Noam Chomsky: 'Os Estados Unidos elegeram Israel'
Toni Marques

Correspondente

Nova Iorque. Raras são as vozes de intelectuais judeus liberais que na mídia americana condenam as ações de Israel contra palestinos. O lingüista americano Noam Chomsky diz ao GLOBO que o assunto não merece atenção dos intelectuais americanos de um modo geral. Segundo ele, nem na Guerra do Vietnã eles se pronunciaram na hora certa. "Essas coisas não afetam o centro do poder", afirma, por telefone, de Lexington, Massachusetts.

Por que intelectuais judeus liberais não se manifestam aqui sobre o impasse entre Ariel Sharon e Yasser Arafat?

NOAM CHOMSKY: Não é um impasse entre Ariel Sharon e Yasser Arafat. É um impasse dos Estados Unidos e de Israel versus os palestinos, e os Estados Unidos estão jogando seu papel decisivo como vêm fazendo há 30 anos, apoiando as ocupações militares israelenses e a integração israelense dos territórios ocupados. Os Estados Unidos têm bloqueado unilateralmente os acordos diplomáticos que têm apoio do mundo todo, inclusive do Brasil. Quando você lê que helicópteros israelenses atacaram instalações civis em Jenin, isto significa helicópteros americanos que lhes foram enviados com esse propósito. Então não é um impasse entre Sharon e Arafat. E você pode ver isso diariamente. Outro dia, George Bush declarou que Sharon é um homem de paz e exigiu raivosamente que Arafat fosse reconhecido como terrorista. Mas, e Sharon? O que ele vem fazendo é muito pior.

Continua a haver o que o senhor um dia chamou de consenso manufaturado?

CHOMSKY: Se você olha para os intelectuais americanos liberais judeus, não só os judeus, mas intelectuais em geral, eles não se importaram tanto assim com Israel até meados dos anos 60. Não era uma questão principal. Em 1967, tudo mudou. Israel teve uma vitória militar que prestou um imenso serviço aos Estados Unidos, destruindo centros do nacionalismo árabe independente. Anos antes, a inteligência americana já havia reconhecido que o corolário ideológico, como eles colocaram, da oposição americana ao nacionalismo árabe era apoiar Israel como única base confiável para o poder americano, mas não houve ação até 1967. E então Israel mostrou que era uma base confiável para o poder americano na região, e foi aí que a aliança dos dois países decolou.

Por que celebridades, inclusive judaicas, não falam sobre a questão palestina?

CHOMSKY: Essas coisas não afetam a concentração do poder, seja público ou privado, a luta pelos direitos das minorias. Os executivos-chefes das principais corporações vão então alegremente se juntar a essa luta, está tudo bem. Mas, quando há um interesse básico de poder envolvido... Há uma ilusão de que intelectuais americanos se opuseram à Guerra do Vietnã. Não é verdade. Eles começaram a se opor quando já era tarde. Em março deste ano, dei palestras. Em cada uma, levantei o fato de que em março de 2002 vimos o 40 aniversário do anúncio público, por parte do governo Kennedy, de que estavam bombardeando o Vietnã do Sul, espalhando agentes de guerra química, mandando pessoas para campos de concentração. Mas ninguém deu importância à data. A razão é que ninguém sequer sabia disso, já que houve poucos protestos. Neste caso de agora, Israel presta serviços aos Estados Unidos. Além disto, os israelenses, ou pelo menos aqueles que são intelectuais ocidentalizados, seculares, tendem a achar que os palestinos são pobres e fracos.

Mas o rabino Michael Lerner, que edita a revista de uma comunidade judaica pacifista na Califórnia, recebeu ameaças por sua postura conciliatória.

CHOMSKY: Tem sido assim nos últimos 35 anos. Eu mesmo, de vez em quando, preciso da proteção da polícia. Isso acontece em toda parte.

Não tanto em Israel. Lá existem israelenses que são advogados de direitos humanos de palestinos e grupos bilaterais pacifistas. Por que são tolerados lá e não aqui?

CHOMSKY: Quando vou a Israel dar palestras não preciso de proteção policial. O segmento ocidental secularizado é muito mais tolerante. Mas devo dizer que tal tipo de reação é bastante comum na diáspora, e não só na judaica. As pessoas tendem a ser mais fanáticas do que seriam em seus países. Se você vai, por exemplo, a um bar irlandês em Boston, encontra pessoas a favor do IRA de modo muito mais passional.

Fonte: O Globo


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