semana, onde ela cataloga a orgia de um mês de destruição promovida no Ministério da Cultura palestino, em Ramallah, pelo exército israelense. Os soldados baseados lá destruíram e roubaram computadores, móveis, conjuntos de televisão, desenhos feitos pelas crianças e deixaram a maior parte do prédio – inclusive as gavetas – sujo com fezes e urina.
Uma questão tem que ser feita: este exército é mais capaz de defender Israel do que os palestinos são capazes de se defenderem? Um seminário realizado no instituto Steinmetz Peace Research, em Tel Aviv, apresentou alguns dados fascinantes no mês passado. Segundo o instituto, mais de 40% da população judaica disseram que estavam preparados para ter uma intervenção internacional no conflito. Mais impressionante ainda, 35% dos entrevistados disseram que a intervenção poderia envolver soldados estrangeiros que separariam fisicamente Israel e a Autoridade Palestina.
Em outras palavras, muitos israelenses permitiriam exércitos estrangeiros para protegê-los dos homens bomba. E os palestinos, por certo, ficariam mais do que felizes de ter exércitos estrangeiros em seu território; eles vêm pedindo por isto há décadas. Sharon ou qualquer sucessor do Likud se oporiam.
Mas é a sua política insana de construção de assentamentos que ocasionou tal infelicidade para os israelenses. Porque uma fronteira verdadeira separando "Palestina" do estado soberano de Israel garantiria uma segurança maior para os israelenses. Mas Sharon não pode erigir esta cerca porque separaria Israel dos assentamentos ilegais que vêm sendo construídos há 35 anos em terras palestinas.
Fora do Oriente Médio, no entanto, existe uma impaciência crescente com esta guerra desgraçada. Os europeus estão ficando cansados deste conflito cínico e cruel, cansados de serem chamados de anti-semitas quando criticam a ocupação de Israel, e igualmente cansados da corrupção e nepotismo de Arafat e de sua inabilidade de impedir que suicidas matem crianças. Não importa quantas manifestações a favor – ou o quanto possa ser tolo o apoio vindo de pessoas como Iain Duncan Smith – os israelenses têm bastante consciência de como ficaram isolados.
E, apesar da gritaria dos críticos pró-israelenses nos Estados Unidos e do poderoso lobby de Israel no Congresso, os americanos estão furiosos com a política impiedosa no Oriente Médio, promovida por seu próprio governo. Uma guerra que afeta os preços do petróleo e a economia mundial, que transforma muçulmanos em inimigos da Europa e os ocidentais em inimigos do Islam, que envolve ocupação e governo coloniais, não se pode permitir que continue indefinidamente.
Portanto, farei uma predição temerária e terrível. Depois da Bósnia e Kosovo e Timor Leste, ficamos cansados das guerras regionais. E acho que encerraremos com a guerra do Oriente Médio. Com o apoio da Rússia e ONU, haverá, afinal, soldados americanos e da OTAN em Jerusalém. Haverá uma força de proteção ocidental na Cisjordânia e Gaza – e em Israel. Os exércitos israelense e palestino terão que voltar para as barracas. Jerusalém será uma cidade internacional. Os palestinos terão segurança. Assim também os israelenses.
Sim, é uma forma de colonialismo internacional. Sim, significa ocupação estrangeira para ambos os lados. Mas porá um fim nesta guerra suja.
Publicado no The Independent em 08/05/02
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