Fome leva pais afegãos a vender seus filhos
Barry Bearak

Kangori, Afeganistão. Perseguido pela necessidade, exaurido pela fome, Akhtar Muhammad primeiro vendeu seus poucos animais de fazenda e depois, à medida que os meses passaram, trocou os tapetes puídos da família, os utensílios de metal de cozinha e até algumas das vigas de madeira que sustentavam o teto de sua lotada cabana.
    Mas a fome sempre durou mais que o dinheiro. E finalmente, há seis semanas, Muhammad fez algo deploravelmente comum neste país desesperado. Ele levou dois de seus 10 filhos ao mercado da cidade mais próxima e os trocou por sacos de trigo. Partiram de sua casa os meninos, Sher, de 10 anos, e Baz, de 5. "O que mais eu poderia fazer?" perguntou o pai desolado no sábado, em Kangori, uma aldeia remota nas montanhas do norte do Afeganistão. Ele não quis parecer como se não se importasse. "Eu sinto saudade de meus filhos, mas não havia nada para comer", disse ele, olhado para os lados para provar que sua miséria não era incomum.
    Nas colinas próximas, pessoas enfraquecidas estavam voltando de uma coleta de espinafre silvestre e até folhas de grama uma planta terrivelmente amarga que só se torna comestível se cozida por bastante tempo. "Para alguns, não resta mais nada", murmurou Muhammad.
    O Afeganistão, um berço de tragédia, está vivendo no momento seu quarto ano de seca, e com a seca vem seu resultado inevitável, a fome. Os famintos, caminhando rumo à morte, tentam resistir de formas deploráveis, vendendo tudo, comendo mato, partindo para mendigar.
    Mas um certo consolo acompanha a abundância de desespero. No outono passado, quando os bombardeios americanos obstruíram a distribuição de alimentos de emergência, grupos de ajuda humanitária temiam uma fome em massa. Mas à medida que o inverno se aproxima do final, a fome provou não ser tão letal quanto se temia, deixando milhões apenas próximos da morte.
    "Em uma situação como esta, pessoas sempre vão morrer, mas conseguimos fazer muito para minimizar a perda de vidas", disse Alejandro Chicheri, porta-voz do Programa Mundial de Alimentos das Nações Unidas. "Se há fome, é apenas em pequenos redutos". O Programa Mundial de Alimentos e vários grupos de ajuda merecem crédito por uma louvável mobilização. Trigo e ocasionalmente feijão e óleo de cozinha tem sido distribuído para 6,5 milhões de afegãos, com o produto sendo às vezes enviado em um revezamento de caminhões, camelos e mulas. Esta caridade impediu que muitos morressem.
    "É muito bizarro", disse um membro da ajuda humanitária, Christopher S.F. Petch. "Você vai até locais onde as pessoas comem apenas pão feito de cevada e grama. As pessoas não têm uma aparência saudável, nem forte. Mas também não apresentam uma aparência esquelética. Elas estão se virando". É difícil estimar quantos já morreram devido à fome. A situação é complexa, e as informações incompletas. Este não é um país onde guardam registros. Além disso, a fome sempre mata indiretamente, permitindo que doenças desfiram o golpe final.
    No Afeganistão, duas décadas de guerra deixaram difícil distinguir entre tempos ruins e piores. Mesmo sem a fome, mais de uma em cada cinco crianças morrem antes dos 5 anos e a expectativa de vida é de apenas 44 anos. A maior das perguntas não respondidas são complicadas pela topografia.
    Centenas de aldeias ficam longe das estradas, escondidas em ravinas escarpadas e picos gigantescos, isolados ainda mais pela neve. Alguns afegãos vivem a vários dias de viagem de qualquer ponto de distribuição de alimentos. O que aconteceu com os isolados? "Nós os chamamos de pessoas imobilizadas internamente", disse Ahmed Idrees Rahmani, do Comitê Internacional de Resgate. "Onde quer que a estrada pare, o desastre parece começar. Chegar até algumas aldeias exige uma viagem de 4 a 5 dias de mula. As pessoas podem estar passando fome. Nós não temos como saber".
    Kangori, na província de Sar-e-Pol, é uma aldeia modesta de casas de barro que parecem se misturar à terra ressecada. Ela fica a uma caminhada de três horas pelas colinas da cidade mais próxima, Sholgarah, uma distância impossível de ser cruzada por alguns. Os velhos, enfermos e abatidos, são paralisados pela privação.
    Mas nem todos em Kangori estão sofrendo. Ajab Khan, um pastor próspero, foi de grande ajuda na cansativa turnê de visita aos doentes e miseráveis. "Veja, ela está comendo grama", disse ele na primeira parada, apontando uma mulher frágil que estava sentada ao lado de seu único alimento, uma tigela de mato. "Ela não tem absolutamente nada".
