Robert Fisk
Do The Independent, no
Paquistão
Eles começaram
por nos cumprimentar com apertos de mão. Dissemos "salaam aleikum"
(a paz esteja com vocês), e então as primeiras pedrinhas pequenas
voaram. Um menino tentou agarrar minha bolsa. Depois outro. Então
alguém me deu um soco nas costas. Rapazes quebraram meus óculos
e começaram a me bater no rosto e na cabeça com pedras. Eu
não conseguia enxergar por causa do sangue que jorrava de minha
testa e inundava meus olhos. Mas, mesmo naquela hora, entendi. Eu não
podia culpá-los pelo que estavam fazendo. Na verdade, se eu fosse
um dos refugiados afegãos de Kila Abdullah, perto da fronteira entre
Afeganistão e Paquistão, eu teria feito a mesma coisa com
Robert Fisk – ou com qualquer outro ocidental que encontrasse. Para que,
então, registrar os minutos de terror e repúdio que passei
ao ser agredido perto da fronteira afegã, sangrando e chorando como
um bicho, quando centenas – sejamos francos e digamos logo que são
milhares – de civis inocentes estão morrendo nos ataques aéreos
americanos ao Afeganistão, quando a chamada "guerra da civilização"
está queimando e mutilando os pashtus de Candahar, tudo isso para
o "bem" triunfar sobre o "mal"?
Alguns dos afegãos
no pequeno povoado de Kila Abdullah viviam lá havia anos. Outros,
desesperados, furiosos e em luto por seus entes queridos massacrados, tinham
chegado ao longo das duas semanas anteriores. Era um mau lugar para nosso
carro sofrer uma pane. E era uma má hora, logo no final do jejum
diário do Ramadã. Mas o que aconteceu conosco foi simbólico
do ódio, da fúria e da hipocrisia dessa guerra imunda: um
bando de homens afegãos miseráveis, jovens e velhos, que
viram estrangeiros – ou seja, inimigos – em seu meio e tentaram destruir
pelo menos um deles. Deve ter sido por volta das 16h30 que chegamos a Kila
Abdullah, a meio caminho entre a cidade paquistanesa de Quetta e a cidade
de Chaman, na fronteira com o Paquistão. Éramos Amanullah,
nosso motorista, Fayyaz Ahmed, nosso tradutor, Justin Huggler, do "The
Independent", que acabava de cobrir o massacre de Mazar-e-Sharif, e eu.
Percebemos que alguma coisa estava dando errado quando o carro parou no
meio da rua estreita e repleta de gente. Saímos do carro e o empurramos
para a beira da rua. Amanullah se afastou em busca de outro carro, e Justin
e eu sorrimos para a multidão, de início amistosa, que já
se formara em torno de nosso veículo. Apertei muitas mãos
e repeti muitos "salaam aleikuns".
A multidão foi
crescendo, e sugeri a Justin que nos afastássemos do jipe e andássemos
para o meio da rua. Uma criança beliscou meu pulso, e eu me convenci
de que era um acidente, um instante de desprezo infantil. Então
uma pedrinha passou por minha cabeça e bateu no ombro de Justin.
Então outro menino tentou agarrar minha bolsa. Dentro dela estavam
meu passaporte, cartões de crédito, dinheiro, agenda, caderneta
de endereços e telefones. Puxei a bolsa de volta. Atravessamos a
rua, e então alguém me deu um soco nas costas. Os meninos
riam. O estrangeiro estava assustado, fugindo. Era o Ocidente sendo humilhado.
Então percebemos um motorista de ônibus que acenava de seu
veículo, no meio da rua. Justin alcançou o ônibus e
subiu nele. No momento em que eu pus os pés no degrau, três
homens agarraram a alça de minha bolsa e me puxaram para o chão.
Segurei a mão de Justin.
Foi quando recebi o
primeiro golpe forte na cabeça. Quase caí. A mensagem era
apavorante: alguém me odiava o suficiente para querer me ferir.
Recebi mais dois socos fortes, enquanto ainda segurava a mão de
Justin. Os passageiros olhavam para mim e para Justin, mas não se
mexiam. Ninguém queria ajudar. Foi então que me arrastaram
para longe. Recebi mais dois golpes na cabeça. O golpe seguinte
foi dado por um homem que eu vi carregando uma pedra grande. Ele bateu
a pedra contra minha testa com força tremenda, e alguma coisa líquida
e quente veio jorrando sobre meu rosto, meus lábios e meu queixo.
Me chutaram – nas costas, nas canelas, na coxa direita. Outro adolescente
agarrou minha bolsa outra vez, e eu me vi segurando a alça. Olhei
para cima e percebi que deveria haver uns 60 homens, todos gritando. Foi
estranho, mas o que senti não foi medo, mas uma espécie de
surpresa. Quer dizer que é assim que acontece. Eu percebia que teria
que reagir. Ou isso, racionei, ou eu morreria.
