Branwen Jeffreys, de Peshawar
Não é
fácil encontrar uma prostituta no Paquistão durante o Ramadã.
Durante o mês sagrado para os muçulmanos, elas se retraem
com os afastamento dos clientes. Mesmo no resto do ano, na cidade de Peshawar,
a mais antiga das profissões opera com discrição,
quase na invisibilidade.
Mas eu fui informado
que, nos campos de refugiados em torno da cidade, algumas mulheres que
vieram do outro lado da fronteira, do Afeganistão, foram levadas
a vender sexo para sustentar seus filhos. Não é difícil
perceber por quê.
A guerra deixou muitas
mulheres viúvas e sem família. Afegãs de pequenos
vilarejos, que sabem trabalhar apenas na agricultura, se encontram sozinhas
em um dos enormes campos de refugiados ou numa cidade.
Crescimento
Em Peshawar, no final do dia, grandes grupos de mulheres se reúnem nas calçadas do lado de fora de padarias, implorando por pão ao final do jejum obrigatório do Ramadã. Arian McGee trabalha para uma entidade de caridade que realiza trabalho de educação sobre Aids e outras doenças sexualmente transmissíveis, numa sociedade altamente conservadora.
Refugiadas afegãs: mendicância e prostituição
Isso significa não
apenas ir às escolas, mas tentar alcançar aqueles que estão
em situações de maior risco: as profissionais do sexo de
Peshawar e outras cidades da fronteira com o Afeganistão. Adrian
e sua equipe se familiarizaram com os pontos em que as mulheres são
escolhidas pelos clientes – pontos de ônibus, parques e até
mesmo salas de espera de hospitais.
Nos últimos
dois anos, segundo Adrian, eles já haviam visto um crescimento visível
e constante do número de mulheres afegãs trabalhando como
prostitutas. "É um problema escondido, e eu não tenho números
sobre isso, mas está acontecendo," afirmou. "Algumas dessas mulheres
não têm outra escolha, elas tentaram conseguir outros tipos
de trabalho. Mas é muito difícil para as mulheres, então
algumas optam pela prostituição."
Bordel
Com um de seus colegas,
um homem recrutado de um grupo de dança, Adrian nos levou a um bordel
da região. Frágil, gracioso e incrivelmente afeminado, o
colega cruzou as pernas no banco da frente do carro. O comércio
estava fechando, e os homens em turbantes se dirigiam com pressa para suas
casas de bicicleta, riquixá ou charrete.
Dentro do carro, o
ex-dançarino começou a cantar uma famosa música patã,
Bibi Shirini, fazendo uma tradicional coreografia – olhando para o nosso
motorista paquistanês, que parecia às vezes constrangido e
às vezes satisfeito.
Nós andamos
por ruas cada vez mais estreitas quando ele nos disse para parar. Nós
fomos levados para dentro de uma casa espaçosa e sentamos em uma
cama. Uma jovem prostituta penteava o cabelo, olhando para nós por
um espelho. Cinco ou seis garotas – todas de 20 e poucos anos – foram colocadas
no quarto para nos encontrar.
Amigáveis, tímidas
e curiosas, elas eram todas paquistanesas, mas sabiam da existência
de mulheres afegãs entre as prostitutas. Depois de alguns minutos
de conversa e sorrisos, veio a pergunta inevitável: como nós
poderíamos encontrar as afegãs? Elas disseram que perguntariam
a outras pessoas.
Desespero
Então, numa noite
eu me encontrei no chão ao lado de duas afegãs – ambas refugiadas.
A mais jovem – de apenas 22 anos – havia chegado ao país dois meses
antes vinda do Afeganistão, de um vilarejo ao norte de Cabul. Com
sua cabeça modestamente coberta por um véu, ela me disse
que seu marido e sua família haviam sido mortos na guerra.
Ela não foi
casada por muito tempo, era uma garota de um vilarejo sem educação
e agora, tão envergonhada, ela não me diria qual era o seu
nome. Sozinha para cuidar de seus três filhos, dois irmãos
e uma irmã, ela caminhou com eles até chegar a Peshawar,
no Paquistão.
"Se eu tivesse educação,
eu não faria esse trabalho de jeito nenhum", disse. "Eu gostaria
que alguma coisa acontecesse para nos tirar dessa vida. Nós somos
forçadas a fazer isso, assim como outras mulheres. Pelas crianças,
eu destruí a minha vida."
O preço da vergonha
são milhares de rúpias. Uma bela jovem como ela pode ganhar
mais de US$ 150 por mês, uma fortuna comparada a qualquer outro tipo
de trabalho. Mas algumas mulheres mais velhas têm de vender o corpo
por menos de US$ 2. E, quando as prostitutas vão perdendo a juventude,
muitas são levadas a ir de cidade em cidade em busca de novos clientes,
tentando manter seu preço alto.
Muitas refugiadas que
se encontram no Paquistão falam da expectativa de voltar para o
Afeganistão. Mas dessa vez eu não precisei perguntar. Para
essa jovem mulher – assim como para outras – não existe caminho
de volta. Ela, que um dia foi uma jovem respeitável, mas agora é
uma prostituta, não poderá mais voltar para o seu vilarejo
de origem.
Fonte: BBC
Consciência.Net