    A mulher, Gul Shah, disse que enviou seus cinco filhos para colherem mais mato na região. Para ela, Sholgarah, onde antes trigo era dado de graça, poderia ser Timbuktu. "Como eu poderia saber quando e onde há alimento de graça?" disse ela. Khan seguiu na direção de condições ainda piores. "Eu posso mostrar uma mulher cujo marido e dois filhos morreram de fome", disse ele, seguindo para outra cabana.
    Lá estava sentada Khali Gul, uma mulher chorosa com uma tigela de grama aos seus pés e ao lado de uma filha cujo rosto estava cheio de feridas. Ela disse que sua família passou a depender da procura de alimentos há dois meses, e agora eles parecem estar sucumbindo um a um devido à diarréia. Cinco dias depois da morte de seu marido, um filho de 3 anos e uma filha de 4 também morreram.
    "Eu não tenho ninguém para me ajudar", disse ela, começando a chorar. "Há algumas pessoas ricas na aldeia. Quando podem, eles me dão sobras de pão". Gul olhou para Khan, que acenou amavelmente com a cabeça e disse que ele estava entre os generosos. "Mas há fome por toda parte, e se eu desse comida para alguém durante todo o mês, o que aconteceria depois?" ele reclamou. "Por quanto tempo seria possível ajudar?"
    É a longo prazo que a maioria dos pais desconsolados pensam quando vendem seus filhos. Não há muito precedente no Afeganistão para este duro sacrifício. Tradicionalmente, as meninas são "vendidas" para casamento, com a família da noiva recebendo o preço. Mas o que ocorre agora é algo próximo da prática de trabalho penhorado. Os acordos diferem, mas o mais freqüente é a criança ser trocada pelo fornecimento contínuo de dinheiro ou trigo.
    "A família passava fome e eu precisava de ajuda em meu restaurante", disse Muhammad Aslam, explicando o motivo de ter comprado dois irmãos há quase dois anos. Enquanto bebia chá, Bashir, 13 anos, e Qadir, 11 anos, limpavam a cozinha no pequeno estabelecimento em Sholgarah. "É mais barato comprar meninos do que contratar meninos. Na verdade, eu poderia ter ficado com eles de graça".
    Aslam descreveu a transação: o pai ofereceu entregar os meninos contanto que fossem bem alimentados. "Mas eu conheço direitos humanos", disse o dono do restaurante. "Eu sabia que era obrigado a pagar algo a ele". A compensação ficou acertada em 400 mil afeganes por mês cerca de US$ 5 na época do acordo. "Depois de dois anos, eu parei de pagar e os meninos passaram a ser meus para sempre", disse Aslam alegremente, apresentando a situação como algo tão benevolente como uma adoção. Ele pediu que os meninos se sentassem ao seu lado. Ele pediu que sorrissem. Eles atenderam.
    Abdul Hamid, um carregador, também estava sentado no restaurante. "Eu comprei três crianças, todas de diferentes famílias", ele disse espontaneamente. Noor Agha tem 8 anos, Amruddin tem 9 e Malik tem 11. Ele mandou alguém buscar os meninos. Ele disse se considerar um autor de boas ações. "As famílias estavam passando fome", disse Hamid. "Elas não podiam dar aos meninos o que eu posso. Os meninos trabalham para mim, mas eu também os mandei para a escola. Eles estão se tornando meus filhos. Para que não se sintam solitários, eu concordei com que visitassem seus pais verdadeiros a cada seis meses".
    Akhtar Muhammad, com sua família passando fome em Kangori, barganhou mais do que a maioria. Por seu filho de 10 anos, Sher, ele agora recebe 20 quilos de trigo por mês; pelo mais novo, Baz, de 5 anos, ele recebe metade desta quantia. O acordo durará 6 anos. "Eu vendi os dois mais inteligentes dos meus 10 filhos", insistiu o pai.
    Já se passaram seis semanas desde que seus filhos foram entregues em Sholgarah. Ele concordou em ir até a cidade à procura do filho mais velho, para perguntar ao garoto sobre sua vida desarraigada. Pai e filho se encontraram por acaso em uma rua movimentada. Eles se abraçaram imediatamente. Sher estava montado em uma mula, carregando vários potes de metal. Ele tinha sido enviado para buscar água.
    "Eles não me tratam muito bem", disse o menino tristonhamente quando perguntado. De fato, escondendo o rosto de seu pai, seus olhos se encheram de lágrimas. Ele parecia prestes a chorar. "Eu trabalho muito e à noite eles me mandam para as montanhas para dormir com as ovelhas".
    Seu pai ouviu silenciosamente, com uma expressão neutra em seu rosto. "Eu fiquei triste por ter sido vendido", continuou o menino, agora olhando para baixo, engolindo sua vergonha. "Eu chorei. Às vezes eu ainda choro. Eu choro à noite. Mas eu entendo porque foi necessário me vender". Ele é o remédio de sua família para a fome. "Eu tenho que ir agora", disse o menino de 10 anos ao partir. "Eu tenho que me apressar ou eles me baterão".

Tradução: George El Khouri Andolfato

Fonte: The New York Times


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