A única coisa
que me chocava era meu próprio senso de impotência física,
a crescente consciência do líquido que começava a me
cobrir inteiro. Quanto mais eu sangrava, mais a multidão me batia.
Pedras pequenas e maiores começavam a atingir minha cabeça.
De repente, ela foi golpeada com pedras de cada lado, ao mesmo tempo –
não pedras atiradas, mas pedras nas palmas de homens que as usavam
para tentar rachar minha cabeça. Então um punho acertou um
soco no meu rosto, estilhaçando meus óculos, enquanto outra
mão arrancava o segundo par de óculos que levo. Acho que
neste ponto devo agradecer ao Líbano. Passei 25 anos cobrindo as
guerras do Líbano, e os libaneses me ensinaram muitas e muitas vezes
como se faz para continuar vivo: tome uma decisão, qualquer uma,
mas nunca fique parado sem fazer nada.
Então puxei
a bolsa de volta das mãos do rapaz que a segurava. Depois me voltei
para o homem que segurava a pedra ensanguentada na mão e lhe dei
um soco na boca. Eu não enxergava muita coisa – não apenas
estava míope, como também meus olhos estavam cobertos por
uma névoa vermelha –, mas vi um dente cair de sua boca. Ele recuou.
A multidão parou por um instante. Então ataquei o outro homem,
ainda agarrando minha bolsa, e lhe dei um soco no nariz. Depois corri.
Eu estava no meio da rua novamente, mas não conseguia enxergar.
Tentei limpar os olhos. Comecei a enxergar de novo e percebi que estava
chorando. "O que foi que eu fiz?", repetia. Eu tinha socado e atacado refugiados
afegãos, exatamente as pessoas sobre as quais vinha escrevendo havia
tanto tempo, as pessoas mutiladas e miseráveis que meu próprio
país (Reino Unido) – entre outros – estava matando.
Neste momento aconteceu
uma coisa espantosa. Um homem se aproximou de mim, com muita calma, e me
pegou pelo braço. Ele usava um turbante, tinha barba grisalha, quase
branca, e me conduziu para longe da multidão. Ele era como uma figura
do Velho Testamento, o bom samaritano, um muçulmano – um líder
do povoado, quem sabe – que tentava salvar minha vida.
Ele me empurrou para
dentro da traseira de um carro da polícia. Mas os policiais não
se mexiam. Estavam apavorados. "Me ajudem!", gritei pela janelinha dos
fundos da viatura, minhas mãos manchando o vidro de sangue. Eles
avançaram alguns metros e pararam ao lado de um comboio da Cruz
Vermelha. A multidão ainda nos perseguia. Mas dois dos atendentes
médicos me puxaram para trás de um de seus veículos,
jogaram água sobre minha cabeça e meu rosto e enfaixaram
minha cabeça. "Deite no chão e lhe cobriremos com um cobertor,
para que não o vejam", disse um deles. Minutos mais tarde, Justin
chegou.
"Não pegaram
minha bolsa", eu repetia, como se meu passaporte e meus cartões
de crédito fossem uma espécie de Santo Graal. Mas pegaram
até mesmo meu último par de óculos, sem os quais fico
cego, meu celular e meu caderno de contatos, contendo 25 anos de números
de telefone acumulados em todo o Oriente Médio.
Passei mais de duas
décadas e meia relatando a humilhação e a miséria
do mundo muçulmano, e agora a revolta dele atingiu também
a mim.
A brutalidade dos que
me atacaram é inteiramente produto da ação de outros,
da nossa – nós, que armamos sua luta contra os russos, que ignoramos
sua dor, que zombamos de sua guerra civil e depois os armamos e pagamos
para lutar na "guerra pela civilização", a poucos quilômetros
de distância, e então bombardeamos suas casas, massacramos
suas famílias e chamamos isso de "danos colaterais".
Então pensei
que eu deveria escrever sobre o que aconteceu conosco nesse incidente temível,
tolo, sangrento, pequeno. Temi que outras versões pudessem resultar
numa narrativa diferente, numa história de como um jornalista britânico
"foi espancado por uma turba de refugiados afegãos".
E é esse o cerne
da questão, é claro. Os agredidos foram os afegãos.
As cicatrizes foram infligidas por nós, pelos aviões B-52,
e não por eles. E torno a repetir: se eu fosse um refugiado afegão
em Kila Abdullah, teria feito exatamente o que fizeram. Teria atacado Robert
Fisk – ou qualquer outro ocidental que encontrasse.
Robert Fisk
Consciência.Net