17 de abril de 2003
Candidato a governo sob suspeita
O Globo, José Meirelles Passos, enviado especial AMÃ

A grande maioria dos iraquianos não tem a menor idéia de quem seja Ahmad Chalabi, o homem que os Estados Unidos vêm preparando para ser o novo presidente (interino) do Iraque no período de transição até as eleições. Ele tem 58 anos, mas está fora do país desde criança. Quando tinha 13 anos, sua família — que tinha grande influência política — fugiu para o exterior assim que a monarquia foi derrubada, em 1958.

Chalabi lidera um grupo chamado Congresso Nacional Iraquiano (CNI), criado em 1992 pela CIA (agência de informação americana), que pretendia concentrar num só pólo vários setores de oposição a Saddam Hussein no exílio.

Até meados do ano passado, Chalabi era financiado pelo Departamento de Estado dos EUA. Mas as remessas regulares de dinheiro à sede do CNI, em Londres, foram suspensas porque ele não soube explicar o desaparecimento de US$ 4 milhões. Uma investigação ainda está aberta.

No entanto, como a invasão do Iraque já tinha se tornado prioridade, e os EUA já haviam iniciado os planos para o pós-guerra, o presidente George W. Bush resolveu o impasse: determinou que, investigação à parte, o Pentágono passasse a financiar Chalabi. Ele tem as costas quentes em Washington: o vice-presidente Dick Cheney, o secretário de Defesa, Donald Rumsfeld, e o subsecretário de Defesa, Paul Wolfowitz — três legítimos falcões e articuladores da guerra no Iraque — são seus padrinhos.

A opinião dos três tem prevalecido sobre a da CIA, onde Chalabi perdeu o prestígio. Um informe preparado por analistas da agência há duas semanas sugeria que outra pessoa fosse designada para cuidar do período de transição no Iraque, pois ele estaria muito distante da realidade do país, onde haveria grande ceticismo em relação a ele.

Chalabi formou-se em matemática no prestigioso Instituto de Tecnologia de Massachusetts, em Boston. Fez doutorado na Universidade de Chicago e tornou-se professor no Líbano. Depois, tornou-se banqueiro em Amã, na Jordânia, onde há alguns anos já não pode mais pôr os pés. Em 1989, ele foi condenado no país por corrupção e fraude de milhões de dólares, quando dirigia o Petra Bank. Se entrar na Jordânia, vai para a cadeia.

Chalabi vive em Londres desde que fugiu da Jordânia e é hábil em negociações. Em 1998, por exemplo, convenceu o Congresso dos EUA a aprovar a Lei de Liberação Iraquiana, que estabeleceu a mudança de regime no Iraque — leia-se: a derrubada de Saddam Hussein — como uma meta da política externa americana.

No mundo árabe, Chalabi é mal visto. “Fantoche dos EUA” é a definição mais leve (e publicável) que aplicam a ele. “Oportunista” é outra classificação ligada a seu nome. Ele é tido como alguém com um talento especial: o de sempre dizer a seus benfeitores aquilo que eles gostariam de ouvir.


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